Um furão-de-patas-negras foi clonado, processo inédito nos EUA para uma espécie ameaçada

Um furão-de-patas-negras que morreu há mais de 30 anos foi agora clonado através das suas células preservadas, processo que pode ajudar a injetar diversidade numa população consanguínea em perigo de extinção.

Published 22/02/2021, 12:06 WET
Black footed ferret

Um furão-de-patas-negras na Reserva Indígena de Fort Belknap, no Montana. Provavelmente existem menos de 500 animais destes na natureza e são significativamente consanguíneos. Os cientistas clonaram um furão que faleceu há muito tempo para tentar injetar mais diversidade na população.

Fotografia de Sumio Harada, Minden Pictures

Provavelmente já ouviu falar da ovelha Dolly. Agora, conheça Elizabeth Ann, um furão-de-patas-negras.

Os cientistas conseguiram clonar um furão-de-patas-negras, uma espécie em perigo de extinção, usando células preservadas de um animal selvagem morto há muito tempo. Esta é a primeira vez que uma espécie nativa ameaçada de extinção foi clonada nos Estados Unidos.

Este avanço é um marco para a conservação dos furões-de-patas-negras, o único furão nativo da América do Norte. Esta espécie já viveu em vastas áreas do oeste americano, mas diminuiu à medida que agricultores e rancheiros eliminaram a sua presa principal, os cães-da-pradaria. Na década de 1970, pensava-se que estes furões estavam extintos. Mas em 1981, o cão de um rancho levou os cientistas até uma colónia de 18 furões numa propriedade em Wyoming.

Esses sobreviventes tornaram-se na base de um programa de reprodução em cativeiro administrado em parte pelo Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA no Colorado, e os animais foram reintroduzidos em oito estados nas Grandes Planícies. Mas só sete dos animais selvagens originais conseguiram reproduzir, e todos os furões vivos atualmente estão intimamente relacionados. A sua população selvagem tem hoje entre 400 e 500 individuos, diz Pete Gober, coordenador de recuperação de furões-de-patas-negras.

Este novo clone é uma cópia genética de uma fêmea selvagem chamada Willa, que morreu em meados da década de 1980 em Wyoming e não tem descendentes vivos. As suas células foram criopreservadas no Frozen Zoo, um programa do Zoo de San Diego que recolheu amostras de cerca de 1.100 espécies raras e ameaçadas de extinção pelo mundo inteiro. Os investigadores esperam agora criar Elizabeth Ann e introduzir a sua prole na natureza para injetar a diversidade genética necessária na população.

“Estamos muito entusiasmados – diria que estamos perto do êxtase”, diz Shawn Walker, diretor científico da ViaGen Pets and Equine, uma empresa privada de clonagem de animais que liderou este esforço em parceria com o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA, o Zoo Global de San Diego e o grupo de conservação biotecnológica Revive and Restore.

Este sucesso sugere que a clonagem pode ser uma ferramenta viável para a conservação, diz Ryan Phelan, diretora executiva da Revive and Restore. “Isto também ilustra a importância da preservação de células de espécies raras e ameaçadas de extinção”, diz Oliver Ryder, diretor de genética de conservação do Zoo de San Diego.

Os furões-de-patas-negras enfrentam uma ameaça existencial contínua de peste silvestre, uma infeção bacteriana introduzida e muitas vezes mortal que é disseminada por pulgas, e que é a principal ameaça à sua sobrevivência. Os investigadores esperam que o aumento da diversidade genética consiga ajudar a fornecer resistência a este patógeno. A modificação genética também é uma opção para o futuro, diz Ryan.

Fazer um clone

O processo de clonagem começou com a extração de óvulos de furões domésticos sedados, uma espécie com parentesco, que foram usados para evitar colocar em perigo as fêmeas ameaçadas de furões-de-patas-negras. Os óvulos foram amadurecidos e os cientistas da ViaGen usaram pipetas para remover o núcleo e o material genético, diz Shawn Walker. “Depois de transferirem o conteúdo das células de Willa para cada óvulo, os cientistas deram-lhes um estímulo de ativação – basicamente uma carga elétrica – para fazer com que se dividissem. Isso criou embriões que foram depois implantados num furão doméstico fêmea. Um dos embriões teve sucesso.

É basicamente o mesmo processo usado com a ovelha Dolly há 25 anos, o primeiro mamífero clonado de uma célula adulta – embora seja um pouco mais complexo porque envolve a transferência de material genético de uma espécie para outra.

(Relacionado: Os primeiros macacos clonados como a ovelha Dolly.)

Ben Novak, cientista da Revive and Restore, visitou Elizabeth Ann no Centro Nacional de Conservação de Furões-de-patas-negras no dia 31 de dezembro de 2020. Nesta fotografia, Elizabeth Ann tem três semanas de vida.

Fotografia de Revive & Restore

Elizabeth Ann nasceu no dia 10 de dezembro no Centro Nacional de Conservação de Furões-de-patas-negras do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA, no Colorado. O nome não foi escolhido devido a qualquer motivo em específico – estava numa lista que o centro compila para nomear os diversos animais que ali nascem.

Até agora, os testes revelam que esta cria é saudável. Elizabeth Ann vai continuar a ser monitorizada e os cientistas esperam que eventualmente se reproduza. Se tudo correr bem, os seus netos ou bisnetos poderão ser reintroduzidos na natureza em 2024 ou 2025, diz Ben Novak, cientista da Revive and Restore.

Sobreviver

Os cientistas não esperam quaisquer efeitos negativos da reintrodução na natureza de descendentes de um animal clonado. Como acontece com todos os furões-de-patas-negras reintroduzidos na natureza, os seus descendentes seriam primeiro aclimatizados e observados num cercado ao ar livre, diz Pete Gober. Nestas condições, os furões criados em cativeiro devem mostrar que conseguem caçar cães-da-pradaria e que têm as outras aptidões necessárias para sobreviver por conta própria.

A espécie de Elizabeth Ann não é a primeira em perigo de extinção a ser clonada a partir de um indivíduo morto há muito tempo. A Revive and Restore, o Zoo de San Diego e a ViaGen já tinham colaborado anteriormente para clonar um cavalo-de-przewalski em perigo de extinção, que nasceu em agosto de 2020.

Oliver Ryder diz que está muito emocionado por ver que as células do Frozen Zoo sobreviveram mais de 30 anos e produziram um clone viável. No final da década de 1980, quando Oliver incentivou a recolha de biopsias de pele de Willa para estudar a genética da espécie, pensava-se que essas células não poderiam ser usadas na clonagem. Agora, podem até mesmo ser transformadas em células-tronco, que podem depois ser induzidas para formar qualquer tipo de célula corporal, diz Oliver.

Todos os furões-de-patas-negras atualmente vivos são parentes tão próximos quanto irmãos ou primos de primeiro grau. Os genes de Willa, que agora vivem em Elizabeth Ann, têm três vezes mais diversidade genética, diz Ryan Phelan. Esta infusão de diversidade genética pode ajudar os animais a reproduzirem-se mais facilmente e a serem mais resistentes a doenças e a fatores de stress.

“Expandir o reservatório genético parece uma oportunidade tremenda para ajudar a garantir a sustentabilidade da espécie a longo prazo”, diz Oliver.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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