Crias de foca-harpa morrem em terra à medida que o gelo de inverno desaparece

A presença sem precedentes de focas-harpa em terra é um sinal do impacto drástico que as alterações climáticas têm sobre o gelo marinho e vida selvagem.

Por Saroja Coelho
Publicado 29/03/2021, 12:59
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Uma cria de foca-harpa numa praia coberta de neve perto da cidade de Blanc-Sablon, no Québec, no início de março. Normalmente, as focas-harpa têm e criam as suas proles no gelo marinho do Golfo de São Lourenço, mas a cobertura de gelo deste ano está no nível mais baixo de sempre, colocando a sobrevivência das crias em risco.

Fotografia de Mario Cyr

Nos seus 40 anos de carreira enquanto fotógrafo marinho e líder de expedições no norte do Canadá, Mario Cyr nunca viu crias de foca-harpa agrupadas na costa. Todos os anos em dezembro, uma população de focas-harpa chega ao Golfo de São Lourenço, viajando para sul a partir Ártico canadiano e da Gronelândia para dar à luz no gelo marinho em torno das Ilhas da Madalena em finais de fevereiro e início de março. Estes berçários de focas-harpa atraem anualmente centenas de pessoas que chegam ansiosas à região para ver as crias brancas e felpudas a brincar no gelo e a engordar com o leite materno.

Mas, nos últimos dias, centenas de crias apareceram na praia fora da pequena comunidade de Blanc-Sablon, no Québec, a cerca de 565 quilómetros a nordeste das Ilhas da Madalena.

A cobertura de gelo marinho no Golfo de São Lourenço está no seu nível mais baixo desde 1969, ano em que se deu início às primeiras medições anuais. À medida que as plataformas de gelo se dissolvem ou fragmentam em pequenos pedaços, as crias de foca são forçadas a ir para a zona à beira-mar e correm o risco de serem esmagadas por pedaços de gelo partidos, morrerem afogadas ou comidas por predadores terrestres, como coiotes. Estima-se que 2021 seja um ano devastador para a taxa de mortalidade das crias de foca-harpa.

“Este ano, não há gelo absolutamente nenhum”, diz Mario Cyr. “Estas focas estão sem opções.” Mario passou dias a fotografar as crias para a National Geographic enquanto estas estavam em apuros no gelo dissolvido ou deitadas nas margens de neve a chamar pelas mães.

Gelo marinho imprevisível

As focas-harpa, que podem crescer até aos 1,80 metros de comprimento e pesar até 180 quilos, geralmente passam pouco tempo em terra, preferindo cruzar as águas frias do Atlântico Norte e do Ártico, alimentando-se de crustáceos e peixes. As focas lembram-se do local onde nasceram e, todos os invernos, tendem a regressar a esses locais para se reunirem em massa, procriar e dar à luz.

O gelo marinho é o único lugar onde as focas-harpa dão à luz, mas a cobertura no Golfo de São Lourenço está cada vez menos previsível. “Quase não resta gelo no golfo”, diz Peter Galbraith, especialista em gelo marinho do Departamento de Pescarias e Oceanos do Canadá.

Habitantes locais observam crias de foca na praia. O berçário habitual das focas fica no gelo marinho de inverno que se forma em torno das Ilhas da Madalena, cerca de 565 quilómetros a sudoeste. Como este ano não se formou gelo marinho, as fêmeas grávidas foram forçadas a seguir para norte à procura de novas zonas de criação.

Fotografia de Jordan Hamelin

“Normalmente vemos cerca de 15 milhas cúbicas de gelo no golfo”, diz Peter. Este ano, o gelo atingiu o pico abaixo das três milhas cúbicas em fevereiro e já diminuiu para menos de uma milha cúbica.

“A qualidade do gelo também é importante para as focas, que preferem blocos mais grossos que resistam às tempestades e que não sejam afetados pelo vento.” A tendência de aquecimento que já dura há uma década no Golfo de São Lourenço continuou neste inverno, com as águas profundas a atingirem temperaturas recorde. O pouco gelo que apareceu no golfo carece de densidade e parte-se facilmente.

“As ondas infiltram-se nos blocos de gelo e quebram-nos”, diz Peter. “Se tivermos focas em blocos de gelo pequenos, com gelo fino e muita água aberta, qualquer tempestade pode empurrar as crias para as fendas ou diretamente para a água antes de estas conseguirem nadar.”

Progenitoras procuram um lugar para dar à luz

Na costa de Blanc-Sablon, as fêmeas grávidas provavelmente viajaram para sul, para o golfo, como fazem todos os anos, para se alimentar durante os meses de inverno, diz Garry Stenson, especialista em focas-harpa do Departamento de Pescarias e Oceanos do Canadá. Mas quando chegou o momento de terem as suas crias, ficaram sem o gelo que normalmente serve de berçário, forçando-as a viajar novamente para norte.

Mas mais a norte, ao longo da região nordeste da Terra Nova, as condições do gelo também têm sido más, de acordo com Mark Hammill, especialista em mamíferos marinhos.

Uma mãe foca alimenta a sua cria na praia perto de Blanc-Salon, um berçário que está longe de ser ideal. Os habitantes curiosos deslocam-se em motos de neve para ver as focas, mas alguns aproximam-se de forma perigosa, diz o fotógrafo Mario Cyr.

Fotografia de Jordan Hamelin

As focas grávidas precisavam de encontrar gelo depressa e provavelmente contentaram-se com os pedaços partidos junto à costa. Mas também podem ter encontrado bolsas de gelo perto de Blanc-Sablon, ou mais longe, perto de Belle Isle, mas esse gelo flutuou em direção à costa, e fragmentou-se com as forças do vento e das ondas.

“Num ano bom, o gelo é bastante compacto e permanece junto”, diz Garry Stenson. “Mas nos anos em que o gelo é fraco, há muito espaço, o gelo tem muito mais mobilidade e acaba por andar à deriva com o vento e as correntes.”

Quando isso acontece, a taxa de mortalidade de focas-harpa é elevada. As crias não têm gordura quando nascem, mas ganham rapidamente peso ao amamentarem-se com o leite materno rico em gordura. As crias precisam de semanas em gelo estável para amadurecer fisiologicamente, e para conseguirem a resistência necessária para nadar em águas geladas. Uma queda no oceano sem a mãe por perto é praticamente mortal.

Uma cria magra na praia tenta amamentar-se na própria barbatana. Algumas crias provavelmente nasceram em gelo marinho fino nas proximidades, gelo que se separou e levou as crias para a costa. Se a quebra de gelo separar as crias das mães, estas ficam vulneráveis a predadores terrestres, como coiotes.

Fotografia de Mario Cyr

Não se sabe se as crias foram levadas para a costa em cima de gelo fragmentado ou se nasceram na praia mas, de qualquer forma, é improvável que qualquer uma das focas em Blanc-Sablon sobreviva, diz Mark Hammill. As crias podem morrer esmagadas, afogadas ou ficarem indefesas contra predadores caso as suas mães não as consigam encontrar depois de terem andado à deriva até à costa.

Expedições de observação de focas desaparecem com o gelo

As focas-harpa podem eventualmente parar de regressar a estas águas à medida que as temperaturas mais elevadas provocadas pelas alterações climáticas atrasam ou impedem o desenvolvimento de gelo, diz Peter Galbraith. As estações mais frias do ano estão a ficar mais curtas, e o que começou por ser uma anomalia ocasional de quebra de gelo em 1958 e 1969 expandiu-se para uma escassez de gelo em 2010, 2011, 2017 e 2021.

Em 2020, o sangue dos partos manchava as plataformas de gelo partidas onde as focas se reúnem no Golfo de São Lourenço. As crias precisam de gelo sólido para sobreviver, mas nos últimos anos o aquecimento global e a escassez de gelo estável levaram a um aumento na sua taxa de mortalidade.

Fotografia de Jen Hayes

Se o gelo marinho continuar a desaparecer no golfo, as focas irão acabar por não se lembrar dos seus viveiros nestas águas e deixarão de migrar para o Golfo de São Lourenço.

Isso significaria uma nova realidade desoladora para as comunidades da região, sobretudo nas Ilhas da Madalena, onde as expedições de observação de focas atraem milhares de visitantes e fornecem emprego durante os meses de inverno. “É uma sensação estranha em relação ao gelo. Conseguimos sentir que falta algo. Nesta época do ano, ao caminhar pela praia, [não há] gelo, é só água, água, água”, diz Ariane Berubé, uma habitante da ilha. “É como se houvesse uma quebra no nosso ciclo de vida. Saltamos do outono para a primavera, e há uma estação em falta.” (A National Geographic selecionou as Ilhas Madalenas como um dos melhores destinos de 2020.)

Ariane Berubé é diretora de comunicações do Hotel Accents, que há mais de 40 anos organiza passeios pelos berçários de focas no gelo. Antigamente, era possível sobrevoar de helicóptero o gelo e encontrar um viveiro de focas-harpa com milhares de crias. Ariane diz que a equipa do hotel ficou chocada com a escassez de gelo em 2010 e que todas as visitas foram canceladas, mas essa desilusão foi encarada como uma oportunidade.

No ano passado, uma tempestade partiu o gelo recém-formado, que se transformou numa manta de retalhos de placas de gelo. Quando esta jovem foca-harpa tentou atravessar as plataformas, o gelo começou a fragmentar debaixo de si.

Fotografia de Jen Hayes

O Hotel Accents reviu o seu programa para incluir educação climática e palestras sobre conservação, e Ariane diz que os visitantes estão agora ansiosos para descobrir como se pode preservar o gelo marinho, para que as futuras gerações possam desfrutar da alegria de ver os berçários de focas nos blocos de gelo.

“Estamos a transformar as crias de foca-harpa no rosto da crise climática”, diz Ariane, acrescentando que o desaparecimento destas focas bebés ajudou a destacar outros problemas provocados pelas alterações climáticas na região, incluindo a erosão costeira generalizada devido à falta de gelo marinho e as disrupções nas populações de lagostas, que estão lentamente a dirigir-se mais para norte, para águas mais frias.

Enquanto isso, nas margens de Blanc-Sablon, o espetáculo das crias de foca-harpa na praia continua a atrair pessoas da vila mais próxima, incluindo turmas escolares de crianças e visitantes em motos de neve. Um destes visitantes publicou um vídeo (que já não está disponível) a celebrar um avistamento, mas as imagens podem na realidade ter captado os últimos momentos de uma cria em exaustão. É provável que esta seja apenas uma de várias crias de foca-harpa a enfrentar dificuldades este ano.

Uma cria morta na praia perto de Blanc-Sablon em março de 2021. É pouco provável que qualquer uma das crias consiga sobreviver na praia, diz Mark Hammill, especialista em mamíferos marinhos. O desaparecimento do gelo marinho pode eventualmente fazer com que esta população de focas-harpa deixe de visitar o Golfo de São Lourenço.

Fotografia de Mario Cyr


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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