Dr. Pol: “Os animais nunca deixam de me surpreender.”

Conversámos com o famoso veterinário da série ‘O Incrível Dr. Pol’, do National Geographic, sobre as emoções dos animais, o bem-estar animal, a agricultura e o futuro dos veterinários de campo.

Publicado 5/03/2021, 10:27 WET
Dr. Jan Pol fotografado durante a rodagem de 'O Incrível Dr. Pol'.

Dr. Jan Pol fotografado durante a rodagem de 'O Incrível Dr. Pol'.

Fotografia de NATIONAL GEOGRAPHIC CHANNEL / JOEY L

A popularidade de longa data do programa de televisão O Incrível Dr. Pol, transmitido no National Geographic, poderia facilmente subir à cabeça da maioria das pessoas. Mas não é claramente isso que acontece com Dr. Pol, cuja paixão e compreensão pelos animais é contagiante e inspiradora. Com quarenta anos de prática, a sua missão permanece a mesma de sempre: certificar-se de que os animais que encontra estão saudáveis e são bem tratados.

Jan Pol reservou algum tempo, entre duas consultas, para responder às nossas perguntas “por vezes muito difíceis” por telefone.


Vamos começar com a pergunta de um milhão de dólares! Cada vez há mais estudos que sugerem que os animais têm processos de pensamento, emoções e ligações sociais que são tão importantes para eles como são para nós. Concorda com esta afirmação e, em caso afirmativo, costuma testemunhar isso no seu dia-a-dia de trabalho?
Sim, completamente. Com a exceção de que os animais não analisam... quer dizer, eles pensam e sentem, mas sempre que fazem algo, nem sempre antecipam as consequências das suas ações. Mas sabem muitas coisas. Os animais sabem quando está na hora de comer, sabem a que horas chegamos geralmente a casa – as ligações com os humanos são na verdade uma ótima forma de ver as emoções nos animais. Para além disso, os animais nunca esquecem. Não consigo compreender como é que isso é possível, mas nunca esquecem. Só sei que, agora que estou a envelhecer, gostava de poder fazer o mesmo!

Quanto mais trabalho com animais, mais inteligentes parecem. Os animais nunca param de me surpreender. Eles têm obviamente emoções e ligações sociais. Uns com os outros, como é óbvio, mas também com as pessoas. Por exemplo, temos uma vizinha que tem diabetes. Quando o marido, que cuidava dela, faleceu, o seu cão, que dormia na sua cama, acordava-a a meio da noite caso os níveis de açúcar no sangue estivessem baixos. Como é que isso é possível? Ao observar o marido a cuidar dela, o animal parece que se treinou para acordar a dona sempre que o açúcar no seu sangue baixava. Os animais têm este sexto sentido que nós já não temos... perdemos porque evoluímos de uma forma menos ligada à natureza.


Já viu animais a sofrer quando perdem uma cria ou um humano?
Sim, quando perdem o dono conseguimos definitivamente ver isso. Mas quando temos, por exemplo, três ou quatro cães em casa, eles não sofrem uns pelos outros... porque os animais aceitam a morte como parte da vida. E é isso que digo aos donos: “Os animais não têm medo de morrer”. Para nós, é doloroso deixar os nossos animais de estimação partir, mas quando um animal sabe que está a morrer, ele pode simplesmente fugir e nunca mais regressar. Um animal deita-se simplesmente quando sabe que chegou a hora.


Na sua opinião profissional, quais são os tipos de impactos físicos e emocionais que os diferentes tipos de criação podem ter nos animais de criação (por exemplo, criação industrial por oposição a criação em liberdade)?
Os animais, sobretudo os animais grandes no topo da cadeia alimentar, como vacas e galinhas, não têm meios para se defender. Quando fazemos com que as vacas fiquem num celeiro ou num campo pequeno, ou num ambiente fechado, elas ficam muito felizes porque estão seguras. Na natureza, estes tipos de animais tendem a permanecer em grupos por questões de segurança.

O verdadeiro problema é que a agricultura familiar tem desaparecido, porque a agricultura já não é rentável. Quando eu e a Diane começámos há 40 anos, havia quintas a cada três ou quatro quilómetros. Quando eu era um jovem veterinário, lembro-me de fazer 22 visitas diárias para fazer exames de gravidez às vacas. Essas quintas já desapareceram, só restam talvez uma dúzia de quintas familiares e o que vemos agora são quintas gigantes que operam sob contrato com grandes empresas para produzir demasiado leite, demasiada carne. Mas mesmo no sistema de criação industrial, os animais são bem tratados...


Não concordo completamente... o meu primeiro emprego de verão, antes de ir para a universidade, foi numa fábrica de ovos. Eu era basicamente responsável pelo embalamento dos ovos, a última etapa no processo. E o que testemunhei deixou-me horrorizada. Galinhas todas juntas, centenas em gaiolas pequenas, fechadas o dia inteiro em instalações sem luz natural, a pisarem-se umas às outras... e os funcionários acendiam e apagavam as luzes várias vezes por dia para fazer as galinhas acreditar que se tratava de um novo dia e que tinham de colocar novamente um ovo. As galinhas morriam depois de alguns meses com este tratamento... não se pode dizer que esses animais eram bem tratados, e muito menos que eram felizes.
Bem, eu não vou a essas quintas enormes porque eles têm os seus próprios veterinários. E quanto maior for a quinta, menos fazemos enquanto veterinários, porque eles contratam a sua própria equipa de tratadores.

Nos Estados Unidos, já se percebeu que esse tipo de agricultura não compensa e os criadores tendem a não colocar galinhas em gaiolas, porque também é uma forma de prevenir surtos de doenças. E o que vemos é que, nos locais onde esses animais são bem tratados, são mais “produtivos”. Lembro-me de ser um jovem veterinário e testemunhar um agricultor a pontapear uma vaca. Eu estava muito chateado com ele e disse: “Se você não parar de pontapear a vaca, eu dou-lhe uma dentada”. Esse agricultor faliu seis meses depois, principalmente porque as suas vacas tinham demasiado medo dele e estavam muito stressadas para produzir qualquer leite. Era a isto que me referia quando disse que o principal enquanto agricultor é fornecer um ambiente seguro.


Como é que faz com que os animais confiem em si de maneira a que consiga cuidar bem deles?
Primeiro, olhamo-los nos olhos e não os assustamos. Eles percebem imediatamente se estamos com medo e compreendem como nos sentimos. E não tocamos neles. Esperamos que venham até nós e nos cheirem. Demora cerca de 10 segundos para eles perceberem se estamos com medo ou não, e se somos bem-intencionados ou não. Deixamos o animal conhecer-nos antes de irmos atrás dele. Isto é válido para cães e gatos, mas também para cavalos e vacas. Nunca vamos para perto de vacas com o intuito de as assustar. Mantemos as mãos junto ao corpo, caminhamos calmamente até um cavalo e deixamos o cavalo sentir o nosso cheiro. Depois, não importa se estamos ali para administrar uma injeção dolorosa, mas necessária, porque o animal sabe que temos boas intenções.


Por falar em injeções... quais têm sido as consequências da COVID-19 no seu trabalho?
Agora, as pessoas vêm à clínica, ficam nos seus carros e chamam-nos para dizer o que precisam. Se for uma consulta de rotina, pegamos no animal e damos-lhes as vacinas e etc. Se o animal estiver doente, pode entrar uma pessoa na clínica, mas já não podemos deixar as pessoas na sala de espera. Para nós é muito mais trabalhoso, porque temos de ir buscar e levar os animais e reunir todas as informações antes de começarmos os testes.


E em relação aos animais e respetivos donos? Apesar de os animais nos estarem a ajudar a lidar com a pandemia, algumas pessoas estão a reparar em alterações de comportamento nos seus animais...
Mais uma vez, os animais sentem os que os donos sentem. E muitas pessoas estão frustradas devido aos confinamentos e a todas as restrições. Portanto, estas pessoas já estão muito frustradas e ainda por cima têm de ficar em casa. No campo é mais fácil, porque podemos andar ao ar livre, mas na cidade é ainda mais frustrante. Os animais sentem a nossa frustração, mas continuam a apreciar a nossa presença independentemente disso. Creio que, quando os locais de trabalho reabrirem novamente, iremos ter cada vez mais casos de ansiedade de separação. Os animais habituam-se a ver as pessoas em casa durante meses e, de repente, ficam novamente sozinhos... vamos ver como é que isso corre.

A produção do programa O Incrível Dr. Pol também mudou recentemente devido à pandemia. Nas temporadas anteriores, você sabia quando estava a ser filmado, mas agora, com as novas regras de distanciamento social, o programa é filmado com câmaras remotas na sua clínica. O que é que isto altera para si durante as filmagens?
Acima de tudo, sou um veterinário. As filmagens são secundárias. A minha missão principal é cuidar dos animais. Muitas vezes perguntam-me qual é o meu animal favorito. O meu animal favorito é um animal saudável. É também por isso que o Charles [o filho de Dr. Pol] trabalha comigo, porque ele conhece a minha filosofia e a minha vontade de ajudar os animais.

Portanto, sim, você está correta, eles agora têm 60 câmaras remotas que se movem com comandos para ver o que conseguem filmar. Não fazemos ideia do que eles estão a filmar e como o vão editar [risos]!


É desestabilizador ou libertador não conseguir ver as pessoas que o estão a filmar?
Para mim, é indiferente. Estou mais preocupado com os animais do que com qualquer outra coisa. Se eles quiserem filmar um determinado caso, eu tenho conhecimento disso e vou certificar-me de que eles conseguem filmar como deve de ser, mas é só isso.


Por falar no programa, como é que lida com esta popularidade incrível e duradoura e com o escrutínio e a receção por vezes ambivalente dos outros veterinários?
O que vemos no programa é real, não há coisas falsas como em alguns dos outros programas. Sou eu, o Charles e a Diane, todos autênticos e reais. Lembro-me de um produtor que costumava trabalhar no programa nos dizer uma vez: “Porque é que você e o Charles não começam uma briga. As pessoas vão adorar!” Eu fiquei incrédulo. Eu adoro o meu filho. Por que razão iria começar a lutar com ele? Eu não faço isso. Acredito que ver uma família carinhosa no ecrã é muito mais importante para as pessoas.

Em relação ao escrutínio... será que as pessoas não estão a gostar da forma como eu estou a ajudar os animais? Sim, as pessoas têm esse direito, mas se você soubesse quantos clientes temos... chega a ser difícil aceitar novos clientes. Eles continuam a regressar porque estão contentes com a maneira como tratamos dos seus animais. Por vezes temos pessoas que fazem uma viagem de carro de três horas com uma galinha porque não encontraram veterinários perto de si, e porque sabem que a minha vontade é ajudar os animais. Há veterinários que promovem sempre os tratamentos mais caros. Mas se as pessoas não podem pagar um tratamento Cadillac, não há nada de errado em dar-lhes um tratamento Ford. O principal é garantir que um animal fica mais saudável.

É claro que podemos tratar aquela galinha por 300 dólares. Mas por que razão é que não a podemos tratar por um preço razoável, um preço adequado para a galinha e para as pessoas que nos procuram?


Recentemente, publicámos no site francês da National Geographic um artigo sobre os veterinários de campo em França. Estes veterinários são apaixonados, dedicam-se dia e noite aos animais e aos agricultores, mas dizem-nos que é cada vez mais difícil ser veterinário no campo… as longas horas de trabalho, a disponibilidade 365 dias por ano, a desertificação do interior e as dificuldades de alguns agricultores faz com que haja cada vez menos jovens veterinários que queiram seguir este rumo...
Exato. Isso é algo que também vemos aqui. A agricultura já não compensa. A não ser que se tenha uma quinta grande e contratos com a indústria. Por isso, as quintas familiares têm desaparecido. E sim, eu nunca quis trabalhar por conta própria por esse motivo: porque ficamos simplesmente exaustos. São 365 dias por ano, 24 horas por dia... e os animais,  sobretudo os animais de grande porte, não conhecem o conceito de fim de semana. É simplesmente impossível lidar com isso, a não ser que tenhamos uma clientela muito pequena. Mas se isso não compensar, não temos outra escolha a não ser desistir.


Mas quando o trabalho é uma paixão, quando se decide dedicar a vida aos animais, não se pode desistir. É uma escolha complicada porque é óbvio que os veterinários se importam, mas as longas horas de trabalho não compensam.
É verdade. Se um agricultor não tiver lucros, também não pode pagar ao veterinário. Mas quando um animal precisa da nossa ajuda, não podemos dizer que não por causa do dinheiro... por vezes temos simplesmente de aceitar que vamos perder dinheiro.


O programa é agora um verdadeiro negócio de família, pois envolve a sua esposa Diane e o seu filho Charles. Será que a criação de memórias em família é o verdadeiro segredo para um sucesso tão duradouro?
Sim! Sabe, eu venho de uma família de seis filhos e sou o único que resta. O meu último irmão, que vivia na Holanda, morreu em dezembro passado. Mas a parte boa é que os meus irmãos foram filmados para o programa. Assim, podemos viajar no tempo e vê-los novamente... Isso também é algo que torna isto tão bom e especial.

 

Esta entrevista foi editada por motivos de extensão e clareza e foi originalmente publicada em francês no site nationalgeographic.fr

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