Macacos continuam a ser obrigados a apanhar cocos na Tailândia

Meses depois de surgirem relatos de que os produtores de coco na Tailândia dependem da mão de obra de macacos, uma nova investigação revela que pouco foi feito.

Publicado 4/03/2021, 12:45
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Os macacos-de-cauda-de-porco são treinados para subir às árvores e colher cocos nas quintas do sul da Tailândia. Quando os macacos não estão a trabalhar, são muitas vezes mantidos acorrentados.

Fotografia de Prisma de Dukas Presseagentur GmbH, Alamy Stock Photo

Na Tailândia, os agricultores continuam a usar mão de obra de macacos para fornecer cocos ao mercado internacional, de acordo com novas informações da filial asiática da People for the Ethical Treatment of Animals (PETA).

Estas informações surgem cerca de seis meses depois de a PETA, organização dos direitos dos animais, ter divulgado os resultados de uma investigação infiltrada feita em 2019. O relatório fez com que as empresas de produtos derivados de coco, redes de supermercados e o governo tailandês assumissem o compromisso de não forçar mais os macacos a colher cocos.

A Tailândia é o terceiro maior exportador mundial de coco, a seguir à Indonésia e às Filipinas, e exportou mais de 500.000 toneladas de coco em 2019. A popularidade do leite de coco enquanto alternativa ao leite com lactose tem crescido de forma consistente ao longo dos últimos cinco anos, diz Avinash Desamangalam, gestor de pesquisa da Mordor Intelligence, empresa sediada na Índia que estuda o mercado à procura de alternativas para os laticínios. Avinash diz que a taxa de crescimento desta indústria pode duplicar nos próximos cinco anos.

Contudo, desde que surgiu a primeira investigação da PETA, alguns retalhistas de produtos à base de coco registaram uma redução de até 30% nas vendas, diz Avinash. Enquanto isso, cadeias como a Target e a Costco anunciaram que não iriam vender produtos de companhias que usassem mão de obra de macacos.

“Existe aqui um paradoxo, certo?” diz Avinash. “Os consumidores esperam que o leite de coco não dependa de crueldade, uma vez que não vem de animais, mas na realidade há muita crueldade envolvida devido ao trabalho dos macacos.”

A PETA documentou a forma como os macacos-de-cauda-de-porco são treinados, por vezes em “escolas de macacos”, para subir às árvores e colher cocos. Quando os macacos não estão a trabalhar, geralmente são mantidos acorrentados e transportados em jaulas demasiado pequenas para se conseguirem mexer. Muitos dos animais foram provavelmente capturados ilegalmente na natureza quando eram bebés, diz a PETA. Os investigadores encontraram macacos sozinhos e em stress – a gritar e muito agitados, um sinal de ansiedade. Alguns não tinham os dentes caninos, removidos para evitar ferimentos nos funcionários, disseram os agricultores à PETA.

“A PETA está correta quando afirma que nada mudou desde a sua primeira investigação”, diz Edwin Wiek, conselheiro sobre bem-estar animal do parlamento tailandês. Edwin, que também é o diretor e fundador da Wildlife Friends Foundation, um santuário para animais selvagens, estima que cerca de 3.000 macacos são usados nas quintas de coco no sul da Tailândia, a principal região de origem de leite de coco.

Os macacos-de-cauda-de-porco são protegidos por lei na Tailândia, onde é ilegal ter macacos desta espécie, a não ser que sejam criados em cativeiro. Os infratores podem ser multados ou condenados até dois anos de prisão, embora esta sentença nunca tenha sido aplicada. Edwin acredita que cerca de metade dos macacos usados pelos produtores de coco foram capturados na natureza e, portanto, são mantidos ilegalmente.

Depois de a investigação da PETA ter sido publicada no verão passado, o site de turismo do governo tailandês removeu páginas que promoviam as escolas de macacos, mas não tomou medidas significativas para eliminar o trabalho de macacos, de acordo com o vice-presidente da filial asiática da PETA, Jason Baker, que liderou ambas as investigações. Alguns departamentos do governo afirmam que não são usados macacos na colheita de coco, outros dizem que estão a trabalhar para acabar com a mão de obra de macacos, e também há quem diga que o uso de macacos para colher cocos faz parte da cultura, diz Jason.

Alguns produtores de coco disseram aos investigadores que os inspetores anunciavam as suas visitas com antecedência ou que os macacos eram mantidos longe dos locais.

Fotografia de imageBROKER, Alamy Stock Photo

Os representantes do Departamento de Parques Nacionais, Vida Selvagem e Conservação de Plantas da Tailândia e do Ministério do Comércio não responderam aos pedidos para comentar as alegações da PETA sobre o uso de macacos na indústria de coco e sobre a resposta do governo a essas alegações.

Leis de bem-estar animal não se aplicam

No verão passado, depois das alegações da PETA, a Chaokoh – uma enorme produtora de leite de coco que abastece supermercados nos EUA – e outras empresas de produtos de coco enviaram voluntariamente inspetores para as quintas dos seus fornecedores.

Durante a sua auditoria independente, a Chaokoh alegou que não tinha encontrado quaisquer evidências de mão de obra de macacos, mas de acordo com a avaliação dos auditores, os inspetores visitaram apenas 64 quintas – menos de 8% das 817 que lhes fornecem cocos. “É lamentável”, diz Jason.

“Mesmo que os inspetores relatassem ter encontrado mão de obra de macacos, as leis sobre bem-estar animal da Tailândia só se aplicam aos animais domésticos”, diz Edwin. “Temos poucas ou nenhumas formas de mover realmente uma ação legal contra as pessoas que maltratam [animais selvagens].”

Durante a investigação de acompanhamento da PETA, que envolveu visitas a 14 quintas de coco, a duas escolas de macacos e o testemunho presencial de uma competição de colheita de coco, alguns agricultores disseram aos investigadores que os inspetores da Chaokoh anunciavam as suas visitas antecipadamente para os produtores conseguirem esconder os macacos. Outros agricultores disseram que mantinham os macacos longe do local, reduzindo as probabilidades da presença de macacos quando os inspetores eventualmente aparecem.

A Chaokoh não respondeu aos pedidos para comentar as inspeções aos seus fornecedores de coco, mas através de um comunicado, partilhado nas redes sociais no dia 10 de julho de 2020, a empresa escreveu: “Nós e os nossos grupos associados não apoiamos o uso de mão de obra de macacos na colheita de cocos.” Esta publicação também afirmava que, a partir de agora, as inspeções seriam obrigatórias para todos os seus fornecedores.

De acordo com Avinash Desamangalam, se os produtores e fabricantes de produtos derivados de coco não acabarem com a mão de obra de macacos, os consumidores e os grandes retalhistas podem forçar uma mudança. Avinash espera que em particular os clientes ocidentais mudem para alternativas ao leite de coco, como o leite de soja ou de amêndoa.

‘Absurdo’

“Quase todo o artigo original da PETA é absurdo”, escreve por email Arjen Schroevers, cuja esposa, Somjai Saekhow, é dona da First Monkey School no sul da Tailândia.

Arjen Schroevers, que designa a PETA como “uma organização vegana militante”, alega que os macacos estão felizes com os treinos. “Eles gostam da atenção e gostam de trabalhar. Não há absolutamente qualquer violência ou coerção envolvida. Os vários proprietários de macacos que conhecemos trabalham muito tranquilamente com os seus animais. Não gritam, nem lhes batem.”

“O que eu quero que todos pensem é sobre... a vida destes macacos, não apenas sobre o facto de estarem a apanhar cocos.”

por JASON BAKER, VICE-PRESIDENTE PETA ÁSIA

Arjen nega que os dentes dos macacos sejam removidos e diz que os animais são transportados em gaiolas pequenas para sua própria segurança, referindo-se às imagens recolhidas pela PETA. “Quando estranhos com câmaras se aproximam dos macacos, eles ficam ansiosos, facilitando a captação de imagens de macacos assustados”, diz Arjen.

Quando a PETA visitou a First Monkey School, que treina macacos para colher cocos e está aberta ao público através de uma entrada que custa 150 baht, ou cerca de 5 euros, os investigadores documentaram macacos acorrentados a fazerem espetáculos para os turistas, macacos a subirem às árvores para colher cocos à frente de multidões, e um macaco a andar com turistas numa motorizada.

“Colocar macacos a colher cocos é errado”, diz Jason Baker, “mas pior ainda é a solidão e o isolamento que estes animais sentem o tempo todo”. Jason diz que se trata de “tortura mental”. Os animais são retirados das suas famílias na selva, deixados ao relento em condições extremas e mantidos sozinhos sem socialização. Os estudos mostram que os macacos – tal como acontece com outros primatas, inclusive os humanos – são animais sociais que precisam da companhia dos seus pares.

“O que eu quero que todos pensem é sobre... a vida destes macacos, não apenas sobre o facto de estarem a apanhar cocos”, diz Jason.

Resgate de macacos

Devido às revelações sobre o trabalho dos macacos e dadas as dificuldades financeiras provocadas pela pandemia de coronavírus, alguns produtores de coco entregaram os seus macacos a centros administrados pelo governo ou à Wildlife Friends Foundation de Edwin Wiek.

Nos últimos meses, este santuário – que já contava com cerca de 300 macacos, mais de 40 resgatados nas quintas de coco – acolheu mais quatro, e espera-se a chegada de mais um em breve. E há mais na lista de espera, mas a escassez de financiamento relacionada com a pandemia significa que o santuário não os pode aceitar agora, diz Edwin.

Há 15 anos havia cerca de 15.000 macacos a trabalhar nas quintas de coco, mas hoje existem apenas cerca de 3.000.

Fotografia de Henry Ausloos, Alamy Stock Photo

Edwin receia que alguns produtores de coco mais nervosos estejam a libertar os macacos na natureza, onde estão mal equipados para sobreviver após uma vida inteira passada em cativeiro.

Os quatro macacos resgatados recentemente vieram de indivíduos que os usavam para colher cocos para consumo pessoal. Dois eram jovens e provavelmente ainda não tinham sido treinados para colher cocos, mas os outros dois – chamados Saen e Mhuen – eram mais velhos e “estavam em mau estado”.

Quando Edwin os foi recolher, encontrou-os acorrentados a um poste, sem proteção da chuva ou do sol, e sem água potável. E também não tinham os dentes caninos, e Saen tinha uma hérnia enorme que exigiu tratamento imediato.

Mas agora estão a adaptar-se bem à vida nova, desfrutando de dietas mais saudáveis – frutas e vegetais em vez de sobras de frango e arroz – e a interagir com outros macacos. Depois de uma vida inteira acorrentados e sozinhos, é um “choque cultural”, diz Edwin, mas Saen é “extremamente amigável”.

“Na Tailândia, a prática de se usar mão de obra de macacos para colher cocos está lentamente a morrer”, diz Edwin. Tal como acontece com os passeios de elefante e as touradas, as pessoas estão a começar a repensar os velhos hábitos culturais que envolvem o sofrimento de animais. Edwin estima que, há 15 anos, trabalhavam cerca de 15.000 macacos nas quintas de coco, em comparação com os 3.000 da atualidade.

Para diminuir ainda mais este número, Kent Stein, diretor de responsabilidade corporativa da PETA, sugere que o governo tailandês devia financiar a compra de equipamentos de colheita de coco, para que os agricultores e os trabalhadores contratados, em vez de macacos, conseguissem fazer o trabalho.

Avinash Desamangalam diz que, se os produtores e exportadores de coco da Tailândia quiserem ter esperança em sobreviver, o governo deve implementar um sistema confiável para auditar as quintas de coco de forma independente, para garantir que não usam mão de obra de macacos – tal como acontece com os procedimentos de controlo de qualidade e regulamentos nas quintas biológicas. Avinash reconhece que os custos da colheita vão aumentar, mas os consumidores estão dispostos a pagar mais por produtos que não envolvam crueldade.

“De todos os pontos de vista, faz sentido para todas as partes envolvidas eliminar por completo o trabalho de macacos”, diz Avinash.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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