Macacos em zoo nos EUA recebem pela primeira vez vacina COVID-19 para animais

Orangotangos e bonobos no Zoo de San Diego receberam uma vacina contra o coronavírus, depois de alguns gorilas deste zoológico terem testado positivo para o vírus em janeiro.

Fotografias Por Brent Stirton
Publicado 5/03/2021, 11:23
San Diego Zoo gorilla troop

Frank, um gorila de 12 anos do Zoo Safari Park de San Diego, fotografado após recuperar de uma infeção de coronavírus. Depois de o seu grupo de oito gorilas-ocidentais-das-terras-baixas ter adoecido em janeiro, a equipa do zoo recebeu vacinas experimentais para a COVID-19 da empresa farmacêutica veterinária Zoetis, para administrar aos outros primatas que estão ao seu cuidado, incluindo bonobos e orangotangos.

Fotografia de Brent Stirton

Um orangotango fêmea chamado Karen, o primeiro no mundo a ter uma cirurgia de coração aberto em 1994, fez novamente história na medicina: está entre os primeiros primatas a receber a vacina contra a COVID-19.

Em fevereiro, Karen e três outros orangotangos e cinco bonobos no Zoo de San Diego receberam duas doses de uma vacina experimental para animais desenvolvida pela empresa farmacêutica veterinária Zoetis, diz Nadine Lamberski, diretora do departamento de conservação e saúde de vida selvagem do Zoo Wildlife Alliance de San Diego.

A Zoetis sublinha que a vacina não foi elaborada, testada ou é adequada para uso em humanos.

“Isto não é a norma. Ao longo da minha carreira nunca tive acesso a uma vacina experimental tão cedo no processo e nunca tive um desejo tão profundo de querer usar uma”, diz Nadine Lamberski.

Para que não existam dúvidas, esta vacina não foi produzida, testada ou é adequada para uso em humanos.

Nadine Lamberski, diretora do departamento de conservação e saúde de vida selvagem do Zoo Wildlife Alliance de San Diego, fotografada junto ao habitat dos gorilas. Depois de um mês conturbado a cuidar dos primeiros primatas não humanos a testarem positivo para o coronavírus a nível mundial, Nadine decidiu vacinar os outros grandes símios nas instalações. “Ao longo da minha carreira nunca tive acesso a uma vacina experimental tão cedo no processo e nunca tive um desejo tão profundo de querer usar uma”, diz Nadine Lamberski.

Fotografia de Brent Stirton

Este processo foi desencadeado por outro: em janeiro, oito gorilas no Zoo Safari Park de San Diego tornaram-se nos primeiros casos de grandes símios a testar positivo para o novo coronavírus. O dorso-prateado do grupo, Winston, de 49 anos, adoeceu com uma doença cardíaca e pneumonia, mas após um tratamento experimental com anticorpos, está a recuperar, assim como os restantes.

A nível mundial também já foram confirmadas infeções em tigres, leões, visons, leopardos-das-neves, pumas, furões, cães e gatos domésticos, mas o facto de os grandes símios serem suscetíveis ao vírus SARS-CoV-2 preocupou particularmente os cientistas. Restam menos de 5.000 gorilas na natureza e, como os gorilas vivem em grupos familiares próximos, os investigadores receiam que, se um deles contrair o vírus, a infeção se possa propagar rapidamente e colocar em risco as populações que já de si são precárias.

Depois de mais de um ano de pandemia, ainda se sabe pouco sobre como é que o vírus afeta os animais. Em muitos casos, a comunidade veterinária depende de conjuntos de dados limitados, aprendendo o que consegue através de casos individuais e de surtos esporádicos em algumas espécies.

Quando o primeiro cão testou positivo para o vírus, em Hong Kong, em fevereiro de 2020, a empresa farmacêutica veterinária Zoetis começou a desenvolver uma vacina COVID-19 para cães e gatos. Em outubro, a empresa estava confiante de que a sua vacina era segura e eficaz para ambas as espécies. Em janeiro, quando o grupo de gorilas no Zoo de San Diego testou positivo, Nadine Lamberski já estava em contacto com a Zoetis, acompanhando o desenvolvimento da vacina.

Embora a vacina só tivesse sido testada em cães e gatos, Nadine decidiu que valia a pena arriscar. Nadine e a sua equipa cuidam de 13 gorilas, oito bonobos e cinco orangotangos – todos potencialmente vulneráveis porque passam muito tempo em espaços fechados e onde a probabilidade de propagação de doenças é maior. Em fevereiro, enquanto eram distraídos da agulha com guloseimas, nove dos grandes símios do Zoo de San Diego tornaram-se nos primeiros primatas não humanos de que há conhecimento a receberem uma vacina COVID-19.

Os animais não tiveram reações adversas e estão bem, diz Nadine. O sangue recolhido do orangotango Karen e de um dos bonobos vai revelar se desenvolveram anticorpos, cuja presença indicaria que a vacina pode estar a funcionar. Três das doses que sobraram vão ser enviadas para os bonobos e um dos gorilas do zoológico que não contraíram o vírus. (O grupo de oito gorilas vive numa zona separada, na parte designada Safari Park.)

Avaliar os riscos

Ninguém sabe se a vacina funciona em macacos, e não havia forma de certificar se os animais podiam ter uma reação imunitária adversa. Embora exista sempre algum risco com qualquer vacina em qualquer espécie, Nadine diz que não pegaram aleatoriamente numa vacina e a administraram a uma nova espécie. “Há muita ponderação e investigação envolvidas no processo – são avaliados os riscos de se fazer isto ou não. O nosso lema é, acima de tudo, não provocar danos.”

É comum uma vacina que foi testada e desenvolvida para uma espécie ser administrada noutra, diz Nadine e Mahesh Kumar, vice-presidente do departamento de produtos biológicos globais da Zoetis. Isto acontece porque as vacinas são feitas para um patógeno específico, não para uma espécie específica. “Normalmente, usamos vacinas que foram elaboradas para cães e gatos e usamos em tigres e leões”, diz Nadine, “e os macacos no zoo levam vacinas humanas contra a gripe e sarampo”.

O que torna uma vacina adequada para uma determinada espécie resume-se aos testes de segurança. E o que a torna eficaz resume-se aos adjuvantes adicionados. Os adjuvantes, substâncias que ajudam o corpo a produzir anticorpos contra um vírus, são essenciais para ajudar o corpo a aceitar a vacina de forma adequada e variam de espécie para espécie.

Esta vacina experimental, diz Mahesh Kumar, funciona de forma semelhante à vacina da Novavax para humanos, que está atualmente na fase final dos ensaios. Em vez de usar um vírus vivo, esta vacina usa proteínas sintéticas para desencadear os mesmos anticorpos que o vírus vivo faria.

Os dados da Zoetis mostram que os cães e gatos que participaram nos ensaios tiveram respostas imunitárias significativas à vacina – embora ainda não se saiba exatamente se serão suficientes para prevenir uma infeção. São necessários mais estudos, diz Mahesh.

Outros zoológicos nos EUA também solicitaram doses da vacina para os seus primatas, diz Christina Lood, porta-voz da Zoetis, e a empresa espera ter mais doses disponíveis até junho. Conforme mais macacos recebem a vacina e mais dados ficam disponíveis, Nadine diz que o nosso conhecimento sobre a eficácia da vacina nos primatas irá aumentar. A sua equipa está a partilhar o que aprendeu até agora com outros veterinários em zoológicos nos Estados Unidos, bem como com a equipa veterinária do Zoo de Praga, na República Checa, onde um gorila (e dois leões) testou positivo para a COVID-19 no início desta semana.

A Zoetis também está a fazer ensaios da vacina com visons, e planeia solicitar autorização comercial assim que os testes forem concluídos. (Cerca de 12.000 visons morreram de COVID-19 em quintas de peles nos EUA, e acredita-se que em alguns casos também tenham transmitido o vírus a humanos).

Gorilas em recuperação

Daqui a poucos meses, depois de aguardar os 60 a 90 dias recomendados após a infeção, o Zoo Wildlife Alliance de San Diego também espera vacinar o grupo de gorilas no Safari Park. Eventualmente, diz Nadine, também vão considerar a vacinação dos grandes felinos.

Nadine suspeita que os gorilas contraíram o vírus de um funcionário que já tinha testado positivo. O grupo exibia todos os sintomas, variando entre os mais ligeiros (congestionamento nasal e tosse esporádica) e os mais preocupantes (tosse consistente, falta de apetite e letargia).

Novamente saudáveis, dois membros do grupo de gorilas relaxam no seu habitat. A equipa de Nadine planeia administrar-lhes a vacina experimental no final desta primavera.

Fotografia de Brent Stirton, Getty Images for National Geographic

“Os alarmes dispararam de imediato. Estamos a falar de um grupo de oito animais”, diz Nadine. A sua equipa entrou em contacto com colegas que lidam com pacientes humanos para tentar descobrir quais seriam as suas opções. “Temos de ter em consideração todos os cenários, desde a ausência de intervenção e deixar as coisas seguirem o seu rumo, ao que pode acontecer se um animal precisar de ser entubado e ventilado.”

Com Winston, o dorso-prateado que desenvolveu pneumonia e doença cardíaca, incluindo arritmia grave, não se sabe se o vírus exacerbou uma condição subjacente (as doenças cardíacas são comuns em gorilas geriátricos) ou se provocou sequer esses sintomas. Independentemente do que fosse, Nadine estava preocupada. “É o Winston que mantém tudo a funcionar no grupo. A sua perda seria significativa.”

Depois de o tratarem com um processo de anticorpos monoclonais – que não foi retirado da cadeia de mantimentos médicos para humanos – Winston está a melhorar, mas não se sabe exatamente até que ponto o tratamento pode ter ajudado. “Bem-vindo à medicina veterinária dos zoológicos!” diz Nadine. "Esta é a nossa vida. Nunca sabemos se ajudamos um animal ou se ele simplesmente melhorou.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados