A fotografia de esqueletos está a ganhar uma nova vida com a ajuda de gelatina

Esta técnica produz imagens detalhadas e quase sobrenaturais que os cientistas usam para estudar anatomia.

Publicado 6/04/2021, 15:01
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O esqueleto de um cavalo-marinho, preparado numa matriz de glicerina-gelatina, brilha com corante vermelho sob luz fluorescente. Esta técnica de fotografia ajuda os cientistas a examinar os esqueletos de animais de novas maneiras.

Fotografia de Leo Smith, UNIVERSIDADE DO KANSAS

Luz fluorescente, corante vermelho e gelatina são os ingredientes de uma técnica fotográfica emergente que permite aos cientistas visualizar melhor os esqueletos de animais.

Há muito tempo que os investigadores que estudam vertebrados dependem do que se conhece por limpeza e coloração – retirar os tecidos moles aos espécimes e colorir os restos com corante vermelho – para obter imagens detalhadas, usadas para examinar a anatomia e relações entre espécies. Mas desprovidos de ligamentos e musculatura, os esqueletos podem ficar flácidos, dificultando a sua sustentação e fotografia de determinados ângulos.

Esquerda: Os investigadores retiram os tecidos e tingem os esqueletos dos espécimes, mas a fluorescência traz um novo nível de detalhe, como acontece com este peixe Gobiesox punctulatus.
Direita: Os investigadores de vertebrados usam as imagens, como esta de um lagarto Plica umbra, para explorar a forma como os animais evoluíram e para identificar as características que partilham com outras espécies.

Fotografia de MATTHEW GIRARD, UNIVERSIDADE DO KANSAS

Muitos esqueletos, como o desta pitão Liasis mackloti, podem ser moles e difíceis de manusear sem tecidos, mas a gelatina mantém os esqueletos no lugar, que são lavados quando a sessão de fotografia termina.

Fotografia de Matthew Girard, UNIVERSIDADE DO KANSAS

“Havia muitas fotografias que simplesmente não conseguíamos obter”, diz Leo Smith, professor de ecologia e biologia evolutiva na Universidade do Kansas, que ajudou a desenvolver esta nova técnica. “Se for um bagre, assenta sobre o estômago, e isso é tudo o que vamos conseguir. Se for uma truta ou algo assim, fica de lado, porque senão acaba por colapsar.”

É aí que entra a gelatina. A sua textura gelatinosa consegue manter os esqueletos numa pose, permitindo que sejam fotografados de ângulos diferentes, e depois são lavados quando a sessão de fotografia termina. Este método, juntamente com corante vermelho e a iluminação de luz fluorescente, oferece oportunidades para a captação de imagens que antigamente eram impossíveis.

Brilho vermelho

Numa noite de 2013, Leo Smith, autor principal de um artigo de 2018 que descreve esta técnica, colocou por curiosidade o esqueleto tingido de um peixe sob a luz de um microscópio de fluorescência – que usa uma luz de alta intensidade em vez de luz branca visível.

“Limitei-me a colocar o esqueleto ali e fiquei impressionado, era espantoso”, diz Leo, “porque a fluorescência realçava mesmo os detalhes”.

Os esqueletos tingidos de vermelho, como este de um peixe Pentanemus quinquarius, ficam fluorescentes sob um determinado comprimento de onda de luz. É semelhante aos brinquedos que brilham no escuro, diz Matt Davis, professor de biologia na Universidade Estadual de St. Cloud.

Fotografia de Matthew Girard, UNIVERSIDADE DO KANSAS

“É muito semelhante aos brinquedos que brilham no escuro”, diz Matt Davis, professor de biologia na Universidade Estadual de St. Cloud, no Minnesota, e coautor do artigo. “O princípio é basicamente o mesmo. O objeto absorve a luz e, de seguida, reemite-a.” (Os ornitorrincos, esquilos-voadores, tartarugas marinhas e outras criaturas são naturalmente biofluorescentes.)

A beleza da imagiologia de fluorescência, diz Leo Smith, é definir aspetos do espécime, permitindo que os investigadores prestem atenção a detalhes que não tinham visto ou que não conseguiam observar antes.

O método com gelatina foi refinado por Chesney Buck, um voluntário que trabalhava no laboratório de Leo Smith, e por Matt Girard, estudante de doutoramento que trabalha com Leo na Universidade do Kansas. Matt Girard diz que colocar os espécimes tingidos na gelatina abriu um novo reino de possibilidades.

“Quando conseguimos realmente mover um esqueleto ou colocar lá uma pinça, ou segurar com a mão e movê-lo, podemos começar a ver como os ossos se articulam entre si”, diz Matt Girard. “Ou conseguimos ver se há algo atrás de um osso, porque muitas coisas – talvez não em humanos, mas noutros animais – têm camadas de ossos.”

Esquerda: O sapo Spea bombifrons vive em regiões que vão desde o Canadá até ao México. Os investigadores que desenvolveram esta técnica fotográfica começaram a fazer experiências com diferentes comprimentos de onda de luz e filtros para ver o que os esqueletos podem revelar.
Direita: Uma cria de pato-carolino com fluorescência vermelha. Na natureza, estes patos estão entre as aves aquáticas mais coloridas e de padrões mais ousados da América do Norte.

Fotografia de MATTHEW GIRARD, UNIVERSIDADE DO KANSAS

Esquerda: O Porichthys notatus é um tipo de peixe-sapo bioluminescente que vive no fundo do mar e “entoa” canções de amor. Nesta imagem, o Porichthys notatus brilha em tons de vermelho devido ao corante, e em tons de verde devido à sua fluorescência natural.
Direita: O Eumicrotremus orbis é um peixe de aproximadamente dois centímetros que está coberto por tubérculos resistentes.

Fotografia de LEO SMITH, UNIVERSIDADE DO KANSAS (ESQUERDA); SOCIEDADE AMERICANA DE ICTIÓLOGOS E HERPETÓLOGOS (DIREITA)

O morcego Eptesicus fuscus pode ter uma envergadura de asas de mais de 30 centímetros.

Fotografia de Matthew Girard, Universidade do Kansas

Acaso feliz

Leo Smith, Matt Davis e Matt Girard começaram a fazer experiências com diferentes comprimentos de onda de luz, filtros de câmara e microscópios para ver o que os animais podiam revelar.

“Nós reconstruímos estas árvores da vida e exploramos a forma como [os espécimes] evoluem ao longo do tempo e como estão todos relacionados entre si”, diz Matt Davis. “Fazemos isso procurando características partilhadas, que podem ser genéticas ou anatómicas.”

“Mas também desfrutamos do trabalho. Parte da ciência é descobrir, e parte também é pura diversão.”

Afinal de contas, foi assim que Leo Smith descobriu esta técnica. “Qualquer acaso feliz”, diz Matt Davis, “pode levar a outro avanço”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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