Doença neurológica misteriosa está a afetar as ameaçadas panteras-da-flórida

Uma doença conhecida por leucomielopatia felina pode ter atingido 48 panteras e linces, levantando preocupações sobre os impactos num dos animais representativos do estado da Flórida.

Fotografias Por Carlton Ward Jr.
Publicado 15/04/2021, 14:47
Uma cria de pantera-da-flórida nascida de uma mãe com leucomielopatia felina (FLM), um distúrbio neurológico recém-descoberto, ...

Uma cria de pantera-da-flórida nascida de uma mãe com leucomielopatia felina (FLM), um distúrbio neurológico recém-descoberto, é examinada no Zoo de Tampa pela veterinária Lauren Smith. Esta cria e o seu irmão foram considerados saudáveis, mas a mãe não recuperou da doença.

Fotografia de Carlton Ward Jr.

Outrora espalhadas por todo o sudeste dos EUA, as panteras-da-flórida foram quase extintas devido à caça generalizada. Na década de 1970, restavam menos de 30 indivíduos. Embora estes felinos ameaçados de extinção tenham recuperado significativamente nas últimas duas décadas, com uma população total a rondar os 200 animais, o seu futuro permanece incerto.

É por esta razão que os cientistas estão preocupados com uma doença neurológica recém-descoberta que provoca fraqueza nos membros e, em casos mais graves, paralisia parcial, em panteras e linces da Flórida. Os animais afetados têm geralmente dificuldades em andar, o que pode levar à fome e à morte. Conhecida por leucomielopatia felina (FLM), a doença provavelmente atingiu 19 panteras e 18 linces por todo o estado norte-americano desde a primavera de 2017. Também foram confirmados outros 11 casos adicionais – três panteras e oito linces.

Uma cria macho de pantera-da-flórida com dificuldades para se levantar depois de perder o controlo das patas traseiras – um sinal de FLM.

Fotografia de Carlton Ward Jr.

Desconhece-se o que está a provocar a doença, diz Darrell Land, líder da equipa de panteras da Comissão de Conservação de Vida Selvagem da Flórida (FWC).

“Ainda não temos indícios do que se trata e isso é um pouco perturbador, porque seria de pensar que, se houvesse uma resposta simples, já a teríamos.”

Os cientistas especulam que pode ser uma neurotoxina a provocar a doença. Também é possível que seja um patógeno como um vírus, embora seja considerado menos provável. E também pode ser devido a uma combinação de fatores, como uma deficiência nutricional em conjunto com uma neurotoxina. Como a doença se encontra em pelo menos duas espécies de felinos, não é uma condição genética que passe de pais para filhos.

Depois de realizar uma ressonância magnética no Hospital Veterinário da Universidade da Flórida, a técnica Des Muir transporta uma cria de pantera-da-flórida adormecida para a reunir com o irmão. As ressonâncias magnéticas focaram-se na medula espinal e cérebro das panteras, onde os sinais neurológicos de FLM podem ser mais evidentes.

Fotografia de Carlton Ward Jr.

Os investigadores suspeitam que a doença, caracterizada por danos nas células nervosas, se desenvolve no início de vida de uma pantera e geralmente não piora ou melhora, diz Mark Cunningham, veterinário de vida selvagem da FWC. Em algumas regiões da Flórida, a doença está a afetar uma percentagem significativa de crias de panteras.

“Para a FWC, o estudo da doença é uma prioridade urgente”, diz Mark. “Uma parceria que engloba várias organizações, instituições de investigação e cidadãos, incluindo fotógrafos com armadilhas fotográficas, está a colaborar para identificar a causa.”

As panteras já enfrentam várias ameaças, incluindo colisões com veículos, lutas fatais em território limitado e o desenvolvimento urbano. “Se esta nova doença persistir ao mesmo nível, é muito provável que testemunhemos impactos na sua população”, diz Mark.

“Este é realmente um evento sem precedentes na vida selvagem, pelo menos em felinos.”

Descoberta alarmante

No início de 2018, os fotógrafos Ralph Arwood e Brian Hampton captaram vídeos de uma mãe pantera que tinha acabado de dar à luz três crias na área de Corkscrew Swamp, uma extensão de uma antiga floresta de ciprestes a norte de Naples. Mas em meados de maio, ficou claro que algo estava errado. Dois dos felinos, ambos machos, tinham problemas em andar, com fraquezas óbvias nas patas traseiras. Ralph Arwood alertou a FWC.

Passados alguns meses, Carlton Ward Jr., fotógrafo e explorador da National Geographic, encontrou a mãe pantera enquanto se dirigia para uma armadilha fotográfica que ele tinha montado nas proximidades. Foi um momento de alegria – até que Carlton viu uma das crias a arrastar-se pelo chão, enquanto a mãe esperava. “Foi esmagador testemunhar aquilo”, diz Carlton. “Uma das coisas mais tristes que já vi.”

Esta pantera-da-flórida fêmea foi equipada com uma coleira de rastreio no sudoeste da Flórida. Mais tarde, foi observada pelas câmaras com duas crias, mas mostrava sinais graves de FLM. Todos os felinos foram capturados e removidos da natureza devido a preocupações com a sua sobrevivência. As crias sobreviveram e agora vivem num habitat permanente na White Oak Conservation. A mãe, que sofria de danos irreparáveis associados à FLM, foi eutanasiada e o seu cérebro e tecido espinal foram estudados para determinar as causas do distúrbio.

Fotografia de Carlton Ward Jr.

“Uma das crias nunca mais foi vista e presume-se que morreu, enquanto que a outra foi equipada com uma coleira GPS, que caiu passados alguns meses, e o seu destino é desconhecido”, diz Mark. Desde então surgiram vários casos prováveis de FLM em panteras e linces na área de Corkscrew Swamp.

“Uma análise às imagens das armadilhas fotográficas revelou um presumível caso de FLM na Reserva de Babcock Ranch em abril de 2017”, acrescenta Mark, que pode ter sido a primeira incidência conhecida. Os casos prováveis consistem em animais avistados com dificuldades em andar, casos sem quaisquer explicação ou causa conhecida; é difícil fazer um diagnóstico oficial porque envolve o exame da medula espinal de animais recentemente falecidos.

Dos três casos oficialmente diagnosticados em panteras, um era o de uma fêmea que deu à luz duas crias perto de Immokalee no verão de 2019. Esta pantera foi avistada pelas câmaras com muita fraqueza nas patas traseiras e, eventualmente, os três felinos foram levados por funcionários estaduais de vida selvagem, pois parecia que provavelmente não iriam sobreviver. As crias foram examinadas por investigadores do Zoo de Tampa, e a mãe foi levada para a Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade da Flórida.

A fêmea foi sujeita a várias análises, incluindo uma ressonância magnética, um exame neurológico e exames ao sangue, mas não havia nada que se destacasse e que pudesse explicar a sua condição. Naquele momento, a pantera mal conseguia andar, e um painel de veterinários tomou a difícil decisão de a eutanasiar. “Foi uma situação triste”, diz Jim Wellehan, veterinário da Universidade da Flórida que testemunhou a condição do animal. “Queremos sempre fazer tudo o que está ao nosso alcance para ajudar.”

Felizmente, as crias sobreviveram e agora são adultos saudáveis que vivem num recinto enorme na White Oak Conservation, no nordeste da Flórida.

Axónios em falta

As necropsias feitas aos felinos afetados com FLM revelam que os animais tinham danos graves nas medulas espinais: estavam repletas de cavidades onde os axónios, ou fibras nervosas, deviam estar, diz Nicole Nemeth, patologista veterinária do Southeastern Cooperative Wildlife Disease Study, um grupo colaborativo de investigação. Nicole faz parte de um círculo crescente de investigadores que ajudam a analisar as amostras de animais afetados.

Provavelmente é uma substância tóxica que está a matar os axónios, diz Ian Duncan, neurologista da Universidade do Wisconsin que colaborou com a FWC. Ian é especialista em doenças que afetam a bainha de mielina, a camada de gordura que protege as fibras nervosas do sistema nervoso central de um mamífero. Inicialmente, parecia que a FLM podia envolver a deterioração da bainha de mielina, mas a análise das medulas espinais de panteras mortas mostrou que não era esse o caso.

Até agora, os investigadores examinaram várias panteras mortas à procura de inúmeras substâncias tóxicas, incluindo rodenticidas, pesticidas, herbicidas e metais pesados, mas não encontraram nada de definitivo.

Ian Duncan e outros especialistas suspeitam que as probabilidades de um vírus são poucas, uma vez que não há evidências significativas de inflamação, o que seria de esperar numa infeção. As neurotoxinas produzidas naturalmente por algas ou algum tipo de micróbio no seu habitat são outros dos possíveis culpados que os investigadores estão a começar a examinar.

Os felinos em geral – como os gatos domésticos, chitas e leopardos – parecem ligeiramente mais suscetíveis às doenças neurológicas do que os outros mamíferos, diz Nicole Nemeth.

Mais uma ameaça

“Neste momento, a FLM é uma espécie de interrogação – não queremos soar muito os alarmes, mas [isto] pode impactar o nosso progresso rumo à recuperação”, diz Dave Onorato, biólogo da FWC especializado em panteras.

O potencial da doença em interromper o progresso precário das panteras sublinha a necessidade dos animais se moverem para um novo território, para os isolar contra as novas e cada vez mais crescentes ameaças, diz Dave.

Em Corkscrew Swamp, a veterinária Lara Cusack e o biólogo Mark Lotz recolhem amostras de sangue de uma cria de pantera-da-flórida que exibia sinais de FLM nas imagens captadas pelas câmaras fotográficas. A cria passou por um exame veterinário completo e foi novamente libertada na natureza.

Fotografia de Carlton Ward Jr.

As panteras, em particular, devem expandir o seu alcance para norte, algo que só será possível se os corredores de vida selvagem forem preservados. Em 2016, pela primeira vez em 43 anos, os investigadores avistaram uma fêmea a norte do rio Caloosahatchee, uma via marítima importante perto de Fort Myers – um avistamento considerado um marco importante para estes animais.

Embora muitos investigadores estejam otimistas em relação ao futuro das panteras, alguns estão muito preocupados. “O futuro das panteras está realmente em questão”, diz Deborah Jansen, bióloga de panteras do Serviço de Parques Nacionais dos EUA. “As panteras estão a enfrentar alguns obstáculos realmente grandes, sobretudo este distúrbio neurológico.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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