Estas aves voam em bandos hipnotizantes de milhares de indivíduos – mas é um mistério.

A defesa contra predadores não explica completamente as razões pelas quais os estorninhos-comuns criam padrões tão incríveis no céu.

Por Melanie Haiken
Fotografias Por Nick Dunlop
Publicado 7/04/2021, 16:02 WEST
bandos de estorninhos

Enquanto um falcão cruza o céu ao final da tarde na Califórnia, bandos de estorninhos formam movimentos compactos chamados cordões.

Fotografia de Nick Dunlop

É uma visão hipnotizante: milhares de aves movem-se em uníssono pelo céu ao final da tarde, ondulando e rodopiando como se estivessem a executar um bailado altamente sincronizado.

Quando finalmente descem para os seus poleiros nas copas das árvores, o bater das suas asas cria uma onda sonora cujo ruído ficou com um nome invulgar: murmuração de estorninhos.

Este termo é exclusivo do estorninho-europeu, ou estorninho-comum, uma das aves mais abundantes – e adaptáveis – do mundo. Nativo do Reino Unido e também da Europa, o estorninho tornou-se uma espécie invasora nos EUA, Austrália, Nova Zelândia, Fiji, África do Sul e em muitos outros países onde, ao longo dos séculos, foi inadvertidamente ou propositadamente introduzido. No final da década de 1890, um grupo de entusiastas de Shakespeare libertou cerca de cem estorninhos-comuns no Central Park de Nova Iorque, na esperança de povoar a área com todos os pássaros mencionados nas obras do famoso dramaturgo.

Embora os estorninhos possam ser um incómodo e uma ameaça para as aves nativas, as suas referidas murmurações são espetáculos de cortar a respiração que costumam atrair multidões de pessoas.

Esquerda: Na Califórnia, dois falcões aproximam-se de uma murmuração, num exemplo relativamente raro de competição entre estes predadores.
Direita: Os estorninhos podem reunir-se em bandos de dezenas de milhares de indivíduos.

Fotografia de NICK DUNLOP

Os estorninhos conseguem coordenar os seus movimentos alinhando-se com outras sete aves mais próximas.

Fotografia de Nick Dunlop

No hemisfério norte, as murmurações começam no outono e no inverno, quando as aves fazem paragens de até seis semanas para descansar nas suas migrações para sul. Durante este período, os estorninhos podem aventurar-se até distâncias de 95 quilómetros por dia das suas árvores para se alimentarem de sementes, insetos e larvas, reunindo-se novamente para criar murmurações que podem durar até 45 minutos.

Aves a moverem-se em bandos não é obviamente um comportamento novo, e os ornitólogos estudam este comportamento há muito tempo. Mas nenhuma outra espécie de ave voa em conjunto com a mesma coordenação ou com padrões tão complexos como os estorninhos-comuns, cujas murmurações podem atingir os 750.000 indivíduos.

Para além disso, apesar de os estorninhos serem pássaros muito omnipresentes, sabe-se muito pouco acerca das razões que os levam a murmurar.

“Em suma, estudo isto há 50 anos e ainda não sei”, diz o ornitólogo Frank Heppner, professor emérito da Universidade de Rhode Island, que fez alguns dos primeiros estudos sobre o comportamento dos estorninhos na década de 1960.

Quem sai aos seus...

Andrea Cavagna, físico da Universidade de Roma, passou os últimos 16 anos a estudar a forma como os estorninhos sincronizam os seus movimentos com tanta precisão e graciosidade. Para o fazer, Andrea criou sofisticados modelos 3D dos bandos de estorninhos que ondulam sobre a Piazza dei Cinquecento em Roma, onde a população de estorninhos duplicou na última década para números a rondar um milhão de aves.

Andrea, juntamente com a sua parceira de investigação Irene Giardina, opera três câmaras sincronizadas de alta velocidade no telhado do Palazzo Massimo durante a migração de inverno dos estorninhos.

“Todos os invernos, ficamos lá em cima ao frio e à chuva, noite após noite”, diz Andrea. “Somos só nós e as estátuas.”

Na Califórnia, um bando de estorninhos assustados por um falcão-peregrino sobe rapidamente, comprimindo-se numa forma intimidante.

Fotografia de Nick Dunlop

Um falcão-peregrino ataca um estorninho que se separou do bando, um evento invulgar que geralmente leva a uma captura bem-sucedida.

Fotografia de Nick Dunlop

Através das imagens que capturam, Andrea e os seus colegas reconstroem o posicionamento e a velocidade das aves individuais de um bando em modelos de computador.

Estes modelos revelam que os estorninhos mantêm a fluidez das suas formações através de um mecanismo chamado correlação comportamental sem escala, onde cada ave se posiciona ao lado de aproximadamente sete outras aves, coordenando os seus movimentos para criar um sincronismo sobreposto.

Andrea diz que podemos pensar neste fenómeno como se estivéssemos a conduzir numa autoestrada: “Interagimos com um número fixo de carros, talvez com o da frente, o de trás e um ou dois de cada lado, mas não estamos a interagir com os carros que estão a 50 metros de distância, para não nos distrairmos.” (O facto de os estorninhos-comuns terem visão lateral também ajuda, porque dá-lhes um campo de visão que se estende praticamente em torno dos seus corpos, salienta Andrea.)

Embora cada pássaro interaja apenas com os seus vizinhos mais próximos, os movimentos de cada ave afetam e são afetados por todo o grupo, permitindo que a informação viaje pelo bando a uma velocidade constante. O resultado é uma tomada de decisão coletiva tão ágil que um sinal para virar, geralmente iniciado por uma das aves na periferia, pode chegar a um bando de 400 pássaros em meio segundo – uma velocidade de 145 quilómetros por hora.

Bailarinos do céu

As diversas formas e padrões que estas aves criam durante as murmurações têm nomes pitorescos: vacúolo, cordão, expansão clarão.

Talvez o mais fascinante a nível visual sejam as faixas escuras que irradiam através de uma nuvem de estorninhos como se fosse um riacho em movimento, diz Charlotte Hemelrijk, professora de ciências evolutivas na Universidade de Groningen, nos Países Baixos.

Conforme um falcão se aproxima a alta velocidade, os estorninhos mudam de direção numa formação compacta para evitar a captura.

Fotografia de Nick Dunlop

Vistas do solo, estas “ondas de agitação” fazem parecer que os estorninhos se estão a aproximar mais densamente. Mas, na verdade, são visíveis quando os pássaros se inclinam para cima, quando viram para mostrar uma área maior das suas asas aos observadores no chão. Por outras palavras, para além de cronometrarem as sete aves ao seu lado, os estorninhos estão a seguir um líder. Charlotte diz que os modelos mais recentes mostram que estão a copiar o comportamento da ave mais próxima, fazendo com que esse movimento se propague pelo bando.

Charlotte Hemelrijk também encontrou evidências de que estes padrões servem para confundir predadores, como falcões e outras aves de rapina, dificultando a captura de estorninhos que se separem do bando. Através de modelos de computador sofisticados, Charlotte documentou padrões de fuga coletiva que estão especificamente ligados aos movimentos de um falcão predador.

Misteriosas murmurações

A razão pela qual os estorninhos circulam no céu em bandos tão gigantescos e durante tanto tempo é uma questão ainda mais intrigante.

A explicação mais comum – por vezes conhecida por hipótese de “segurança nos números” – é a de que os bandos gigantes são uma resposta de defesa contra predadores. Mas Frank Heppner e Andrea Cavagna dizem que isso não tem lógica; referindo que as aves poderiam simplesmente regressar diretamente para os seus poleiros nas árvores, em vez de se acumularem em formações enormes e espiralar pelo céu.

“Seria de esperar que eles quisessem minimizar o tempo de voo, mas, em vez disso, fazem esta exibição espetacular durante meia hora a 45 minutos, queimando energia a um ritmo feroz”, diz Frank.

“E, enquanto isso, estão a atrair predadores. É como se estivessem a dizer que estão ali. Temos de nos interrogar, como é que um mecanismo como este evoluiu?”

Outra explicação possível, por vezes chamada teoria “mais quentes juntos”, sugere que as murmurações funcionam para anunciar um local de pouso, atraindo o maior número de pássaros para um bando para conservarem o calor corporal.

Na tentativa de resolver este mistério, investigadores da Universidade de Gloucester e da Royal Society of Biology compilaram dados de mais de 3.000 murmurações, dados que voluntários de 23 países recolheram em 2014 e 2015. Os resultados, publicados em 2017, não mostraram quaisquer correlação entre a temperatura corporal e o tamanho da murmuração, deixando pouco suporte para a hipótese do calor.

Este estudo também refere a presença de um falcão ou de outra ave de rapina em pouco menos de um terço das murmurações, oferecendo algum suporte para a teoria da predação – mas deixando por explicar as razões pelas quais as aves se reúnem em espetáculos tão prolongados.

Um ato de pura beleza?

Contudo, os investigadores estão de acordo sobre uma característica dos estorninhos: estas aves são extremamente inteligentes. Quando Frank manteve estorninhos em cativeiro para a sua investigação, “eles eram tão bons a arrombar as fechaduras das gaiolas que tivemos de colocar cadeados nelas”.

Tendo em consideração o poder cerebral destas aves, será possível que as murmurações sejam simplesmente uma expressão consciente de pura alegria em movimento?

“Na ausência de um predador, creio que é possível encarar estes espetáculos como uma espécie de dança”, diz Charlotte Hemelrijk, da Universidade de Groningen.

“Não lhes queremos atribuir demasiada intenção, mas os estorninhos estão certamente muito animados”, diz Charlotte. “E por vezes fazem isto durante muito tempo, quando podiam simplesmente ir dormir.”

Bandos de estorninhos cruzam os céus perto do local onde descansam durante a noite.

Fotografia de Nick Dunlop


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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