Peixe preso em luva descartável alerta para os perigos do lixo da COVID-19

Pelo mundo inteiro, as pessoas estão a encontrar animais afetados por máscaras, luvas e outros EPI. “O material que nos está a ajudar está a afetar outros.”

Publicado 29/04/2021, 11:08 WEST
peixe em luva de plástico

Esta perca, encontrada em Leiden, nos Países Baixos, é o primeiro caso documentado de um peixe a morrer numa luva descartável.

Fotografia de Auke-Florian Hiemstra

Os doutorandos em ecologia Liselotte Rambonnet e Auke-Florian Hiemstra, voluntários que passam todos os domingos a remover lixo dos canais que atravessam a cidade holandesa de Leiden, já viram lixo mais do que suficiente.

Mas até a vasta experiência destes investigadores com detritos urbanos não os preparou para o que encontraram em agosto passado.

Uma perca do tamanho de um dedo que ficou presa no polegar de uma luva médica descartável, onde morreu.

Esta descoberta – a primeira observação registada deste género – envolveu Liselotte e Auke-Florian, que imediatamente começaram a procurar na internet mais relatos de animais selvagens feridos ou mortos por luvas, máscaras ou outros equipamentos de proteção individual (EPI) usados durante a pandemia de coronavírus. Estes produtos são predominantemente feitos de plástico, o que pode ser mortal para a vida selvagem.

Os investigadores e os seus colegas publicaram recentemente na revista Animal Biology uma análise sobre 45 relatos feitos nas redes sociais e na imprensa, que no total sugere que “o material que nos está a ajudar está a afetar outros”, diz Auke-Florian, do Centro de Biodiversidade Naturalis, um instituto de investigação.

“Foi realmente chocante”, acrescenta Liselotte, que estuda na Universidade de Leiden. “Esta é apenas a ponta do icebergue.”

A equipa descobriu relatos de tordos, gaivotas, pinguins e até de ouriços presos nas alças de máscaras faciais, algo que pode afetar os seus movimentos e torná-los vulneráveis à predação. Algumas aves, como o galeirão-comum, estão a usar máscaras, luvas e embalagens de toalhetes para construir ninhos, itens que as suas crias podem ingerir ou nos quais podem ficar enleadas.

O cenário geral deste problema é provavelmente muito pior, diz Liselotte, que incentiva o público a enviar notícias e as suas próprias fotografias de animais selvagens impactados pelo lixo de EPI para o seu site, o covidlitter.

“Ao lidarmos com a atual crise de saúde, estamos a criar uma crise ambiental para o futuro”, diz a Exploradora da National Geographic Justine Ammendolia, ecologista que vive em Toronto e que também está a estudar o lixo relacionado com a pandemia. “Assim que estes itens entram no ambiente, é basicamente o fim do jogo.”

Sociedade descartável

Um estudo estima que as instalações de saúde a nível global usam 129 mil milhões de máscaras faciais e 65 mil milhões de luvas por mês, a maioria das quais projetada para ser usada apenas uma vez.

Como a pandemia continua a persistir, a necessidade de EPI não diminui e os países não medem esforços para tornar as máscaras acessíveis a todos os cidadãos comuns, incluindo reduções nos preços.

Porém, à medida que estes itens se tornam mais omnipresentes e menos valiosos, o lixo começa a aumentar. Os voluntários de limpeza, por exemplo, já encontraram mais de cem máscaras descartadas num só dia em Leiden. (O que deve saber sobre máscaras e ventiladores DIY.)

Em Toronto, no Canadá, Justine Ammendolia e a sua colega, a ecologista Jacquelyn Saturno, também repararam num aumento do lixo de EPI. Tal como a equipa holandesa, Justine e Jacquelyn usaram o tempo passado em confinamento para estudar sistematicamente o lixo pela cidade.

Em apenas cinco semanas de caminhadas noturnas de uma hora, ambas recuperaram 1.306 peças de EPI, de acordo com o seu estudo, publicado no início deste ano na revista Environmental Pollution.

Para agravar o problema, a pandemia também aumentou a demanda por plásticos descartáveis – como talheres de plástico para a comida takeaway – nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Europa. Um estudo de outubro de 2020 estimava que o mundo tinha gerado 1.76 milhões de toneladas de lixo plástico por dia durante a pandemia.

À imagem de Liselotte e Auke-Florian, também Justine começou imediatamente a ficar preocupada sobre a forma como o aumento deste lixo iria afetar a vida selvagem.

O mesmo problema do plástico

Kate Sheehan, ecologista da Universidade Estadual de Frostburg, em Maryland, que está a estudar a forma como os plásticos afetam a vida selvagem, diz que o lixo relacionado com a COVID-19 apresenta as mesmas ameaças a longo prazo que a poluição por plástico.

O que é o plástico?
Em tempos um produto completamente natural, grande parte do plástico usado hoje em dia é produzido de forma artificial e depende, em larga escala, dos combustíveis fósseis. Desde os polímeros às bolinhas de plástico, descubra como é fabricado este material e o que podemos fazer para atenuar os seus impactos no planeta e nas nossas vidas.

Quer seja uma máscara ou uma garrafa, o plástico não se degrada no ambiente. Em vez disso, divide-se em pequenos fragmentos chamados microplásticos, que podem entrar nos pulmões ou no estômago de um animal e provocar infeções e obstruções. À medida que o corpo de um animal tenta metabolizar o plástico, os químicos libertados também podem ferir ou matar os animais.

“Como é óbvio, vão ser necessários vários anos para determinarmos os verdadeiros riscos apresentados pelo EPI relacionado com a COVID-19”, adverte Kate.

“Neste momento, é como uma enorme caixa negra. Não sabemos quais são os potenciais impactos dos microplásticos em geral.”

Mudar de máscaras descartáveis para máscaras reutilizáveis pode fazer uma grande diferença na quantidade de lixo de EPI, diz Helen Lowman, presidente e CEO da organização sem fins lucrativos Keep America Beautiful. (Saiba mais sobre como impedir que máscaras descartadas poluam o planeta.)

Helen também incentiva o público a reservar um segundo extra para colocar os itens descartáveis no lixo. Em geral, as máscaras faciais de EPI não são recicláveis ou apropriadas para a utilização em compostagem.

Em última análise, Auke-Florian espera que a sua investigação faça com que as pessoas pensem sobre o que acontece à vida selvagem quando atiram lixo para o chão. “Estes itens são usados uma vez, mas [permanecem] na natureza durante centenas de anos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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