Por que razão os gorilas macho batem no peito? Novo estudo revela evidências intrigantes.

O King Kong tornou este comportamento famoso, mas os cientistas ainda sabem pouco sobre o que leva os grandes símios a bater no peito.

Publicado 19/04/2021, 14:55
gorila-das-montanhas macho bate no seu peito

Um gorila-das-montanhas macho bate no seu peito no Parque Nacional dos Vulcões, no Ruanda.

Fotografia de Nature Picture Library / Alamy Stock Photo

Desde que King Kong apareceu pela primeira vez nos ecrãs de cinema em 1933, o enorme macaco fictício expôs o público de todo o mundo a um comportamento de gorila bastante real – bater no peito.

Mas pode ficar surpreendido ao saber que, embora os cientistas tenham especulado sobre os significados destas exibições de percussão, as evidências reais sobre as razões que levam os gorilas macho a bater no peito têm sido escassas.

“É uma exibição extremamente impressionante”, diz Edward Wright, primatólogo do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária, na Alemanha. “Pode ser um pouco intimidante. Não vamos querer interferir.”

Curiosamente, embora estas fortes batidas no peito de um gorila-das-montanhas possam parecer indicar sinais de agressão, uma nova investigação feita por Edward Wright mostra que este comportamento pode na realidade prevenir a violência entre os gorilas, animais que podem pesar até 220 quilos.

Os gorilas-das-montanhas vivem em grupos familiares muito unidos que são liderados por machos, os chamados dorsos prateados, cuja autoridade é constantemente desafiada por outros machos. Ao evidenciar o seu tamanho, estatuto de acasalamento e aptidões de luta através de sons que podem viajar longas distâncias entre densas florestas tropicais, os dorsos prateados estão a sinalizar aos aspirantes a líder que é melhor pensarem duas vezes antes de começarem uma luta.

Para estudar este comportamento com detalhes nunca antes vistos, Edward e os seus colegas passaram mais de 3.000 horas a observar gorilas-das-montanhas, animais ameaçados de extinção, no Parque Nacional dos Vulcões, no Ruanda.

Entre 2014 e 2016, enquanto lidavam com as picadas de insetos e navegavam pelo terreno montanhoso e acidentado do parque, os cientistas observaram mais de 500 batidas no peito de 25 machos diferentes. A investigação foi feita com uma distância de segurança dos animais, que se habituaram à presença dos investigadores – os gorilas são altamente vulneráveis às doenças humanas.

Os cientistas, cujo trabalho foi financiado em parte pela National Geographic Society, usaram equipamento de áudio para registar as frequências das batidas, bem como o número de batidas e respetiva duração. Por fim, a equipa procurou relações entre estas variáveis e os tamanhos dos gorilas. Para isso, os cientistas analisaram fotografias para medir a largura máxima dos ombros de cada animal.

Os resultados mostram que os gorilas maiores produzem sons com frequências mais baixas ou graves do que os gorilas mais pequenos – possivelmente porque os gorilas maiores têm bolsas de ar maiores perto da laringe. Isto significa que, bater no peito não é apenas uma exibição visual, mas sim algo que o estudo designa de “sinal honesto de aptidão competitiva” – não muito diferente do rugido de um crocodilo ou de um bisonte.

De acordo com o estudo, publicado na Scientific Reports, embora os estudos feitos anteriormente tenham mostrado que o tamanho do corpo de um gorila estava ligado ao seu domínio e sucesso reprodutivo, a ideia de que bater no peito também comunicava algumas dessas informações era puramente especulativa.

Um dorso prateado dominante chamado MSK (à esquerda) bate em uníssono no peito com um dos seus machos subordinados, chamado KOM.

“Nós suspeitávamos, mas não havia dados reais para suportar essa afirmação”, diz Roberta Salmi, primatóloga e diretora do Laboratório de Ecologia Comportamental de Primatas da Universidade da Georgia, que não participou na investigação. “Fiquei feliz por ver finalmente esses resultados.”

Cartão de visita de King Kong

Embora bater no peito seja comum em filmes e noutras representações da cultura pop, ainda há muitas coisas que interpretamos mal sobre este comportamento.

Para começar, os gorilas na vida real não batem no peito com os punhos cerrados. Os gorilas colocam as mãos em forma de concha, o que amplifica os sons. E também passam de uma posição sentada para uma postura em pé, talvez para garantir que as batidas são ouvidas a quase um quilómetro de distância.

Os dorsos prateados batem no peito com mais frequência quando as fêmeas sob a sua proteção estão a ficar com o cio, o momento em que estão prontas para acasalar. Mas não passam o dia inteiro a bater no peito, como costumam ser retratados em alguns filmes.

Na realidade, Edward Wright descobriu que cada macho bate no peito em média apenas 1.6 vezes a cada 10 horas. Os gorilas macho de estatuto inferior, ou subordinados, também apresentam este comportamento, assim como os gorilas macho bebé quando estão a brincar.

Edward diz que não parece haver uma relação entre o quão grande ou dominante um macho é e a quantidade de vezes que bate no peito, ou quanto tempo dura essa exibição. “Mas uma sequência de batidas no peito pode potencialmente comunicar a identidade de um animal, ou ‘assinatura individual’, a outros animais.”

Gigantes pouco gentis

Embora tenham músculos enormes e longos dentes caninos, os gorilas raramente se confrontam. Edward acredita que isso se deve, pelo menos em parte, ao facto de as batidas no peito permitirem aos machos avaliarem-se uns aos outros sem confrontos físicos.

“Mesmo que provavelmente um gorila consiga ganhar uma luta, continua a existir um fator de risco elevado”, diz Edward. “São animais grandes e poderosos que podem provocar muitos danos.”

Para os machos mais pequenos, o som das batidas no peito de um dorso prateado pode desencorajar a aproximação. Da mesma forma, um dorso prateado pode ouvir as batidas de outro macho mais pequeno nas proximidades e decidir que é demasiado fraco para se preocupar.

Como a frequência sonora das batidas acompanha o tamanho do corpo – que por sua vez está ligado ao domínio e ao sucesso reprodutivo – as fêmeas também têm muitos motivos para ouvir estes sons. As batidas no peito particularmente impressionantes podem atrair fêmeas para um grupo nas proximidades, como o canto de uma sereia, embora este comportamento ainda não tenha sido estudado.

Roberta Salmi também estudou as batidas no peito em gorilas-ocidentais-das-terras-baixas, animais intimamente relacionados com os gorilas-das-montanhas. Curiosamente, esta espécie também exibe um comportamento onde bate palmas – aparentemente como uma forma para alertar os outros sobre potenciais perigos – que até agora não foi observado nos gorilas-das-montanhas.

Considerando os resultados do novo estudo, a próxima etapa é perceber como é que os outros gorilas usam as informações codificadas nos sons das batidas no peito, diz Roberta.

“Vai ser muito interessante perceber como é que as batidas no peito podem afetar os seus movimentos e decisões sobre as áreas por onde se movimentam no seu ambiente.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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