Porque é que as baleias encalham nas praias? A culpa pode ser parcialmente nossa.

Desde padrões enganadores de marés a poluição sonora e pesca excessiva, há vários motivos pelos quais as baleias – por vezes às centenas de uma só vez – encalham em terra.

Publicado 8/04/2021, 11:41
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Uma baleia-comum encalhada na costa de Holland-on-Sea, uma cidade na costa leste de Inglaterra, no dia 30 de maio de 2020. Embora este fenómeno seja global, os arrojamentos de baleias acontecem regularmente ao longo das linhas costeiras mais rasas do Mar do Norte.

Fotografia de Rob Deaville, CSIP-ZSL

Todos os anos, milhares de baleias, golfinhos e outros animais marinhos surgem nas praias de todo o mundo. Este fenómeno – chamado encalhamento ou arrojamento – acontece tanto com indivíduos saudáveis como com animais feridos (ou mortos) que são levados para a costa pelos ventos predominantes. Por vezes, um grupo enorme de animais marinhos encalha em conjunto, evento conhecido por arrojamento em massa, e noutras ocasiões, uma região pode testemunhar um número invulgar de arrojamentos ao longo de um período de tempo.

No Reino Unido, o Cetacean Strandings Investigation Program (CSIP), da Sociedade Zoológica de Londres, registou o arrojamento de mais de 12.000 cetáceos desde 1990. Os eventos de maior visibilidade, como o arrojamento em 2015 de mais de 300 baleias-sei na região da Patagónia, no sul do Chile, ou as várias baleias-de-bico que deram à costa em Guam entre 2007 e 2019, mostram que este é um fenómeno verdadeiramente global. Em todos os arrojamentos, as causas podem ser atribuídas a diversos fatores.

“Provavelmente existem tantos motivos para as baleias e golfinhos encalharem como o próprio número de arrojamentos”, diz Kevin Robinson, diretor da Unidade de Pesquisa e Resgate de Cetáceos, uma instituição escocesa de conservação marinha. Eis o que os cientistas sabem sobre o que leva as baleias a encalhar – desde linhas costeiras enganadoras a ameaças apresentadas pelos humanos.

Topografia

A topografia costeira e as variações nas marés transformam algumas regiões em verdadeiras armadilhas para os mamíferos marinhos. Os arrojamentos em massa acontecem regularmente em lugares como Farewell Spit, na Nova Zelândia, nas linhas costeiras do Mar do Norte e em Cape Cod, no leste dos Estados Unidos. Nick Davison, coordenador de arrojamentos do Scottish Marine Animal Stranding Scheme, explica que estas regiões são demasiado rasas para as baleias porque a sua capacidade de ecolocalização está projetada para águas profundas.

Além disso, durante um ciclo de maré, a água pode recuar vários quilómetros em poucos minutos, o que significa que alguns animais marinhos podem ficar retidos durante este processo. Daren Grover, do Project Jonah, explica que, se os animais não perceberem que se estão a mover em direção a águas rasas, isso pode ser problemático quando a maré muda. “A água simplesmente desaparece”, diz Daren. “Ficam em terra seca.”

Causas naturais

Uma baleia encalhada pode estar doente ou ferida, senil, perdida, incapaz de se alimentar ou afetada de alguma forma – por exemplo, a passar por um trabalho de parto difícil – ou ser simplesmente velha, explica Dan Jarvis, oficial da British Divers Marine Life Rescue. Os animais enfraquecidos podem andar à deriva com a corrente até serem levados para a costa, enquanto que os animais que estão desorientados podem acabar acidentalmente em águas rasas.

A predação também pode levar os animais para a praia – quer sejam predadores ou presas. Daren Grover lembra ocasiões em que golfinhos nadaram em direção à praia para fugir de uma orca, ou orcas que ficaram encalhadas enquanto caçavam raias em águas rasas. Embora as orcas se projetem em direção à costa como uma técnica comum de caça, por vezes podem calcular mal a profundidade e têm de esperar até que uma onda grande as leve de volta ao oceano.

Apesar de as baleias saudáveis também poderem sofrer arrojamentos, muitas das baleias que dão à costa estão doentes ou mortas, como esta baleia-comum que encalhou na costa leste de Inglaterra no dia 30 de maio de 2020. A sua causa de morte é desconhecida.

Fotografia de Rob Deaville, CSIP-ZSL

Atividades humanas

Os humanos também fazem parte do problema. A pesca, poluição, colisões com navios e muitos outros fatores são responsáveis por grande parte dos ferimentos (e mortes subsequentes) que provocam arrojamentos. O emaranhamento em linhas de pesca é a principal causa de morte de cetáceos. Kevin Robinson atribui a extinção funcional do golfinho-branco e a extinção iminente da vaquita à pesca. E a pesca em excesso também priva os cetáceos das suas principais fontes de alimentação, obrigando-os a aventurarem-se em águas costeiras para caçar.

Algumas destas causas, como a poluição, são dissimuladas. Todos os produtos químicos acabam eventualmente por chegar ao oceano, onde provocam problemas duradouros. Rob Deaville, gestor de projeto do CSIP, diz que há evidências de que os animais doentes têm níveis mais elevados de poluentes químicos do que os animais saudáveis, embora seja difícil provar a causa. A poluição por plástico também pode afetar estes animais através do emaranhamento, ingestão ou contaminação por microplásticos que se acumulam nos seus corpos.

Por fim, a possibilidade de colisões com navios representa um problema particular para as espécies de movimento lento, como as baleias-francas-do-atlântico-norte. As colisões podem provocar ferimentos graves (ou morte) e levar ao arrojamento.

Um oceano ruidoso

A poluição sonora, incluindo os pulsos sonoros utilizados nos sonares e na prospeção sísmica, interfere na capacidade de comunicação e navegação das baleias e pode levá-las até à costa devido a surdez, desorientação ou simplesmente por estarem assustadas. As espécies de águas profundas que vivem em oceano aberto, como as baleias-de-bico, são particularmente suscetíveis aos sonares, mesmo a quilómetros de distância. Por exemplo, acredita-se que a atividade dos sonares navais esteja associada a uma série de arrojamentos de baleias-de-bico em Guam. Kevin refere que “as baleias são provavelmente os animais acusticamente mais sofisticados na Terra”. Dado que o som viaja mais depressa na água do que no ar, e também mantém a sua intensidade durante mais tempo, os sons podem provocar lesões nos ouvidos dos animais.

“Quando uma [baleia] tenta mergulhar, não consegue equalizar a pressão”, diz Kevin. Sem conseguir mergulhar, uma baleia não consegue caçar e fica desnutrida e desidratada, porque obtém a sua água através da comida. Enfraquecida, começa a flutuar com a corrente e, eventualmente, acaba por dar à costa.

Arrojamentos em massa

Os arrojamentos em massa são qualquer evento que envolva desde dois animais – exceto uma mãe e a sua cria – até um grupo inteiro, e pode variar entre um punhado de baleias até centenas de individuos. Estes eventos geralmente acontecem com as espécies mais sociais, como as baleias-piloto e as baleias-cabeça-de-melão. Devido aos seus instintos de grupo, permanecem todas juntas, mesmo que uma esteja doente ou com outros problemas, levando-as a encalhar quando tentam ajudar um indivíduo em apuros.

Os laços entre estes animais são tão fortes que, se as baleias saudáveis forem libertadas de regresso no oceano – ou “reflutuarem” – e ouvirem um membro do grupo a chamar na costa, voltam a encalhar para ficar com aquele animal. Para evitar esta situação, os socorristas devem cuidar primeiro do animal afetado antes de libertarem o resto do grupo.

Probabilidades de sobrevivência

Quando uma baleia encalha, é uma corrida contra o tempo. O corpo de uma baleia é normalmente suportado pela água, mas em terra o peso é esmagador. A circulação reduzida faz com as toxinas se acumulem, envenenando o animal. Fora da água, a gordura de uma baleia também pode provocar superaquecimento. E tal como acontece com outros mamíferos, as baleias respiram ar, podendo morrer afogadas quando estão encalhadas e a água entra no seu respiradouro durante a maré alta.

Se encontrarmos uma baleia encalhada, não a devemos tentar mover. Arrastar o animal de regresso para a água “é a atitude completamente errada”, diz Kevin, pois pode danificar as suas delicadas barbatanas e ser fatal caso o animal precise de cuidados veterinários antes de ser libertado. Em vez disso, as instituições marítimas, a guarda costeira ou os serviços de emergência podem ajudar enquanto se aguarda pela ajuda de voluntários e veterinários treinados. Devemos manter o animal direito, molhado (evitar que entre água no respiradouro) e tapado para evitar queimaduras solares.

Ainda assim, as taxas de sobrevivência são baixas. As equipas de resgate só tentam reflutuar um animal se este estiver saudável o suficiente para sobreviver. As únicas outras opções são levar o animal para cativeiro – em países onde isso é permitido – ou a eutanásia. Apesar de angustiante, Dan Jarvis argumenta que esta é a melhor decisão em termos de bem-estar, em vez de se submeter um animal selvagem ao cativeiro.

O lado positivo

Os arrojamentos ajudam os cientistas a compreender melhor estes animais, sobretudo as espécies mais difíceis de estudar, como as baleias-de-bico. Através das necropsias, os investigadores não só descobrem como é que uma baleia morreu, mas também como viveu, onde esteve, o que comeu, como foi afetada pela poluição química ou plástica e quantas vezes esteve grávida. “Não se trata apenas da morte”, diz Rob Deaville. “Também se trata das suas vidas.”

Rob também refere que os arrojamentos podem até ser um sinal positivo para as baleias, porque podem indicar números populacionais mais saudáveis. Simplificando, com mais animais no oceano, mais tendem a encalhar devido a causas naturais, mesmo que existam outras ameaças. Na Escócia, a escassez de arrojamentos de orcas reflete o quão poucos indivíduos restam de uma população que está em perigo de extinção, mas o aumento de arrojamentos de baleias-jubarte no Reino Unido reflete a sua recuperação desde que a caça à baleia foi proibida.

“Paradoxalmente”, diz Rob, “podem ser más notícias para um indivíduo, mas são boas notícias para a população em geral.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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