As formas surpreendentes como os animais usam eletricidade

Desde enguias elétricas a equidnas, muitos animais usam correntes elétricas para comunicar, encontrar presas e como mecanismo de defesa.

Por Lavanya Sunkara
Publicado 18/05/2021, 12:09 WEST
enguia elétrica

As enguias elétricas (que não são realmente enguias) podem gerar mais de 800 volts para atordoar as suas presas.

Fotografia de GEORGE GRALL / NAT GEO IMAGE COLLECTION

A eletricidade, uma força invisível da natureza, está por todo o lado. Os humanos, por exemplo, geram campos elétricos fracos sempre que movem os músculos. Mas alguns animais impressionantes levam esse poder mais além, desenvolvendo a capacidade de se defender, comunicar e encontrar comida através de eletricidade.

Muitas destas criaturas vivem em ecossistemas de água doce, e usam a eletricidade para compensar a visão fraca ou a falta de visibilidade em águas turvas. Cerca de 350 espécies de peixes – incluindo a famosa enguia elétrica – possuem estruturas anatómicas que podem gerar uns impressionantes 860 volts de energia. Para fins comparativos, um choque de uma tomada na nossa casa tem cerca de 120 volts.

As criaturas de água salgada, como tubarões, raias e até mesmo uma espécie de golfinho, também usam órgãos sensoriais especiais para caçar debaixo de água. Embora menos comuns, alguns animais terrestres como as abelhas, os ornitorrincos e as equidnas usam eletricidade para procurar alimento e comunicar.

Eletrogénese vs. eletrorreceção

Os animais usam eletricidade de duas formas diferentes: eletrogénese (geram pulsos elétricos) e eletrorreceção (detetam pulsos elétricos).

“Os animais eletrogéneos geram eletricidade e enviam-na para fora dos seus corpos”, diz Jack Cover, curador de exposições vivas do Aquário Nacional em Baltimore, Maryland.

Estas espécies incluem enguias elétricas, raias-torpedo, bagres africanos de água doce e peixes Gnathonemus petersi, e todos emitem choques de alta voltagem para incapacitar as suas presas.

Os animais eletrorrecetores, por outro lado, conseguem detetar campos elétricos fracos gerados pelas suas presas. Quando um campo elétrico atinge um objeto vivo, cria uma distorção que um animal eletrorrecetor consegue sentir.

“É algo que os informa sobre onde podem estar obstáculos ou presas [ou predadores], ou até mesmo o seu tamanho”, explica George Parsons, diretor do departamento de planeamento animal e operações de mergulho do Aquário Shedd de Chicago.

Os tubarões são eletrorrecetores que procuram presas através de órgãos chamados Ampolas de Lorenzini, que estão concentrados em torno das suas cabeças. (Estudo confirma que tubarões usam o campo magnético da Terra para navegar.)

“Os tubarões conseguem sentir o movimento muscular, dado que este liberta campos elétricos, sobretudo os movimentos mais drásticos”, diz George Parsons. Um peixe que esteja doente e muito agitado com o perigo, por exemplo, é rapidamente descoberto por um tubarão.

Alguns dos animais eletrogéneos, como as enguias elétricas e os peixes Gnathonemus petersi, também podem ser eletrorrecetores, e usam uma pequena fração da sua capacidade elétrica para detetar outros animais no seu ambiente quando estão a caçar. No entanto, existem muitos animais eletrorrecetores que não são eletrogéneos.

Águas turvas

Para muitos dos animais que se movem em ambientes turvos de água doce, as correntes elétricas carregadas são tão importantes como a cor ou o som para os humanos.

Por exemplo, o habitat da enguia elétrica – as bacias dos rios Amazonas e Orinoco, na América do Sul – contém enormes quantidades de sedimentos vindos de uma paisagem em constante mudança.

É por esta razão que estes animais com mais de dois metros – peixes em forma de enguia que na verdade pertencem à família dos peixes-faca – são eletrogéneos e eletrorrecetores. Esta espécie usa três órgãos sensoriais que tem ao longo do corpo para emitir choques de até 860 volts – energia suficiente para atordoar presas e predadores.

Cada um destes três órgãos – chamados órgão principal, órgão de Hunter e órgão de Sach – são compostos por células em forma de disco que têm uma extremidade positiva e negativa, como as extremidades de uma pilha.

“Quando o cérebro emite um sinal, as cargas são disparadas juntas e podem agir como milhões de pilhas minúsculas que formam uma grande voltagem”, explica George.

Este mecanismo de defesa é particularmente útil durante a estação seca, quando os níveis de água estão baixos e os grandes mamíferos procuram alimento. Se o peixe sentir que um predador está por perto, pode até saltar da água e atacar com uma descarga elétrica.

O bagre elétrico, que vive em ambientes tropicais de água doce em África, consegue produzir até 350 volts para encontrar comida. O peixe Gnathonemus petersi, nativo de África Ocidental, usa a sua cauda elétrica para navegar em águas turvas.

Alguns peixes também atraem companheiros com eletricidade. Os peixes-faca-fantasma macho e fêmea, nativos da América do Sul, produzem leves pulsos elétricos através de um órgão que têm nas caudas durante o acasalamento.

Estes choques ajudam a “coordenar e a sincronizar a libertação de óvulos por parte da fêmea, seguidos da libertação de espermatozoides do macho sobre os óvulos”, explica Jack Cover.

Mamíferos e insetos elétricos

Embora os golfinhos sejam famosos pela ecolocalização – a capacidade de localizar objetos através do som refletido – o boto-cinza, que pode viver em água doce e salgada, desenvolveu uma estratégia diferente: deteta presas localizando os seus campos elétricos, o único mamífero marinho de que há conhecimento a fazer algo assim.

Num estudo feito em 2011 com botos-cinza em cativeiro, os cientistas descobriram que estes animais têm órgãos eletrorrecetores semelhantes aos de muitas outras espécies de peixes, e semelhantes aos dos ornitorrincos.

“Faz sentido que esta espécie desenvolva essa aptidão devido às águas turvas da costa ocidental do Atlântico na América Central e do Sul”, diz Tracy Fanara, engenheira e cientista de investigação da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA, sedeada em Gainesville, na Flórida.

O ornitorrinco, nativo da Austrália, é um mamífero semiaquático que consegue detetar presas através dos 40.000 eletrorrecetores que tem no bico. O ornitorrinco usa o seu bico sensorial como um detetor de metais, movendo-o de um lado para o outro enquanto nada para encontrar lagostins e minhocas na água.

A equidna, que faz parte da mesma família de monotrématos do ornitorrinco e que vive na Nova Guiné e na Austrália, é possivelmente o único animal terrestre a usar eletrorrecetores para localizar presas. O sistema eletrorrecetor que tem no seu focinho carnudo é semelhante ao do ornitorrinco, mas muito menos complexo, com menos de 2.000 receptores.

No reino dos insetos, os zangões são conhecidos por alterar a eletricidade estática das flores para comunicar com os membros da sua colmeia.

“As asas dos zangões são tão rápidas que, quando estes insetos recolhem pólen, criam realmente um campo elétrico”, diz Tracy Fanara. Este campo pode alterar a carga elétrica em torno de uma flor durante cerca de 100 segundos, comunicando às outras abelhas “que o pólen dessa flor já se esgotou”.

Quem é que não gostaria de saber antecipadamente que já não há mais bolo na copa?
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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