Estes cães pisteiros estão a aprender a farejar o coronavírus

Os cães conseguem aprender a farejar níveis baixos de açúcar no sangue, detetar convulsões e determinados tipos de cancro. Na Universidade da Pensilvânia, também estão a aprender a farejar o coronavírus.

Fotografias Por Sabina Louise Pierce
Publicado 25/05/2021, 12:07 WEST
Toby, um pequeno Munsterlander, anda em torno de uma roda de metal com oito raios à ...

Toby, um pequeno Munsterlander, anda em torno de uma roda de metal com oito raios à procura de uma lata que contém uma camisola que foi usada por uma pessoa que acusou positivo para o coronavírus. “Toby era, e costuma ser nestes estudos, uma espécie de superestrela – aprende muito depressa”, diz a mãe adotiva de Toby, Jennifer Essler, pós-doutoranda no Centro Operacional de Cães da Universidade da Pensilvânia, que está a treinar cães a farejar o vírus.

Tuukka gosta de apanhar discos voadores. Griz adora uma bola esponjosa cor de laranja. Toby usa o seu tempo de lazer para dormir a sesta ou ladrar aos veículos que passam. Mas estes rafeiros comuns têm uma capacidade extraordinária: fazem parte de uma matilha de cães de investigação que consegue farejar o cheiro característico do SARS-CoV-2, o vírus que provoca a COVID-19.

À medida que a doença se propagava pelo mundo e os cientistas implementavam ferramentas como testes de reação em cadeia da polimerase para detetar o novo coronavírus nas pessoas, uma equipa de investigadores da Escola de Medicina Veterinária da Universidade da Pensilvânia trabalhava para determinar se os cães também conseguiam ser treinados para detetar infeções.

Este estudo de conceito, publicado em abril na revista PLOS ONE, mostrou que o vírus tem um odor que os cães treinados conseguem identificar na urina e na saliva. Agora, os investigadores – com a ajuda dos cães Tuuka, Griz, Toby, Rico e Roxie – estão a examinar se os caninos conseguem detetar o cheiro do coronavírus em camisolas suadas.

Se os cães conseguirem detetar o vírus com precisão na roupa, podem patrulhar locais como aeroportos e estádios para farejar o vírus em locais públicos.

“A nossa grande questão é: será que conseguimos traduzir isto em utilização operacional?” pergunta Cynthia Otto, autora sénior do estudo e diretora do Centro Operacional de Cães da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade da Pensilvânia. “Será que os cães conseguem fazer a triagem de pessoas? Creio que é um potencial benefício.”

Cynthia Otto, diretora do Centro Operacional de Cães, trabalha com Rico, um pastor alemão. Cynthia acredita que os cães podem um dia ser treinados para fazer a triagem de pessoas com COVID-19 em espaços públicos, como aeroportos ou estádios.

O cheiro do suor

Com um olfato considerado 1.000 a 10.000 vezes mais apurado do que o nosso, os cães fazem hoje todos os tipos de trabalhos. Os cães conseguem farejar os primeiros sinais da doença de Parkinson, diabetes, vários tipos de cancro, ataques epilépticos e malária, entre outras doenças. E ajudam equipas de busca e salvamento após desastres naturais e servem como aliados em operações militares, onde detetam explosivos escondidos. Alguns cães acompanham funcionários alfandegários em operações onde detetam contrabando, drogas e até marfim de elefante. Os cães conseguem rastrear caçadores furtivos, patrulhar navios de carga à procura de ratazanas, que podem escapar em portos distantes, e farejar espécies invasoras e até espécies ameaçadas de extinção.

Os investigadores da Universidade da Pensilvânia começaram a tentar treinar os cães para farejarem o novo coronavírus a partir de amostras de urina e saliva na primavera de 2020. Em novembro, começaram a treinar os cães para o fazerem com suor. Este processo começa com a apresentação de amostras positivas aos cães, recompensando-os com guloseimas após identificações corretas. Quando os cães aprendem a associar o cheiro do vírus a uma experiência gratificante, estão prontos para iniciar os testes oficiais.

“Os cães treinados para detetar o vírus no suor podem andar entre filas de pessoas e farejar infeções instantaneamente.”

Os investigadores colocam uma série de camisolas suadas e elementos para distrair os animais – roupas limpas, materiais de transporte ou álcool desinfetante – dentro de recipientes cobertos de malha nas extremidades de uma roda de metal com oito raios. Só uma das latas é que contém uma camisola que foi usada por uma pessoa que testou positivo para a COVID-19 num período de 48 horas após ter usado a camisola. Os cães andam em torno da roda até detetarem a amostra positiva.

No estudo feito em abril com amostras de urina e saliva, os cães conseguiram encontrar o vírus com 96% de precisão, diz Cynthia Otto. “Embora o estudo atual com camisolas suadas ainda esteja a decorrer, os caninos também têm tido um sucesso notável.”

Roxie é a cadela mais rápida: Esteve na roda e encontrou a amostra positiva em apenas 12 segundos. Rico, um cachorrinho mais pensativo, demora cerca de 23 segundos a identificar a camisola correta.

Esquerda: Meghan Ramos, especialista em medicina e reabilitação desportiva no Centro Operacional de Cães, limpa o interior da boca de Tuukka enquanto Jennifer Essler, a dona de Tuukka, lhe segura na boca. Tuukka está a começar a trabalhar como cão pisteiro. “Foi engraçado vê-la a passar por isto, porque passar de farejar coisas básicas em casa para detetar COVID é como passar de matemática básica para cálculo”, diz Jennifer.

Direita: Os investigadores recolhem amostras de sangue e de zaragatoas antes de começarem o estudo, para garantir que os cães não contraíram COVID-19.

Roxie, uma cadela labrador muito nervosa, brinca antes de começar uma experiência. “Roxie precisa de brincar antes do estudo porque tem muita energia”, diz Amritha Mallikarjun, pós-doutoranda no Centro Operacional de Cães.

Cães pisteiros no terreno

Os cães conseguem detetar o coronavírus através dos seus compostos orgânicos voláteis – os químicos segregados através de produtos residuais como urina, saliva e suor – conforme as células humanas se metabolizam.

“Estes compostos são como a impressão digital de uma doença”, diz Amritha Mallikarjun, investigadora de pós-doutoramento que trabalha no estudo atual. E embora sejam indistinguíveis para o nariz humano, os cães têm um olfato muito poderoso: para além de todos os recetores, as suas narinas estão ligadas a dezenas de canais que permitem que os odores permaneçam no seu sistema. “Há muito espaço nestes canais para o ar tocar nas superfícies e ser detetado pelos recetores nasais dos caninos”, diz Amritha.

Há outros estudos semelhantes que já foram concluídos ou que estão a decorrer noutras partes do mundo, incluindo no Reino Unido e em França. Por exemplo, depois de encontrar cães que conseguiam distinguir entre amostras de suor de pessoas com testes positivos ou negativos para a COVID-19, Dominique Grandjean, veterinário e professor da Escola Nacional de Veterinária de Alfort, em França, disse à National Geographic que vai começar a testar se os caninos conseguem detetar as variantes de COVID-19. E há cães a trabalhar no aeroporto internacional de Helsínquia-Vantaa da Finlândia para farejar passageiros infetados.

Algumas das pessoas que propõem o uso de cães de deteção para a COVID-19 dizem que os animais podiam substituir outros esforços de mitigação, como os testes PCR, que requerem uma zaragatoa nasal ou oral e podem demorar dias a ser processados. Os cães treinados para detetar o vírus no suor podem caminhar entre filas de pessoas e cheirar infeções instantaneamente e sem interrupções, diz Amritha, e com um risco mínimo: os estudos têm demonstrado que o SARS-CoV-2 não é transmissível entre pessoas – ou animais – através do suor.

As capacidades dos cães também podiam ser usadas para criar e programar narizes mecânicos, dispositivos eletrónicos que funcionariam da mesma forma que os alcoolímetros na identificação da COVID-19, acrescenta Amritha.

Esquerda: Tuukka, uma mistura entre pastor alemão, husky e border collie, pratica as suas capacidades de deteção do vírus na roda.

Direita: Os investigadores recolheram camisolas para o estudo de voluntários de todos os Estados Unidos. Os voluntários deviam usar as camisolas lisas brancas durante a noite e enviar os resultados de um teste COVID-19 recente – ou uma cópia do certificado de vacinação – juntamente com a camisola.

Mas há quem diga que é demasiado cedo para se saber como é que os cães irão encaixar na luta contra a pandemia. “Acredito que há certamente potencial nisto”, diz Anna Durbin, professora de saúde internacional na Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg. Anna diz que os cães treinados podem ser usados para complementar outros esforços. Por exemplo, podem fornecer uma triagem inicial que um teste de laboratório pode posteriormente confirmar, permitindo que uma pessoa potencialmente infetada tome medidas imediatamente.

Mas os cães pisteiros não podem ser uns cães quaisquer. “Muitas pessoas estão entusiasmadas por poderem ter cães que detetam a COVID-19”, diz Cynthia Otto, “mas precisamos de pensar num cão adequado para este tipo de trabalho – um cão que seja de confiança e também que não se farte de fazer isto.”

Alexandra Horowitz, especialista em cognição canina do Barnard College, que não participa neste estudo, diz que “os cães mais bem-sucedidos neste tipo de trabalho olfativo são aqueles que estão muito motivados para trabalhar por uma recompensa, e que sejam capazes de fazer tudo o que lhes exigirmos para receber essa recompensa.”

Este é certamente o caso de Griz, concordam os investigadores, um cão que trabalha incansavelmente pela sua recompensa preferida: a sua bola esponjosa cor de laranja. “Ele simplesmente adora aquela bola”, diz Amritha Mallikarjun. “Gosta de a apertar, e é muito feliz.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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