Estudo confirma que tubarões usam o campo magnético da Terra para navegar

Os cientistas já suspeitavam há muito tempo que os peixes conseguem sentir o campo magnético para navegar, mas ninguém sabia como – até agora.

Publicado 10/05/2021, 12:34
tubarão-de-pala nada

Um tubarão-de-pala – a espécie usada no novo estudo – a nadar no Aquário de Nova Inglaterra em Boston.

Fotografia de Brian Skerry

Quando se trata de feitos notáveis de migração, costumamos ouvir falar em aves ou salmão. Mas muitos tubarões também se envolvem em viagens impressionantes pelos oceanos, desde os grandes tubarões-brancos – alguns dos quais viajam da África do Sul para a Austrália e vice-versa – aos tubarões-limão, que conseguem encontrar o caminho de regresso para casa até uma pequena ilha nas Bahamas.

Os cientistas interrogaram-se durante décadas como é que estes peixes o conseguiam fazer. Muitas espécies têm um olfato mais apurado, e embora isso as pudesse ajudar a orientar durante o trecho final das suas jornadas, era pouco provável que o olfato por si só as conseguisse guiar ao longo de enormes distâncias. É por esta razão que muitos especialistas acreditam que os tubarões navegam detetando o campo magnético da Terra, talvez usando os mesmos órgãos sensoriais eletromagnéticos que os ajudam a rastrear as suas presas.

Dado que cada local na Terra tem uma assinatura magnética diferente, alguns especialistas levantaram a hipótese de que os tubarões podiam ter algum tipo de “mapa magnético” nas suas cabeças que lhes dizia onde estavam.

Para testar esta teoria, Bryan Keller, biólogo de tubarões que agora faz parte da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA, levou 20 jovens tubarões-de-pala – uma pequena espécie de tubarão-martelo que foi escolhida porque regressa fielmente a casa para procriar – para um laboratório na Universidade Estadual da Flórida.

Num novo artigo, publicado na semana passada na revista Current Biology, Bryan Keller e os seus colegas confirmam que os tubarões-de-pala conseguem de facto usar o campo magnético da Terra para fins de navegação.

“Outros estudos já tinham demonstrado que os tubarões detetam e respondem aos campos magnéticos”, diz Bryan, “mas este é o primeiro estudo a mostrar que os tubarões têm um sentido semelhante ao de um mapa.”

Perceber como é que os tubarões navegam pode ajudar-nos a compreender para onde vão e proteger melhor essas áreas, muitas das quais são fortemente afetadas pela poluição e pesca predatória: as populações de 18 espécies de tubarões e raias oceânicas tiveram um declínio de 70% desde 1970.

Enganar jovens tubarões

Para esta experiência, a equipa colocou os jovens tubarões num tanque rodeado por um cubo envolto em fio de cobre. “Quando mudamos a quantidade de energia que passa pelos fios, o campo magnético altera-se”, diz Bryan. “Se os tubarões realmente tiverem um mapa magnético nas suas cabeças, expô-los a um campo diferente deve redirecionar os seus movimentos.” (Descubra seis tubarões fascinantes dos quais provavelmente nunca ouviu falar.)

E foi exatamente isso o que aconteceu, pelo menos durante algum tempo. Quando os jovens tubarões foram expostos a uma simulação do campo magnético do local onde foram capturados, na costa do Golfo da Flórida, nadaram em várias direções. Mas quando foram expostos a um campo magnético que imita um local a cerca de 600 quilómetros a sul de onde foram capturados, muitos deles tentaram nadar para norte.

“Isto sugere claramente que os animais estavam a usar algum tipo de mapa magnético que os informava que estavam muito para sul de onde deviam estar”, diz Bryan.

Mas a experiência não se ficou por aqui.

Bryan também expôs os tubarões a um campo magnético que imita um lugar exatamente à mesma distância, mas a norte. Porém, quando o fez, os tubarões não pareciam ter a menor ideia de onde estavam e não sabiam para onde virar.

Muito longe do alvo

Por que razão o mapa dos tubarões só funcionava no sul? Bryan refere que um dos motivos se pode dever ao facto de os tubarões nesta população nunca terem ido para norte de onde foram capturados, uma vez que só existe terra nessa região.

No sul fica o Golfo do México, região que estes jovens tubarões provavelmente já tiveram a oportunidade de explorar. Para Bryan e para os seus colegas, isto implica que os tubarões podem ter de aprender os seus mapas magnéticos, descobrindo-os enquanto nadam.

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“Estas descobertas sugerem que os tubarões e as tartarugas marinhas usam o campo magnético de formas semelhantes”, diz Kenneth Lohmann, neurocientista sensorial da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, que estuda a navegação de tartarugas marinhas (Descubra como as tartarugas marinhas encontram a praia onde nasceram.)

Até agora, explica Kenneth, os mecanismos de navegação descobertos nas tartarugas marinhas revelaram-se bastante semelhantes aos encontrados noutros migrantes oceânicos de longa distância, como o salmão.

“No oceano, as informações que podem ser usadas para orientar as migrações são muito limitadas”, diz Kenneth, que não participou nesta nova investigação. “Portanto, o campo magnético da Terra é um indicador particularmente útil.”

Um mapa mais elaborado?

Nas tartarugas marinhas, as investigações têm demonstrado que parte da sua capacidade em ler o campo magnético é hereditária, mas parte também é aprendida, pelo que uma combinação das duas ajuda estes répteis a encontrar o seu caminho.

“Nos tubarões, ainda não é possível determinar o que é hereditário e o que se aprende, mas este estudo fornece uma boa base”, diz Kenneth.

Henrik Mouritsen, neurocientista sensorial da Universidade de Oldenburg, na Alemanha, concorda que é demasiado cedo para se afirmar que os tubarões aprendem os mapas, mas salienta que nas aves, cujo sentido magnético está mais  bem estudado, esses mapas são “definitivamente aprendidos”.

“Nos tubarões, interrogo-me se e como é que os seus sensores elétricos especiais estão envolvidos. Para mim, o que seria realmente entusiasmante seria a explicação de como é que fazem isso”, acrescenta Henrik.

Uma experiência realmente interessante para se fazer a seguir, diz Bryan, seria testar se os tubarões-de-pala que vivem ao longo da Costa Leste dos Estados Unidos, que viajam tanto para norte como para sul a partir do local onde nasceram, têm um mapa mais elaborado do que aqueles que vivem apenas no Golfo do México.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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