O porco mais pequeno do mundo, que se pensava extinto, regressou à natureza

O tímido porco-pigmeu de 25 centímetros de altura, “redescoberto” em 1971, está a aumentar em número devido à criação em cativeiro na sua Índia nativa.

Por Kamakshi Ayyar
Publicado 31/05/2021, 11:11 WEST
porco-pigmeu em cativeiro

Um porco-pigmeu em cativeiro no Centro de Criação de Porcos-pigmeus em Guwahati, Índia.

Fotografia de Joel Sartore, Nat Geo Image Collection

MUMBAI, ÍNDIA – Nas pastagens altas e espessas no sopé dos Himalaias vive o porco-pigmeu, uma espécie tão pequena que os seus leitões podem caber no nosso bolso. Com cerca de 25 centímetros de altura, este tímido animal já vagueou pelas regiões fronteiriças da Índia, Nepal e Butão, alimentando-se de insetos e tubérculos.

Contudo, um século de degradação e destruição de habitat – sobretudo a conversão de pastagens para utilização agrícola – devastou o porco-pigmeu e, até ser “redescoberto” em 1971, muitas pessoas pensavam que este animal provavelmente estava extinto.

Em meados da década de 1990, conservacionistas capturaram alguns porcos selvagens e começaram a criá-los em cativeiro, devolvendo-os a Assam, um estado no nordeste da Índia onde uma pequena população selvagem sobreviveu.

Vinte e cinco anos depois, estes esforços de conservação estão a dar frutos, dizem os especialistas. Ao todo, permanecem na natureza entre 300 a 400 animais, com 76 em cativeiro, e a espécie parece estar a prosperar.

O sucesso do programa inicial deu origem a esforços subsequentes. Entre 2008 e 2020, os cientistas libertaram 130 porcos-pigmeus em dois parques nacionais, Manas e Orang, e em dois santuários de vida selvagem, Barnadi e Sonai Rupai – todos no estado de Assam.

Nos próximos cinco anos, há planos para libertar pelo menos mais 60 porcos em Manas, diz Parag Deka, diretor do Programa de Conservação do Porco-pigmeu, sediado em Guwahati, capital de Assam.

“É muito importante para mim continuar a salvar esta espécie da extinção”, diz Parag. “Todos nós devemos procurar um propósito na vida. Quando me envolvi neste projeto, percebi que este poderia ser o meu propósito.”

Um porco especial

No mundo inteiro existem dezassete espécies de porcos selvagens, e quase todas estão ameaçadas de extinção. Mas o que torna o porco-pigmeu tão especial (para além do seu tamanho diminuto) é a sua singularidade evolutiva: é a única espécie do género Porcula, diz Matthew Linkie, coordenador do Grupo de Especialistas em Porcos Selvagens da União Internacional para Conservação da Natureza (UICN) na Ásia.

“Se perdêssemos esta espécie”, diz Matthew, “perderíamos um género inteiro e milhões de anos da sua evolução num instante”.

O programa de conservação está a dar à espécie “mais do que uma oportunidade de sobrevivência”, acrescenta Matthew, que elogiou os esforços recentes da equipa para proteger as populações de porcos-pigmeus em cativeiro de doenças como a peste suína africana, uma doença viral que apareceu na região em 2020 juntamente com a COVID-19. (Descubra como os cientistas estão a tentar prever a próxima pandemia.)

Os conservacionistas do porco-pigmeu implementaram medidas rigorosas de biossegurança para todo o pessoal, veículos e equipamentos que entram na área de criação, diz Matthew.

“Embora o vírus [da peste suína africana] tenha um enorme impacto económico na indústria suína da região, para os porcos-pigmeus e outras espécies ameaçadas pode significar o início da extinção”, diz Johanna Rode-Margono, presidente do Grupo Especialista em Porcos Selvagens da UICN.

“As equipas no local estão a fazer os possíveis para proteger as populações em cativeiro e selvagens.”

“Redescoberta”

Descrito pela primeira vez na ciência ocidental em 1847, o porco-pigmeu raramente foi visto no século seguinte, devido ao seu tamanho e timidez. No seu livro de 1964, The Wild Life of India, o naturalista Edward Pritchard Gee escreveu que estava “arduamente a tentar descobrir se [o porco-pigmeu] ainda existia”.

Portanto, faltavam detalhes sobre o seu estilo de vida e comportamento: os porcos-pigmeus adultos, que pesam entre sete e 10 quilos, dependem das pastagens para se protegerem de predadores, como cobras pitão e corvos, bem como de um espaço seguro para recolher alimentos e materiais para construir abrigos. (Veja filmagens raras do misterioso porco gigante da floresta.)

Os porcos derrubam ervas para construir telhados de palha para os seus ninhos, que são criados sobre depressões no solo. Uma família de porcos-pigmeus geralmente consiste entre três a cinco indivíduos, uma combinação de fêmeas e crias; os machos geralmente só se juntam à família durante alguns meses durante a época de acasalamento.

Em 1971, muito depois do último avistamento conhecido, um trabalhador de um jardim de chá descobriu um grupo de porcos-pigmeus a fugir de um incêndio, perto do santuário Barnadi (um tipo de área protegida), em Assam, e apanhou os porcos. Pouco tempo depois, um gestor de uma propriedade de chá chamado Richard Graves comprou 12 porcos a esse trabalhador num mercado local.

O chefe de Richard Graves, John Yandel, informou o naturalista Gerald Durrell, fundador do Fundo de Conservação de Vida Selvagem Durrell, sobre a descoberta. Cientistas do Fundo Durrell visitaram Assam para investigar os porcos, mas foram necessárias mais duas décadas para lançar o Programa de Conservação do Porco-pigmeu, que começou a capturar porcos selvagens para criação em 1996.

Quando os leitões criados em cativeiro atingem os seis meses de idade, são transferidos para um centro de pré-libertação ao ar livre em Potasali, perto do Parque Nacional de Nameri. Durante outros seis meses ou mais, as crias exploram e adaptam-se ao habitat de pastagem recriado no campo. Após a libertação, os porcos são monitorizados através de armadilhas fotográficas, transmissores de rádio e levantamentos no terreno.

Deserto verde

A criação de porcos é apenas uma parte da solução – também são necessárias pastagens saudáveis. Ao avaliar os locais de potencial libertação, a equipa procura solos aluviais de até cinco quilómetros quadrados (terras repletas de depósitos minerais trazidos por rios), e determinadas espécies de gramíneas e plantas nativas.

Mas é difícil encontrar estes tipos de áreas: as pastagens de Assam estão a diminuir, e também estão degradadas e fragmentadas. Barnadi, o santuário onde os porcos foram encontrados em 1971, encolheu de cerca de 10 quilómetros quadrados de pastagem para menos de dois quilómetros quadrados.

No passado, a queima ilegal e indiscriminada de pastagens para criar espaços abertos e pasto fresco para o gado ameaçou os porcos, sobretudo durante as suas épocas de acasalamento e procriação. As queimadas constantes também estimulam o crescimento de ervas daninhas – que prosperam em ambientes perturbados – e o deslocamento de ervas nativas.

“Parece tudo muito verde, mas eu digo que é um deserto verde, porque não cresce lá nada”, diz Parag Deka.

É por esta razão que a equipa de conservação está a trabalhar com as comunidades locais e funcionários florestais, para compreender como se podem reduzir estas pressões sobre as pastagens e desenvolver melhores práticas de gestão de habitat.

“Quando estamos a patrulhar, cortamos espécies como ervas daninhas e árvores de algodão vermelho que ameaçam as pastagens”, diz Arjun Kumar Rabha, guarda florestal do Parque Nacional de Manas, que trabalha com os conservacionistas há seis anos. “Antigamente, as queimadas de pastagens não eram monitorizadas devido à agitação sociopolítica na região. Agora praticamos uma queima controlada.”

A equipa também incentiva a criação de linhas de fogo entre os blocos de pastagens para garantir que as chamas não se propagam e que se extinguem durante algumas semanas entre as queimadas, permitindo que nova vegetação cresça noutras áreas para que os porcos e outras espécies que dependem das pastagens possam migrar.

O objetivo é restaurar perto de 30 quilómetros quadrados de pastagens no Parque Nacional de Manas até 2025, diz Parag Deka. “Eventualmente, os porcos devem repovoar a terra e prosperar.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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