O que estão realmente os elefantes a ‘dizer’? Trabalho inédito revela mistérios de comunicação.

Joyce Poole, Exploradora da National Geographic, reflete sobre a conquista da sua vida: um etograma que cataloga quase 50 anos de dados sobre o comportamento de elefantes-africanos.

Publicado 27/05/2021, 13:18
Joyce Poole grava vocalizações de elefantes

Joyce Poole grava vocalizações de elefantes no Parque Nacional de Amboseli em 2005.

Fotografia de Elephant Voices

Em 1975, Joyce Poole, de 19 anos, teve a oportunidade de uma vida: estudar elefantes no Parque Nacional de Amboseli, no Quénia.

A investigadora de elefantes Cynthia Moss, que tinha acabado de iniciar um estudo sobre elefantes-africanos fêmeas, perguntou à estudante universitária americana se queria fazer o mesmo com os machos, que Cynthia considerava “aborrecidos”, de acordo com Joyce.

Joyce rapidamente provou que a sua mentora estava errada, descobrindo que os elefantes-africanos machos tinham ciclos reprodutivos, ou “mosto” – algo que os biólogos de vida selvagem debatiam há muito tempo. Esta importante descoberta lançou a sua carreira e, nos 46 anos que se seguiram, Joyce, Exploradora da National Geographic, tornou-se numa das maiores especialistas mundiais em comportamento e comunicação de elefantes-africanos.

Em 2002, Joyce e o seu marido norueguês, Petter Granli, fundaram a organização sem fins lucrativos ElephantVoices, sedeada na Califórnia, para educar o público sobre a forma como os elefantes comunicam e a importância da sua conservação.

Agora, com base nos dados e vídeos recolhidos durante décadas de estudo em Amboseli e na Reserva Nacional Masai Mara, no Quénia, e no Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, Joyce e Petter criaram o Etograma do Elefante-africano – a biblioteca audiovisual mais abrangente alguma vez feita sobre o comportamento dos elefantes-da-savana.

Joyce ao lado do seu irmão Bobby, perto de um elefante famoso chamado Odinga, no Parque Nacional de Amboseli em 1967.

Fotografia de Robert Poole

Um recém-nascido tenta pendurar-se na presa da sua progenitora, no Quénia.

Fotografia de Joyce Poole e Petter Granli, Nat Geo Image Collection

No dia 25 de maio, esta base de dados ficou acessível ao público, permitindo que qualquer pessoa, desde um aluno do ensino secundário a um professor universitário, pesquise um comportamento específico – por exemplo, uma cria de elefante a dar uma cabeçada – e encontrar vários vídeos que explicam as razões pelas quais o animal está a fazer determinada ação.

Este etograma ganhou mais urgência com a recente classificação da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), que categorizou os elefantes da savana e da floresta como espécies separadas e ameaçadas de extinção. Com apenas 415.000 elefantes – em 1950 havia cinco milhões – Joyce espera que o etograma inspire as pessoas “a explorar e a contemplar os corações e mentes dos elefantes”.

Virginia Morell: Este etograma foi claramente uma enorme conquista. O que a inspirou?

Joyce Poole: Na realidade, isto começou há muito tempo – em 1982. Na minha tese [de doutoramento], incluí ilustrações de todos os comportamentos que descrevia, como o caminhar “mosto”, abanar as orelhas, ter a cabeça [erguida], entre outros. Quando concluí a minha tese, [o meu orientador] Robert Hinde disse que eu devia fazer um etograma – um inventário descritivo de todo o repertório de comportamentos dos elefantes-africanos. Lembro-me de ter pensado: Como é que vou fazer isso? Mas as palavras de Robert ficaram comigo. Katy Payne [especialista em bioacústica] e eu começámos a fazer outras descobertas, como por exemplo, que os elefantes conseguem produzir sons abaixo do nível de capacidade da audição humana. Comecei a reparar em posturas e gestos particulares associados a cada vocalização. Depois, Petter sugeriu que construíssemos bases de dados online para partilhar o que estávamos a aprender. Em 2017, 35 anos depois de Robert ter sugerido a ideia, começámos finalmente a trabalhar no Etograma do Elefante-africano.

VM: De onde surgiu o seu desejo de estudar estes animais?

JP: Já vem desde a minha infância. Mudei-me para África [vinda do Connecticut] quando tinha 6 anos. O meu irmão tinha 3 anos e minha irmã tinha apenas seis semanas – coitada da minha mãe. O meu pai era biólogo de vida selvagem e tinha sido nomeado diretor do programa do Corpo da Paz no Malaui. Sempre que ele tinha algum tempo livre, fazíamos safaris pela África Oriental, e íamos de carro até à Tanzânia e ao Quénia. Na verdade, conheci o meu primeiro elefante no Parque Nacional de Amboseli. Era um macho enorme e atacou o nosso carro; escondi-me debaixo do banco do Land Rover. Ainda me lembro daquela sensação de adrenalina. Portanto, desenvolvi desde muito cedo um amor por África e pela sua vida selvagem, e curiosidade pelos elefantes.

VM: Como começou a estudar elefantes?

JP: Quando terminei o ensino secundário matriculei-me no Connecticut College para estudar biologia. Terminei o meu primeiro ano, mas depois a minha família disse que se ia mudar para o Quénia; o meu pai tinha assumido o cargo de diretor da então Fundação de Vida Selvagem Africana. Eu estava decidida a fazer uma pausa de um ano nos estudos e ir com eles, mas o meu pai disse que eu só podia fazer isso se tivesse um “projeto que valesse a pena” e no qual eu pudesse trabalhar enquanto estivesse lá. Comecei a ler sobre vários projetos de vida selvagem, mas tive uma oportunidade incrível. O meu pai conheceu a Cynthia Moss e voltou um dia para casa e perguntou-me se eu queria trabalhar com a Cynthia em Amboseli.

Lembro-me claramente de um dos meus primeiros dias no campo. De repente, fiquei rodeada por estes animais enormes. Eu estava na carrinha Volkswagen da minha família e os elefantes estavam a pairar sobre mim a respirar de forma ofegante. Eu escondi-me. Finalmente eles foram-se embora. Quando regressei ao acampamento, contei à Cynthia este acontecimento terrível, e ela limitou-se a rir e disse: “Eles estavam a ser amigáveis.”

É esse o segredo dos elefantes: assim que conseguimos ler a sua linguagem corporal e compreender as suas vocalizações, abre-se um mundo completamente novo. As pessoas podem sentir isso através do etograma.

VM: Como organizou o etograma?

JP: O etograma inclui conhecimentos que foram obtidos ao longo de 46 anos – principalmente em Amboseli, mas alguns em Masai Mara – e arquivos de fotografia e vídeo dos nove anos que passámos na Gorongosa. A ideia era fazer um etograma detalhado, ao invés de uma coisa mais limitada, como olhar apenas para o comportamento entre mãe e cria. Planeámos as coisas de maneira a que o nosso etograma descrevesse tudo, todos os comportamentos que testemunhámos e todas as vocalizações que os acompanham. Extraímos e editámos cerca de 1.600 vídeos do comportamento de elefantes a partir de imagens filmadas em Masai Mara e na Gorongosa, selecionando exemplos de comportamentos específicos, e adicionámos descrições escritas.

VM: Como é que as pessoas devem usar o etograma?

JP: Provavelmente devem começar pela breve introdução e guia do utilizador ou, se for um cientista, seguir diretamente para a secção de ciência. Se for uma pessoa como eu, que não gosta de ler instruções, pode simplesmente pesquisar o que lhe apetecer. Pode seguir diretamente para a Tabela do Etograma e ter uma ideia dos comportamentos e escolher aquele que lhe interessa; depois, pode ver um vídeo. Ou pode usar o portal de pesquisa e digitar o nome de um comportamento, ou usar a pesquisa por alfabeto para seguir para um tópico. Para mim, o mais divertido é a pesquisa drop-down. Por exemplo, podemos querer saber quais são os comportamentos do “mosto” dos machos que envolvem as suas orelhas. Na opção “parte ativa do corpo”, clicamos em machos mosto e orelhas e, de seguida, clicamos em pesquisar – e vemos os vídeos que aparecem.

VM: Há alguma parte do etograma que as pessoas não vão querer perder?

JP: Se gosta de adrenalina, siga para a secção Ataque e Grupo na Tabela do Etograma e escolha Cabeçada. Tem apenas um vídeo, que filmámos em Gorongosa. Pedimos desculpa pelo palavrão norueguês que o Petter proferiu quando percebeu o que tinha acontecido ao nosso carro.

VM: Enquanto trabalhava no etograma, o que lhe pareceu mais importante sobre os elefantes?

JP: O etograma confirmou o quão inteligentes, empáticos e criativos os elefantes são. Também fiquei impressionada com a quantidade de tempo que os elefantes passam a contemplar. Para a maioria das pessoas, um elefante contemplativo parece que não está a fazer nada. É por isso que a maioria das pessoas sente falta do acasalamento entre elefantes na natureza. Durante o acasalamento, a maioria dos elefantes parece que está parada; estão parados porque estão à espera que a fêmea [no estro] se mova. Ou seja, estão a avaliar o que o outro está a fazer.

VM: O que mais quer descobrir sobre os elefantes?

JP: Quero descobrir o que os elefantes estão a dizer uns aos outros. Eu sei que eles dizem coisas realmente complicadas, e acredito que “falam” muito sobre nós – sobre os humanos – e como nos deveriam responder. Creio que os elefantes têm medo das pessoas em alguns lugares devido ao que lhes fizeram. Por exemplo, na Gorongosa, devido à longa guerra civil [desde 1972 até 1992], os elefantes têm muito medo e são agressivos para as pessoas.

Na Gorongosa, os elefantes chegavam a fazer chamamentos que eu nunca tinha ouvido antes. Tinham uma frequência muito baixa, plana e latejante. Não tenho exemplos suficientes para saber mais, mas senti que eram alertas para os membros das suas famílias sobre sermos perigosos. E em todos os lugares, os elefantes estão sob muito stress por terem que nos ouvir e estar sempre alerta.

VM: Será que a recente decisão de dividir os elefantes africanos em duas espécies – o elefante-da-floresta (Loxodonta cyclotis) e o elefante-da-savana (Loxodonta africana) – e atualizar as espécies para um estado de perigo crítico vai ajudar a proteger estas espécies da extinção?

JP: A atualização da UICN por si só não protege os elefantes. Se queremos salvar os elefantes, temos de agir agora, e não apenas falar da boca para fora. Vamos perder os elefantes se não formos [mais inteligentes] sobre a forma como usamos o espaço. Eu compreendo que as pessoas também precisam de espaço. Mas precisamos de delinear áreas e reservar terrenos para os elefantes e outros animais selvagens terem ligações entre as áreas protegidas.

Os elefantes são importantes porque fazem parte da maravilhosa biodiversidade do nosso planeta. Os elefantes também são importantes porque são autoconscientes e empáticos, e conseguem cuidar não só das suas próprias vidas, mas também da vida dos seus familiares e amigos.

Espero que este etograma inspire as pessoas a contemplar o dilema moral que os elefantes representam. Será que os elefantes têm o mesmo direito que nós de viver na Terra? Se sim, como é que arranjamos espaço para eles? Estas são grandes questões, e não há respostas simples, mas devemos tentar encontrar maneiras de viver de forma mais sustentável.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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