Pássaros que dormitam enquanto voam – e outras formas surpreendentes de dormir no reino animal

Os golfinhos desligam metade do cérebro. Os elefantes dormem apenas duas horas por noite. Descubra inúmeras formas de dormir no reino animal.

Publicado 19/05/2021, 15:57
urso-polar dorme

Um jovem urso-polar dorme com neve no nariz. Tal como os humanos, a maioria dos animais precisa de dormir – embora tenham as suas próprias formas exclusivas de o fazer.

Fotografia de Norbert Rosing, NAT GEO IMAGE COLLECTION

Para os humanos, dormir é uma necessidade, um mistério e um luxo. Não se sabe por que precisamos de dormir, mas precisamos – e uma hora a mais ou a menos pode fazer com que passemos o dia bem-dispostos ou rabugentos.

A maioria dos animais também dorme, diz Jerome Siegel, psiquiatra da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, mas fazem-no de formas tão variadas quanto o próprio reino animal. Estas variações incluem a duração e o quão profundo é o sono, e até mesmo como funciona a nível cerebral.

Desde cães que dormitam o dia inteiro a golfinhos que dormem com apenas metade do cérebro, eis um vislumbre das diversas maneiras como os animais dormem.

Ciclos de sono

Os humanos, tal como todos os símios, têm um sono monofásico, o que significa que dormimos num longo intervalo durante um período de 24 horas. Os bonobos, chimpanzés, gorilas e orangotangos constroem plataformas para dormir em árvores, longe de predadores e insetos, uma versão selvagem de cama. Os gorilas dormem durante 12 horas, mas os orangotangos dormem aproximadamente as mesmas oito horas que os humanos.

Noutros primatas, e na maioria dos mamíferos, o sono é polifásico, com vários períodos alternados de sono e atividade num ciclo de 24 horas. Os cães têm ciclos de acordar-dormir de cerca de 83 minutos e dormem um pouco mais de 10 horas e meia num ciclo de 24 horas.

A razão pela qual os símios têm um sono tão longo e reconfortante em comparação com o sono mais curto e irregular dos seus primos macacos tem que ver com as referidas plataformas para dormir. Os macacos precisam de se equilibrar em ramos de árvores, onde acordam facilmente devido a um potencial perigo ou por outros macacos – o que é útil para a sua sobrevivência, mas não para um sono prolongado.

Quando os símios começaram a ficar maiores, os ramos onde dormiam já não conseguiam suportar o seu peso – e assim começaram a construir algo que o conseguisse suportar. Ter a possibilidade de dormir longe dos perigos de predadores e de outras distrações permitiu-lhes dormir mais, com mais segurança e mais profundamente. Um estudo de 2015 revelou que os orangotangos conseguem de facto dormir melhor do que os seus primos babuínos. As capacidades cognitivas dos símios, de acordo com o estudo, podem melhorar no dia seguinte devido a esse sono mais longo e profundo.

Dormir com metade do cérebro

Os golfinhos conseguem ficar alerta com metade do cérebro, enquanto que a outra metade pode cair num sono profundo. Isto permite aos golfinhos dormir com um olho aberto, ficando alerta para os predadores.

“Os golfinhos estão basicamente alerta 24 horas por dia durante a vida inteira”, diz Jerome Siegel.

Este padrão de sono – que os golfinhos partilham com outros cetáceos, manatins, otariídeos e algumas aves – chama-se sono de ondas lentas uni-hemisférico, um estado profundo de sono no qual o movimento rápido dos olhos ou sono REM não acontece.

O sono REM é o estado de sono em que o cérebro está mais ativo, a respiração fica mais rápida e a maioria dos músculos fica temporariamente paralisada. A importância do sono REM tem sido objeto de debate científico sobre o papel que desempenha na memória e na aprendizagem. Os golfinhos são altamente inteligentes, mas possivelmente nunca irão experimentar o sono REM, diz David Raizen, neurologista da Universidade da Pensilvânia, porque se o fizessem, a mesma paralisia muscular que afeta os animais terrestres afundaria e afogaria os golfinhos no fundo do oceano.

Se os golfinhos dormem com apenas um lado do cérebro de cada vez, Jerome Siegel diz que isso levanta outra questão: “Será que isso significa que estão a dormir, ou que estão acordados? Não há aqui uma resposta simples.”

Filmagem de Grupo de Tubarões 'a Dormir'

Alguns pássaros também voam enquanto dormem com metade do cérebro.

As aves fragatas voam durante meses sobre o oceano e dormem regularmente enquanto usam metade do cérebro durante um voo planado. Estas aves só dormem quando estão em correntes de ar ascendentes que lhes permitem ganhar altitude e evitar que caiam na água durante os breves momentos de sono total – dormem 10 segundos enquanto voam. Em terra, conseguem dormir cerca de 12 horas por dia em períodos de um minuto.

As focas também dormem com um lado do cérebro enquanto nadam, mas em terra regressam ao sono bi-hemisférico – dormem com o cérebro inteiro, como os humanos.

Os animais precisam sequer de dormir?

O tempo de inatividade de um animal acontece de várias formas, mas a definição clássica de sono, de acordo com Jerome, “é um período de atividade e capacidade de resposta reduzidas, que é rapidamente reversível”, e que pode exigir um sono de recuperação.

“O sono de recuperação não se encaixa universalmente em todos os mamíferos”, diz Jerome. As focas dormem muito menos quando estão dentro de água, mas não mostram necessidade de um sono de recuperação quando regressam a terra.

As moscas-da-fruta, por exemplo, precisam de fechar os olhos, diz David Raizen. Estas moscas conseguem dormir 12 horas seguidas na escuridão total. Se forem privadas de sono, dormem mais no seu ciclo de sono seguinte e também ficam com uma capacidade de reprodução mais reduzida. Tanto as moscas como os mamíferos que não conseguem dormir bem têm problemas de aprendizagem, embora um estudo de 2019 tenha mostrado que a privação extrema de sono não altera a sua taxa de mortalidade.

A necessidade de um sono de recuperação, diz David, é um sinal de homeostase, um sistema que se mantém a si próprio em equilíbrio, algo que reforça a visão científica predominante de que o sono é algo necessário para os animais.

Mas nem todos concordam, diz David. Os morcegos Myotis lucifugus, por exemplo, dormem mais tempo do que qualquer outro animal, cerca de 20 horas de sono num ciclo de 24 horas. Mas não o fazem por necessidade.

“Estes morcegos comem mosquitos, e talvez os mosquitos só estejam ativos quatro horas por dia. No resto do tempo não há razões para os morcegos estarem acordados, e limitam-se a dormir para conservar energia.”

Sono, descanso e dormência

A resposta reduzida – como por exemplo naquele intervalo de tempo em que estamos a ignorar o despertador – é a diferença entre o sono e o que se chama descanso, quiescência ou apenas falta de movimento em alguns animais.

“Se estivermos a dormir e alguém sussurrar o nosso nome, não respondemos”, diz David, mas os animais que estão num estado de repouso respondem aos estímulos mais depressa.

Sabe-se que as medusas Cassiopea entram num estado de repouso à noite. Os seus sinos pulsam com uma frequência de um terço do que acontece durante o dia, e respondem menos a estímulos como comida e mostram uma diminuição de 17% na atividade quando são mantidas acordadas durante a noite.

A hibernação é um estado de inatividade e redução da taxa metabólica que os animais adotam para sobreviver aos meses frios de inverno. Ao contrário do que pensamos, tanto a hibernação como outros tipos de descanso de longo prazo não servem para dormir – estão relacionados com a temperatura ou alterações ambientais, como a escassez de comida.

Para conservar energia em condições extremas, alguns animais entram em torpor ou dormência, um estado de sono profundo com descidas na temperatura corporal e na taxa metabólica que dura menos de 24 horas. Durante este estado, a frequência cardíaca do colibri-de-garganta-azul pode descer dos mais de 1.200 batimentos por minuto para algo tão baixo quanto 50. Os colibris entram em torpor para sobreviver e conservar a sua energia durante os meses frios de inverno.

A estivação é um período de dormência ou torpor que acontece em resposta a um longo período quente ou seco. Os peixes pulmonados de África Ocidental segregam muco e formam um casulo em torno de si próprios antes de se enterrarem no solo para o período de estivação, construindo um habitat seguro para passar os períodos de calor e seca, quando as poças de água onde vivem secam.

Equilíbrio entre sono e vida

O sono pode não parecer a utilização mais segura ou eficaz do tempo para um animal – tempo que poderia ser gasto a comer ou a fugir de predadores. Mas, de acordo com Jerome, “no mundo natural, tudo que precisamos de fazer é transmitir os nossos genes”.

Os animais geralmente reproduzem-se em estações específicas do ano e não se iriam reproduzir mais se estivessem sempre acordados. A melhor forma de algumas espécies garantirem que os seus genes continuam é protegendo-se e permitindo a sobrevivência dos seus descendentes. Jerome explica que o sono ajuda os animais a fazerem exatamente isso.

“Certamente se nós, humanos, ficássemos acordados a noite inteira para protegermos os nossos recém-nascidos, eles estariam um pouco mais seguros. Mas precisaríamos de mais energia para abastecer os nossos cérebros e corações e, a longo prazo, isso afetaria negativamente a nossa sobrevivência e a sobrevivência dos nossos bebés. Acontece o mesmo com a maioria das espécies”, diz Jerome.

“Os animais também costumam ter locais seguros para dormir, mas os que não têm, como os grandes herbívoros, não dormem muito e certamente não dormem tão profundamente como os humanos.”

Os grandes herbívoros, como os elefantes e as girafas, também precisam de procurar tanto alimento que dormem apenas cerca de duas horas por noite.

“Se as girafas dormissem como nós, deitadas e inconscientes, já não havia girafas.”

As cigarras que emergem a cada 13 ou 17 anos são um bom exemplo de uma espécie bem-sucedida, diz Jerome. As cigarras passam a maior parte das suas vidas enterradas no subsolo e existem aos milhões.

“Tudo o que determina a nossa sobrevivência é a quantidade de descendentes que temos, descendentes capazes de ter os seus próprios descendentes, não quanto tempo passamos acordados. Existe uma quantidade de sono ideal para cada espécie, dependendo do nicho ecológico que essa espécie está a preencher.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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