Estes peixes primitivos de águas profundas podem viver até aos 100 anos, surpreendendo os cientistas

Os celacantos também podem ter uma gestação de cinco anos, de acordo com um estudo que levanta preocupações sobre o futuro desta espécie em perigo crítico de extinção.

Publicado 24/06/2021, 16:19 WEST
celacanto

Um celacanto na baía de Sodwana, na África do Sul. Durante muito tempo considerados extintos, estes animais foram redescobertos em 1938.

Fotografia de Laurent Ballesta, Nat Geo Image Collection

Os celacantos – peixes primitivos de águas profundas que antigamente se pensava terem morrido com os dinossauros – surpreenderam novamente os cientistas. Estes “fósseis vivos” de quase dois metros de comprimento podem viver até aos cem anos, cinco vezes mais do que se pensava, segundo um novo estudo.

Uma nova análise às escamas de celacantos africanos – uma das duas espécies conhecidas – revela que o seu tempo de vida foi erradamente estimado em apenas 20 anos.

Para além disso, as fêmeas provavelmente têm uma gravidez que se arrasta ao longo de cinco anos, três anos a mais do que se pensava – e só atingem a idade adulta aos 55 anos, diz o líder do estudo, Kelig Mahe, do IFREMER, o instituto francês de pesquisa oceânica.


A presumível esperança curta de vida do celacanto nunca igualou as suas baixas taxas de reprodução, metabolismo lento e baixa absorção de oxigénio – qualidades de animais marinhos de maturação lenta, como os tubarões de águas profundas.

“Tem sido sempre um enigma”, diz Selena Heppell, chefe do Departamento de Pescarias e Ciências de Conservação da Universidade Estadual do Oregon, que não esteve envolvida no estudo. “Portanto, [agora] faz muito mais sentido.”  

Ao mesmo tempo, os resultados, publicados na revista Current Biology, significam que estes peixes em perigo crítico de extinção são ainda mais vulneráveis a ameaças como a captura acidental ou a eventos climáticos extremos.

Crescimento proporcional

Em 1977, o primeiro estudo sobre a idade do celacanto focou-se em estruturas calcificadas chamadas “macro-circuli” nas escamas de 12 espécimes de museu do celacanto africano. Acredita-se que estas macro-circuli atuem um pouco como os anéis das árvores ou os núcleos de gelo, marcas que registam intervalos temporais.

Com base nos incrementos regulares de crescimento presentes nas estruturas macro-circuli das escamas, os cientistas concluíram naquela década que as macro-circuli provavelmente eram depositadas duas vezes por ano – resultado posteriormente revisto para uma vez por ano, equivalendo a uma vida útil de 20 anos.

Curioso para saber se havia algo mais nesta história, Kelig Mahe e a sua equipa examinaram recentemente 27 espécimes de celacanto africano, peixes que estavam armazenados no Museu Nacional de História Natural de Paris e que foram capturados entre 1954 e 1991, incluindo um peixe juvenil e dois embriões.

Quando a equipa examinou as macro-circuli com um microscópio de luz transmitida, tal como as equipas anteriores, encontraram o mesmo resultado que os cientistas da década de 1970.

Indícios escondidos

Mas quando a equipa examinou novamente as escamas de celacanto com microscopia de luz polarizada – uma técnica mais avançada que reduz o brilho e aumenta a nitidez das imagens – o paradigma alterou-se. A luz polarizada revelou a presença de numerosas micro-circuli mais pequenas entre as macro-circuli. A análise destas estruturas também revelou que eram depositadas anualmente.

A contagem destas micro-circuli enquanto depósitos anuais colocava a idade dos espécimes de museu entre os cinco e os 84 anos, muito mais em linha com a biologia conhecida do celacanto.

As análises posteriores com medições padronizadas para a idade dos espécimes confirmaram os resultados, o que significa que o celacanto tem um dos metabolismos mais lentos dos oceanos.

Para descobrir o período gestacional do celacanto, a equipa mediu as escamas dos espécimes embrionários usando os mesmos métodos usados nos peixes adultos, revelando que a gravidez do celacanto dura cinco anos.

Embora o celacanto indonésio, que também está em perigo crítico de extinção, não tenha sido estudado, os cientistas também querem aplicar a mesma técnica a essa espécie.

Resultados convincentes

Os resultados do estudo são convincentes, diz Brian Sidlauskas, ictiólogo da Universidade Estadual do Oregon que não participou no estudo.

O estudo tem uma abordagem estatística minuciosa, diz Brian, com os próprios “cientistas a questionarem os seus dados”.

Veja um peixe com ar fantasmagórico descoberto em águas profundas

Mark Terwilliger, especialista em crescimento de peixes do Departamento de Peixe e Vida Selvagem do Oregon, diz que, uma vez que as escamas dos peixes se podem soltar e ser novamente absorvidas pelo corpo à medida que um animal envelhece, não são uma estimativa confiável para a idade dos peixes de vida longa.

Para além disso, não ficou demonstrado que as micro-circuli nas escamas de outras espécies de peixes ósseos correspondam à idade do animal.

“Dito isto, os seus resultados são o que eu esperaria para um peixe de crescimento lento e de águas profundas”, disse Mark por email.

‘Particularmente sensível’

Os resultados traduzem-se em notícias preocupantes para este peixe raro, que normalmente vive a profundidades de 700 metros ao largo da costa leste de África.

Se um celacanto morrer antes de acasalar, esse animal não consegue contribuir para a população já em declínio da espécie, diz Kelig Mahe. Os celacantos africanos provavelmente produzem uma ninhada de três a 30 crias a cada cinco anos.

Isto significa que os celacantos africanos são “particularmente sensíveis a qualquer perturbação”, diz Kelig, que está interessado em estudar se o aquecimento dos oceanos devido às alterações climáticas pode impactar os celacantos.

Selena Heppell acrescenta que “o estudo lembra-nos que ainda há muito que não sabemos sobre as coisas estranhas do mar”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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