Estes ratos cegos conseguem ‘ver’ com as orelhas – algo inédito entre roedores

O arganaz-pigmeu é uma das poucas criaturas capazes de usar o som – na forma de sonar – para navegar pelo seu ambiente.

Publicado 25/06/2021, 14:26 WEST
arganaz-pigmeu chinês

Um arganaz-pigmeu chinês no Zoo de Moscovo. Estes animais conseguem efetivamente usar a ecolocalização, emitindo guinchos extremamente agudos e ouvindo os ecos, para ter uma noção do seu ambiente.

Fotografia de Joel Sartore, National Geographic Photo Ark

Debaixo do manto da escuridão, nas florestas montanhosas do Leste Asiático, o arganaz-pigmeu chinês emerge das árvores para percorrer os ramos e o solo da floresta, colhendo frutos, sementes e insetos. O mais notável é que estes animais são quase completamente cegos.

Assim sendo, como é que sabem por onde andam? Uma nova investigação, publicada na revista Science, mostra conclusivamente que estes ratos usam ecolocalização: têm uma noção do que os rodeia e navegam emitindo guinchos de alta frequência, ouvindo depois os ecos que ricocheteiam nos objetos.

As investigações feitas anteriormente sugeriam que outro parente do mesmo género, o arganaz-pigmeu vietnamita, podia usar ecolocalização. Mas este é o primeiro estudo a reunir várias linhas de evidência e a provar, sem margem para dúvidas, que esta capacidade está presente em todas as quatro espécies do género Typhlomys.

“É realmente surpreendente que todas as espécies deste género tenham ecolocalização”, diz Peng Shi, autora do estudo e investigadora do Instituto de Zoologia Kunming da Academia Chinesa de Ciências.

Até agora, só existem dois grupos bem estudados de mamíferos que usam ecolocalização: os morcegos e os cetáceos, que incluem baleias, golfinhos e botos. Existem algumas evidências de que os musaranhos e os tenrec – um grupo diversificado de pequenos mamíferos endémicos de Madagáscar – conseguem usar ecolocalização, embora seja quase certo que não o conseguem fazer de forma tão eficaz como os morcegos e os cetáceos. Peng Shi diz que esta capacidade provavelmente evoluiu de forma independente em cinco linhagens diferentes de mamíferos.

Vários tipos de aves, incluindo pássaros oleaginosos e andorinhões, usam uma forma mais rudimentar de ecolocalização.

Indícios anteriores de ecolocalização

Em 2016, Aleksandra Panyutina, bióloga do Instituto Severtsov de Ecologia e Evolução de Moscovo, mostrou evidências de que os arganazes vietnamitas conseguiam desviar-se de obstáculos dentro do laboratório na escuridão completa. Aleksandra gravou alguns dos sons emitidos pelos ratos, que eram semelhantes em frequência e cadência aos dos morcegos que usam ecolocalização: muito agudos e repetidos e, em alguns casos, dezenas de vezes por segundo.

Mas as gravações não foram fáceis de fazer. “Não tínhamos o equipamento necessário para registar os sinais de ecolocalização porque o meu detetor de morcegos era demasiado insensível a este roedor de sons ténues.”

Aleksandra colaborou com Ilya Volodin, biólogo da Universidade Lomonosov de Moscovo, e com outros colegas. Juntos, descobriram mais sobre as vocalizações dos arganazes e estudaram os seus olhos. “Para além de serem muito pequenos, também têm muito poucas células capazes de perceber luz”, diz Ilya.

Juntar as peças

Para o estudo atual, Peng Shi e os seus colegas recolheram quatro espécies de arganazes-pigmeus nas montanhas de toda a China; cada espécie tem apenas alguns centímetros de comprimento e um pelo suave castanho-acinzentado. Em laboratório, os investigadores realizaram uma variedade de experiências na escuridão total para testar as capacidades de ecolocalização dos animais.

Primeiro, os investigadores compararam o comportamento do arganaz-pigmeu num espaço desordenado com o de animais num espaço limpo. Os animais no primeiro ambiente, comparativamente aos do espaço limpo, aumentaram significativamente a frequência e o número de vocalizações ultrassónicas. Depois, a equipa demonstrou que os animais conseguem navegar através de pequenos orifícios, mas só depois de emitirem uma série de guinchos.

Os cientistas também colocaram os ratos numa plataforma elevada e deixaram-nos explorar. Por baixo dessa plataforma, colocaram uma rampa estreita que levava até uma recompensa alimentar. Todos os ratos aumentaram os seus chamamentos e conseguiram descer a rampa na escuridão completa. Os investigadores também colocaram tampões de ouvido nos ratos e deixaram-nos tentar novamente. Desta vez, os animais não conseguiram encontrar a rampa e fizeram menos vocalizações ultrassónicas.

A equipa também comparou a estrutura óssea dos ratos com a de morcegos que usam ecolocalização e encontraram semelhanças surpreendentes na estrutura da área faríngea, atrás da boca e da cavidade nasal, onde os chamamentos são produzidos. Da mesma forma, os investigadores também descobriram que o osso estilo-hióideo dos ratos estava fundido com o osso timpânico, perto das orelhas. Os únicos outros mamíferos que têm esta estrutura são os morcegos.

Estas semelhanças anatómicas sugerem homoplasia, um tipo de evolução convergente onde características semelhantes se desenvolvem em espécies distintas e não relacionadas, diz Rebecca Whiley, investigadora e estudante de mestrado no Laboratório de Biofísica Sensorial da Universidade de York, que não participou neste trabalho. Os autores do estudo sugerem que esta anatomia permite aos animais “uma representação neuronal mais eficaz dos sinais de saída em comparação com os ecos de retorno” – por outras palavras, uma forma de mapear melhor o ambiente circundante.

De seguida, os investigadores sequenciaram o genoma do arganaz-pigmeu chinês e compararam-no com o de golfinhos e dois tipos de morcegos. A equipa descobriu um número maior de semelhanças nos genes relacionados com a audição, mais semelhanças do que as que poderiam ser explicadas por um acaso. E também descobriram que o único gene importante relacionado com a visão, que ajuda as células da retina a funcionar, não funcionava nas quatro espécies de ratos – mais uma evidência de que os animais mal conseguem ver.

Peng Shi e os seus colegas querem continuar a estudar estes animais e talvez até os seus parentes. Estes ratos têm sido pouco estudados e provavelmente há mais do que quatro espécies neste género. Peng Shi também suspeita que existam outros animais para além deste género que têm a capacidade de navegar no escuro.

“O nosso estudo sugere a existência de uma maior biodiversidade de características adaptativas do que alguma vez tínhamos pensado. Estamos quase certos de que existem mais animais com ecolocalização à espera de serem descobertos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados