Muitos mamíferos bocejam de forma contagiosa – descubra porquê

Um novo estudo com leões selvagens sugere que a influência dos bocejos é benéfica para os animais que vivem em sociedades cooperativas.

Publicado 9/06/2021, 12:01
cadela a bocejar

Uma cadela chamada Shakeera relaxa em Viena, Áustria. Alguns caninos imitam os bocejos dos seus donos.

Fotografia de REGINA ANZENBERGER, BLANCHE DE BEAUPOINT, REDUX

Aviso: Este artigo pode fazê-lo bocejar.

Embora bocejar seja um comportamento automaticamente reconhecível e partilhado entre a maioria dos animais vertebrados, os cientistas ainda não sabem o suficiente sobre este fenómeno aparentemente simples.

Bocejar pode acontecer espontaneamente ou quando vemos ou ouvimos um bocejo, o chamado bocejo contagioso. A maior parte das investigações sobre o bocejo espontâneo aponta para uma função fisiológica: aumenta o fluxo sanguíneo para a cabeça, oxigena e arrefece o cérebro. Isto, por sua vez, deixa um animal mais alerta, sobretudo quando está com sono.

Mas saber porque é que os mamíferos são influenciados pelos bocejos uns dos outros permanece um mistério.


Nos humanos, as investigações revelam que o bocejo contagioso pode ser uma forma de empatia com pessoas que estão a passar por um determinado sentimento, o que – no caso do bocejo – geralmente significa stress, ansiedade, tédio ou fadiga. Os cientistas já tinham estudado o bocejo contagioso em chimpanzés, lobos, cães domésticos, ovelhas e elefantes – mas nunca em leões, até agora.

Num novo estudo, investigadores examinaram o chamado bocejo contagioso em leões selvagens na África do Sul. Depois de “infetados” pelos bocejos de outros, estes leões têm tendência para coordenar os seus movimentos.

“Os dados revelam uma imagem clara: depois de bocejarem juntos, dois leões envolviam-se num comportamento altamente sincronizado”, diz Elisabetta Palagi, autora do estudo e etologista da Universidade de Pisa, em Itália.

Isto significa que o bocejo contagioso pode ser particularmente importante em espécies sociais como os leões, que têm de cooperar para caçar, cuidar das crias e defender-se contra intrusos, diz Elisabetta, cujo estudo foi publicado em abril na revista Animal Behavior.

Comportamento cativante

Durante cinco meses, Elisabetta e os seus colegas filmaram 19 leões de dois grupos que vivem na Reserva de Caça de Makalali.

Os resultados mostram que as probabilidades de bocejar eram cerca de 139 vezes superiores se um leão tivesse acabado de ver um membro do seu grupo a bocejar, em comparação com não ver a ação.

Os investigadores observaram que o bocejo espontâneo era particularmente frequente quando os leões estavam relaxados e na transição entre dormir e acordar, ou vice-versa. Isto suporta a teoria de que nos leões, tal como nos humanos, o bocejo aumenta o fluxo sanguíneo e o arrefecimento do cérebro – e provavelmente estimula o estado de alerta.

Numa das descobertas mais interessantes, um leão tinha o mesmo comportamento depois de imitar o bocejo de outro leão nas proximidades, diz Elisabetta. Por exemplo, se dois leões estivessem deitados e um bocejava, o outro também bocejava. Depois, o primeiro leão levantava-se, e o outro animal também.

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Esta investigação sustenta a ideia de que o bocejo contagioso pode ter evoluído para aumentar a vigilância de grupo entre animais que vivem cooperativamente, como os lobos e chimpanzés, diz Andrew Gallup, diretor do Laboratório de Comportamento Adaptativo e Cognição do Instituto Politécnico SUNY em Utica, Nova Iorque.

O bocejo contagioso pode, portanto, “ter vantagens para a consciencialização coletiva e deteção de ameaças”, diz Andrew, que não participou no estudo.

Andrew também concorda que os leões provavelmente têm os mesmos benefícios e impactos fisiológicos no cérebro que os humanos.

Bocejo empático

Apesar das novas descobertas, Elisabetta é a primeira a admitir que ainda há muito para descobrir sobre as razões pelas quais os animais bocejam. Por exemplo, Elisabetta não observou se estes incidentes de bocejos contagiosos levaram a um maior sucesso na caça ou a outros resultados favoráveis.

“O bocejo contagioso pode servir diversas funções que possivelmente ainda são desconhecidas num grupo cooperativo de animais; por exemplo, os babuínos-gelada têm três tipos distintos de bocejos que transmitem mensagens diferentes, como amizade ou agressão”, diz Elisabetta.

“O papel do bocejo contagioso na empatia é provavelmente a área mais debatida neste tipo de investigação.” Muitos investigadores teorizam que o bocejo contagioso liga emocionalmente os animais uns aos outros, mas não há evidências suficientes para demonstrar esta ligação direta.

Os cientistas investigaram a empatia e o bocejo em apenas meia-dúzia de espécies, incluindo humanos, cães domésticos, lobos e alguns primatas. Num estudo publicado em 2013, cães de estimação bocejavam mais em resposta aos bocejos dos seus donos do que aos bocejos de estranhos.

Os resultados desse estudo – o primeiro a mostrar bocejos contagiosos entre espécies – podem indicar que os cães estão emocionalmente sintonizados com os seus humanos, de acordo com os autores.

Embora o estudo de Elisabetta com leões não tenha examinado diretamente se, ou como é que, o bocejo contagioso está relacionado com a empatia, a etologista diz que preenche uma lacuna importante nas investigações que ligam a familiaridade à propensão para bocejar.

“Se alguém bocejar e eu responder a esse bocejo, e se imediatamente depois nos envolvermos no mesmo comportamento, isso pode melhorar a nossa capacidade de interpretarmos o comportamento um do outro”, diz Elisabetta.

“Nesse sentido, o bocejo contagioso pode ser importante para o desenvolvimento de formas superiores de sociabilidade.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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