Uma baleia-cinzenta atravessou metade do planeta, estabelecendo um novo recorde

Uma baleia macho de 12 metros viajou desde o Pacífico Norte até à Namíbia, marcando o primeiro avistamento desta espécie no hemisfério sul.

Por Heather Richardson
Publicado 11/06/2021, 10:39
baleia-cinzenta

Uma baleia-cinzenta nada na região de Prince William Sound, no Alasca. Esta espécie encontra-se normalmente no Pacífico, embora existam registos de avistamentos recentes no Atlântico.

Fotografia de Nature Picture Library, Alamy

Uma baleia-cinzenta nadou a maior distância alguma vez registada para um vertebrado marinho – quase 27.000 quilómetros.

O cetáceo macho, avistado ao largo da Namíbia em 2013, é a primeira baleia-cinzenta de que há registo no hemisfério sul.

Porém, de acordo com um estudo publicado na revista Biology Letters, foram necessários vários anos de investigação genética para confirmar se a baleia era realmente originária do Pacífico Norte.

Existem duas populações conhecidas de baleias-cinzentas: as baleias-cinzentas orientais, cujos números são estáveis, com cerca de 20.500 indivíduos, e as baleias-cinzentas ocidentais, que estão em perigo de extinção, com cerca de 200 indivíduos restantes na natureza principalmente devido às décadas de caça comercial à baleia. As baleias-cinzentas orientais migram dos mares em torno do Alasca e da Rússia para zonas de reprodução na Baja Califórnia. Sabe-se pouco sobre as zonas de reprodução das baleias-cinzentas ocidentais, mas já foram registadas a alimentarem-se na região leste da Rússia.

Quando o coautor do estudo, Simon Elwen, zoólogo da Universidade de Stellenbosch, na África do Sul, ouviu falar pela primeira vez sobre o avistamento de 2013, ficou um pouco reticente. “Era como se alguém dissesse que tinha visto um urso-polar em Paris – tecnicamente, o urso podia chegar lá, mas não parecia uma coisa realista.”

No entanto, as fotografias confirmaram que se tratava de facto de uma baleia-cinzenta com cerca de 12 metros de comprimento. O animal ficou em Walvis Bay durante dois meses, possivelmente porque estava desnutrido, permitindo a Simon Elwen e Tess Gridley, também zoóloga da Universidade de Stellenbosch, recolher amostras de ADN pouco invasivas.

O feito incrível desta baleia-cinzenta – que supera a detentora do recorde anterior, uma tartaruga-de-couro que atravessou 20.500 quilómetros no Pacífico – também deixou os cientistas com algumas interrogações: por que razão iria uma baleia-cinzenta para tão longe de casa?

Os autores especulam que o declínio acentuado do gelo marinho no Ártico, devido às alterações climáticas, pode estar a permitir que as baleias-cinzentas explorem – ou se percam – novos habitats, embora não existam dados suficientes para confirmar esta teoria.

Para uma baleia que normalmente faz migrações de cerca de 8.000 quilómetros, “é muito desgastante viajar [para] tão longe”, diz Rus Hoelzel, coautor do estudo e biólogo evolucionário da Universidade de Durham, no Reino Unido, e Explorador da National Geographic. “Isto faz com que nos questionemos sobre as razões pelas quais fariam isto, e em que circunstâncias? Portanto, é cientificamente interessante.”

Analisar os genes

Para esta investigação, Tess Gridley e Simon Elwen trabalharam com Rus Hoelzel e Fatih Sarigol, biólogo evolucionário da Universidade de Durham, para comparar os genomas da baleia com outros genomas de baleias-cinzentas armazenados no Centro Nacional de Informações de Biotecnologia dos EUA, um repositório digital com genomas de mais de mil organismos.

Os investigadores queriam descartar a possibilidade de a baleia ter vindo de uma população desconhecida do Atlântico; há evidências fósseis de baleias-cinzentas no Atlântico, e nos últimos anos foram avistadas duas baleias-cinzentas no Atlântico Norte e no Mediterrâneo.

“Existem espécies de cetáceos sobre as quais sabemos muito pouco porque são muito difíceis de encontrar”, diz Rus Hoelzel. “Mas no caso das baleias-cinzentas, elas tendem a ser costeiras e são razoavelmente reconhecíveis, pelo que a ideia de que existe uma população oculta no Atlântico não é muito provável.”

Vídeo aéreo incrível: jovem baleia-cinzenta nada com banhistas

Contudo, os resultados confirmaram que os genes da baleia namibiana correspondiam aos das baleias-cinzentas do Pacífico Norte armazenados no banco de dados de biotecnologia. Surpreendentemente, dizem os investigadores, a maior correspondência foi com a da população ocidental que está em perigo de extinção.

Uma baleia rebelde?

A equipa também analisou as possíveis rotas que o mamífero marinho pode ter seguido, considerando mais viável que o animal contornasse o Canadá através da Passagem Noroeste. Outras opções – como circum-navegar a América do Sul ou atravessar o Oceano Índico – eram menos prováveis, em parte devido à falta de avistamentos registados e também porque as baleias-cinzentas tendem a alimentar-se em águas rasas, tornando as viagens longas em oceano aberto mais difíceis.

Contudo, Sue Moore, cientista de investigação que se está a especializar em mamíferos marinhos do Pacífico na Universidade de Washington, em Seattle, acredita que a travessia do Oceano Índico é a mais provável, pois é a rota mais curta e menos complicada.

“Dito isto... esta baleia provavelmente estava perdida”, acrescenta Sue, que não participou no estudo, sugerindo que esta não era uma migração com um destino claro em mente.

“Mas isto dá-nos algo muito interessante para refletir sobre a resiliência desta espécie”, acrescenta Sue.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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