Vários tubarões de alto-mar avistados ao largo dos Açores

Através de uma expedição da OceanX, alguns cientistas estão a ter uma visão sem precedentes sobre a vida dos misteriosos tubarões-albafar, predadores de topo que podem atingir os seis metros de comprimento.

Publicado 15/06/2021, 12:56 WEST
mergulho de pesquisa de tubarões-albafar

Um submersível de investigação científica emerge à superfície após um mergulho de pesquisa de tubarões-albafar no dia 6 de junho de 2021.

Fotografia de Mario Tadinac

OCEANO ATLÂNTICO NORTE – Um tornado de carapaus prateados e peixe-pau laranja gira em torno de um submersível no fundo do mar, a 235 metros de profundidade, ao largo do arquipélago dos Açores.

No interior do submersível, os cientistas marinhos Jorge Fontes e Melissa Cristina Márquez, assim como o piloto do aparelho, Lee Frey, esperam pacientemente enquanto comem chocolate e conversam. Através desta torrente de peixe, os investigadores esperam ter um vislumbre do maior predador de alto-mar – o tubarão-albafar.

É neste momento que, para deleite dos cientistas, uma figura enorme emerge da escuridão e se aproxima do submersível: uma fêmea com 5,5 metros, o primeiro avistamento da expedição.

Estes tubarões, dos quais três espécies vivem pelo mundo inteiro, são diferentes de quaisquer outros. Os tubarões-albafar têm seis guelras em vez das cinco habituais. Estas criaturas antigas – que exibem um tom de pele castanho-azeitona, barbatanas dorsais minúsculas e olhos esmeralda assustadores – também não mudaram muito desde que partilharam o planeta com o T-rex e outros dinossauros.


Por muito intrigantes que sejam, os cientistas ainda sabem pouco sobre estes predadores de alto-mar. A União Internacional para a Conservação da Natureza lista o tubarão-albafar como quase ameaçado de extinção, embora os dados sejam extremamente escassos. Isto acontece porque o estudo destes tubarões não é fácil: os cientistas podem apanhá-los com redes e ganchos e puxá-los para a superfície, mas a experiência pode ser traumática para os animais.

Porém, em 2019, cientistas da Universidade Estadual da Flórida, do Museu de História Natural da Flórida, do Instituto Cape Eleuthera e da OceanX – uma iniciativa de exploração do oceano estabelecida por Ray Dalio e o seu filho Mark Dalio – encontraram uma forma menos invasiva de estudar os tubarões-albafar: etiquetar os animais onde vivem, a centenas de metros de profundidade. A OceanX forneceu um submersível equipado com arpões modificados que injetam uma etiqueta de satélite na pele grossa dos tubarões. Depois de muita tentativa e erro, esta equipa conseguiu fixar uma etiqueta num tubarão-albafar ao largo das Bahamas.

O sucesso da expedição nas Bahamas dinamizou as investigações sobre tubarões-albafar. No dia 3 de junho, uma equipa da OceanX a bordo do seu navio de investigação, o OceanXplorer, zarpou para uma expedição ao largo dos Açores, no Oceano Atlântico Norte, trabalhando com cientistas locais para colocar etiquetas de satélite e câmaras na grande população de tubarões-albafar que vive entre os desfiladeiros e montes subaquáticos que rodeiam as ilhas do arquipélago. (Descubra seis tubarões fascinantes dos quais provavelmente nunca ouviu falar.)

“Na verdade, ainda sabemos muito pouco sobre os tubarões-albafar”, diz Melissa Márquez, bióloga marinha da Universidade Curtin, na Austrália Ocidental. “Portanto, colocar [mais etiquetas nos Açores] vai lançar alguma luz sobre estes animais que realmente dominam esta parte dos nossos oceanos.”

A investigação sobre os tubarões-albafar será apresentada na série OceanXplorers da National Geographic, com produção executiva de James Cameron, da Unidade de História Natural dos Estúdios da BBC e da OceanX.

Até agora, a expedição já avistou muitos mais tubarões-albafar do que se esperava, afirma Jorge Fontes, da Universidade dos Açores.

“Antigamente, quando pescávamos estes animais para colocar etiquetas, apanhávamos basicamente um ou dois animais por noite, mas aqui estamos a ter 10, 11 encontros por noite”, diz Jorge. “Isto sugere que este ecossistema específico é saudável.”

Ferramentas corretas para o trabalho

Para rastrear tubarões-albafar, os cientistas a bordo do OceanXplorer – um antigo navio de suporte de perfuração de petróleo com 86 metros de comprimento – têm à sua disposição dois submersíveis, um veículo operado remotamente e um navio de pesquisa equipado com dispositivos que conseguem examinar a coluna de água e mapear o fundo do mar.

O seu objetivo durante a expedição de uma semana é equipar o maior número possível de tubarões-albafar com dois tipos de etiquetas. Uma das etiquetas é de satélite e tem uma vida útil de nove meses, e vai documentar os movimentos verticais do tubarão, e a outra é uma etiqueta com câmara que consegue não só filmar um tubarão durante um período de 8 a 12 horas, mas também rastrear a sua localização, velocidade, profundidade e temperatura ambiente.

FOTOGRAFIAS DESLUMBRANTES DE TUBARÕES

Ambas as etiquetas estão fixas nas pontas de arpões montados na frente do submersível de investigação. Como os tubarões-albafar têm uma pele muito grossa, etiquetar os animas desta forma é minimamente invasivo.

Talvez um dos comportamentos mais misteriosos dos tubarões-albafar sejam as suas visitas a águas rasas, apesar de passarem a maior parte do tempo em profundidades de até 1.370 metros.

Os tubarões-albafar provavelmente visitam as águas rasas ao largo dos Açores, a pouco mais de 1.290 quilómetros de Portugal, para se alimentarem, mas preferem passar o tempo em águas profundas, onde as temperaturas são mais frescas, afirma Jorge.

Com as estimativas a apontarem para um aquecimento do Oceano Atlântico de pelo menos 1.5 graus Celsius até 2050, é possível que os tubarões-albafar não consigam tolerar as temperaturas da água em águas rasas, afetando a sua capacidade de alimentação, acrescenta Jorge, que estuda tubarões há mais de 15 anos.

“Vai ser muito interessante analisar os dados que obtivermos destas etiquetas, porque vamos poder compará-los com os dados de colegas de outras partes do mundo com quem estamos a colaborar”, diz Jorge.

“É algo que nos poderá ajudar a compreender os impactos que as alterações climáticas e o aquecimento dos oceanos podem ter sobre a distribuição destes animais e, eventualmente, das suas presas.”

Um mar repleto de tubarões

Até agora, a equipa da OceanX Açores está entusiasmada com a quantidade de tubarões que encontrou. Não é por acaso que os tubarões-albafar prosperam nos Açores, diz Pedro Afonso, que também estuda tubarões na Universidade dos Açores.

“A pesca na região foi sempre em pequena escala, e a União Europeia proibiu a pesca de tubarões em alto-mar em 2012”, diz Pedro. “É por isso que podemos colocar um submarino aqui e ver uma dúzia de tubarões.”

David Ebert, diretor do Centro de Investigação de Tubarões do Pacífico dos Laboratórios Marinhos de Moss Landing, na Califórnia, diz que está ansioso para ver como é que os padrões de movimento dos tubarões-albafar dos Açores se comparam com os dos tubarões-albafar de outras partes do mundo.

Nos últimos anos, os cientistas recolheram dados sobre tubarões-albafar no Havai, nas Bahamas e no Golfo do México, permitindo comparar as distribuições verticais destes tubarões em diferentes latitudes.

“Etiquetar um só tubarão não vai realmente dizer muito, exceto o que esse tubarão em específico faz ao longo de um determinado período de tempo”, diz David, que não está envolvido nos esforços da OceanX.

“Contudo, se tivermos vários tubarões etiquetados, isso pode dizer-nos muito sobre os seus movimentos e comportamento.”

De regresso ao submersível, Jorge Fontes e Melissa Márquez preparam-se para voltar à superfície.

Ao longo de seis horas, os investigadores viram sete tubarões-albafar, dois tubarões Dalatias licha e dois tubarões Galeorhinus galeus – um feito impressionante, mesmo para cientistas num submarino. Os investigadores não conseguiram etiquetar qualquer tubarão neste mergulho, mas ainda tinham muitas noites pela frente para tentar novamente.

“Foi um pouco surreal”, diz Melissa, “ter a oportunidade de nos sentarmos e ver a vida lá em baixo a comportar-se naturalmente. Foi um enorme privilégio.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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