A inédita nidificação de flamingos em Portugal

Uma recente história de sucesso no sul de Portugal.

Publicado 21/07/2021, 08:55 WEST
Flamingos nas salinas de Castro Marim.

Flamingos nas salinas de Castro Marim.

Fotografia de João Nunes da Silva

A luz dourada do meio da tarde ilumina o branco cristalino das salinas tradicionais à entrada da vila raiana de Castro Marim no Algarve. Estas salinas são uma das imagens da zona, que num processo paciente e artesanal produzem uma das melhores "flor de sal" de Portugal. Cheguei mais cedo que o combinado, para poder desfrutar desta paisagem, e ao mesmo tempo que percorro as salinas vou registando algumas imagens.

O lugar de encontro com os técnicos da Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António é perto daqui. São eles que me vão buscar e conduzir ao local que nas últimas semanas esteve envolto em sigilo e vigilância apertada. O caso não é para menos, pois trata-se da primeira vez que ocorre com sucesso a nidificação de flamingos-comuns (Phoenicopterus roseus) numa salina em Portugal. Rosa Madeira, técnica desta reserva descreve “que já houve aqui algumas tentativas de nidificação pois foram encontrados ovos soltos, assim como na Lagoa dos Salgados, outro dos casos que nós conhecemos”. Acrescenta ainda que “este ano tivemos aqui dois locais onde os flamingos começaram por nidificar, mas apenas em Castro Marim se obteve sucesso”.

Jovens flamingos aglomerados na Reserva Natural do Sapal.

Fotografia de João Nunes da Silva

De modo a garantir o sucesso desta nidificação, foi assegurada uma estreita colaboração entre o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) e a empresa proprietária das salinas. Com acesso limitado à área, fizeram-se todos os esforços para evitar a perturbação do local de nidificação, que envolveu inclusive o desvio da rota dos meios aéreos de combate aos incêndios sobre a área da colónia de flamingos. E assim, após uma nidificação de cerca de 800 indivíduos, nascem 550 flamingos, sendo que este número será posteriormente recontado com maior precisão pelos técnicos do ICNF, quando estes jovens flamingos forem maiores. É notório o grande entusiasmo dos técnicos da reserva de Castro Marim, que se empenharam durante anos para que isto pudesse um dia acontecer.

Vista aérea da área das salinas na reserva de Castro Marim, onde os flamingos nidificaram.

Fotografia de João Nunes da Silva

Os flamingos na reserva de Castro Marim

Paulo Monteiro, vigilante da natureza na reserva de Castro Marim e com grande conhecimento da zona, afirma que “normalmente fazemos as contagens mensais, com o número de flamingos aqui a variar entre os 2000 a 2500, mas este ano tivemos esta particularidade, com a colónia que estava a nidificar, e chegamos aos 3000”. Devido às condições que estas salinas oferecem e ao aumento gradual de flamingos em Castro Marim, algum do pessoal da reserva já tinha tentado promover a sua nidificação. Para tal, recorreram a uns ninhos artificiais feitos com baldes, com o intuito de simular a elevação característica dos seus ninhos. Habitualmente construídos em solo lamacento, estes ninhos assemelham-se a montes de lama e apresentam um buraco no meio, onde a fêmea deposita um ovo.

Flamingos adultos com algumas crias.

Fotografia de João Nunes da Silva

Para além desta nidificação com sucesso na reserva natural em Castro Marim, houve igualmente a tentativa de nidificação com a construção de cerca de 50 ninhos nas principais áreas protegidas em zonas húmidas, nomeadamente na Reserva Natural do Estuário do Tejo e Reserva Natural do Estuário do Sado, embora sem sucesso. Não deixa de ser interessante verificar que no passado, já existiam alguns indícios de uma possível nidificação de flamingos em Portugal, precisamente em Castro Marim, e também em Pancas, no estuário do Tejo. Alguns desses registos foram anotados pelo rei D. Carlos I, naturalista com uma paixão pelas aves (também as ilustrava), nos finais do século XIX e princípios do século XX. Já mais recentemente, em finais do século XX, foram observadas aves bastante jovens em Castro Marim. No entanto, estas observações ocasionais não podem confirmar só por si a nidificação dos flamingos.

Salinas: o local ideal para a nidificação dos flamingos

O percurso para onde nos dirigimos não demora muito tempo, mas leva-nos a percorrer na viatura do ICNF, o estradão que contorna as salinas industriais. Antes, um portão com cadeado foi aberto pelo vigilante Paulo Monteiro, de modo a podermos entrar nesta área privada. À medida que avançamos, centenas de aves aquáticas, com destaque para os flamingos, cruzam os tanques das salinas - Alfaiates (Recurvirostra avosetta) pernilongos (Himantopus himantopus), alguns patos, como o pato-branco (Tadorna tadorna) e colhereiros, que nidificaram também pela primeira vez este ano nesta reserva. A paisagem assemelha-se à das salinas da Camargue, um santuário de nidificação de flamingos no sul de França, com extensos tanques e grandes pirâmides brancas de sal. Mas, ao contrário das salinas tradicionais à entrada da vila de Castro Marim, o sal nestas salinas industriais é retirado de forma mecanizada.

Esquerda: Superior:

Placa informativa na Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António.

Direita: Fundo:

Num dos muros da salina de Castro Marim é possível observar pegadas de jovens flamingos.

Fotografia de João Nunes da Silva

Ao chegarmos perto do local de nidificação, avistamos uma aglomeração de cor escura que vai deslizando harmoniosamente ao longo do muro da salina, produzindo uma nuvem de pó castanha. Trata-se dos recém-nascidos flamingos que, num instinto de sobrevivência, se vão deslocando agrupados em direcção à água azul do tanque da salina. Sabem que desta desta forma, se encontram menos vulneráveis aos diferentes perigos que possam surgir, como algumas gaivotas que tentam afogar uma ou outra cria, para depois dela se alimentar. À medida que o enorme grupo de jovens flamingos se vai deslocando já na salina, vários adultos vão rodeando a creche, de forma a estarem menos expostos e mais protegidos.

Jovens flamingos aglomerados nas salinas da Reserva Natural do Sapal.

Fotografia de João Nunes da Silva

Os flamingos na Europa

A área de nidificação dos flamingos encontra-se junto à faixa costeira ou perto desta, maioritariamente em países da bacia do Mediterrâneo como Espanha, França, Itália e Turquia, entre outros. Durante os meses mais frios, um largo número de flamingos migra não só à procura de alimento, como por vezes, também para a dispersão de colónias que aumentaram e necessitam de novos locais. A escassez de água em alguns dos locais frequentados por flamingos, como tem acontecido na vizinha Espanha, também tem influência. Essa poderá também ser uma das razões porque em Portugal se tem observado cada vez mais flamingos, de uma forma permanente, em locais onde tal não acontecia anteriormente.

A maioria dos flamingos que se observam na Reserva Natural de Castro Marim e Vila Real de Santo António é sobretudo proveniente de Espanha, da zona de Doñana ou Laguna de Fuente de Piedra (onde existe a maior colónia da Península Ibérica) e de França, da zona da Camargue. Muito esporadicamente, também de Itália. Paulo Monteiro afirma que este ano fez algumas leituras de anilhas, mas que ainda irá obter os resultados, a fim de saber a sua origem. A observação dos dados que constam nas anilhas dos flamingos é efectuada com o recurso a binóculos ou telescópios. Esses dados são depois comunicados a nível nacional para o CEMPA – Centro de Estudos de Migrações e Proteção de Aves, que faz parte do ICNF. É o CEMPA que canaliza posteriormente a informação das anilhas para a EURING, entidade esta que centraliza toda a informação da anilhagem de aves a nível europeu. É desta forma que posteriormente se obtém a informação da origem das aves e se estuda a sua migração.

Caso o sucesso desta nidificação se repita, é provável que no futuro os flamingos nascidos em Portugal também sejam anilhados. Mas para já, isso não está previsto este ano, uma vez que não se pretende introduzir a mínima perturbação na colónia de flamingos. Algumas das razões que mais podem contribuir para o insucesso da nidificação prendem-se com os factores físicos e ambientais do local, uma vez que é necessário uma altura de água constante na área de nidificação, alimentação disponível e a inexistência de qualquer tipo de perturbação de predadores ou humana.

O ano de 2021 foi, sem dúvida, um ano promissor para a espécie flamingo-comum (Phoenicopterus roseus) em Portugal. Aguardemos pelos próximos anos para termos notícias vindouras sobre esta espécie emblemática que, cada vez mais, cruza os nossos céus.

 

João Nunes da Silva é jornalista e fotógrafo de natureza, contribuidor frequente de várias revistas nacionais e internacionais, e autor de quatro livros sobre natureza portuguesa.

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