A truta pode ficar ‘viciada’ em metanfetaminas – e os efeitos podem ser assustadores.

As drogas ilegais podem estar a impactar de forma pouco conhecida – e desastrosa – a vida selvagem de água doce, de acordo com novas experiências laboratoriais.

Publicado 12/07/2021, 11:05
truta em cativeiro

Uma truta em cativeiro a nadar numa reserva na Lombardia, em Itália.

Fotografia de Franco Banfi / NPL / Minden Pictures

Os vestígios de metanfetaminas e de outras drogas ilegais que entram nos cursos de água podem provocar dependência nos peixes, de acordo com um novo estudo.

As experiências feitas recentemente em laboratório revelam que a truta, um peixe comum nos rios da Europa de Leste, quando é exposta a metanfetaminas em concentrações como as observadas na foz das estações de tratamento de águas residuais, mostra sinais de dependência – fica menos ativa, por exemplo – e de abstinência. Na natureza, os peixes viciados em metanfetaminas podem ter dificuldades de reprodução e em encontrar comida.

“Fiquei surpreendido com o facto dos consumidores de metanfetaminas poderem, sem saber, provocar dependência nos peixes que vivem nos ecossistemas que nos rodeiam”, diz por email Pavel Horký, ecologista comportamental da Universidade Checa de Ciências da Vida, em Praga.

O vício em metanfetaminas, um estimulante sintético, é considerado muito relevante nas ameaças de saúde global, diz Pavel, em parte porque pode levar a alterações de humor, paranoia, aumento da frequência cardíaca e pressão arterial e, em alguns casos, pode provocar a morte. Durante a pandemia e em anos anteriores, as taxas de consumo de metanfetaminas dispararam nos EUA e na Europa: entre 2011 e 2018, as mortes por overdose de metanfetaminas nos EUA aumentaram entre todos os grupos raciais e étnicos, de acordo com um estudo de janeiro de 2021.

Quando o corpo de uma pessoa metaboliza a droga, esta é expelida nas fezes e na urina. As estações de tratamento de águas residuais removem muitos – mas não todos – contaminantes da água antes de esta ser novamente libertada nos cursos de água, que são afetados por poluição de todos os tipos.

Os novos resultados baseiam-se em evidências crescentes de que muitos dos compostos de fabrico humano encontrados nas águas residuais – desde cocaína e heroína a antidepressivos e pílulas contracetivas – estão a afetar os ecossistemas, sobretudo os peixes, diz Pavel, cujo estudo foi publicado na Journal of Experimental Biology. Por exemplo, a truta é uma espécie de presa vital para muitos predadores, ou seja, as alterações no seu comportamento ou população podem reverberar por toda a cadeia alimentar.

Efeito de transbordo na truta

Para fazer a investigação, Pavel Horký e os seus colegas dosearam 60 trutas criadas em cativeiro com água misturada com metanfetaminas durante dois meses, enquanto mantinham outro grupo de controlo, com outras 60 trutas, num tanque sem drogas. Para simular as condições da natureza, os investigadores garantiram que os níveis de metanfetaminas (um micrograma por litro) correspondiam aos níveis de metanfetaminas documentados por outros investigadores a jusante das estações de tratamento de águas residuais na República Checa e na Eslováquia.

Nos dias que se seguiram à libertação das trutas do tanque de metanfetaminas, os peixes moveram-se menos, algo que a equipa interpretou como stress devido à abstinência da droga. As análises aos tecidos cerebrais mostraram que os peixes que se moviam menos tinham mais metanfetaminas nos seus cérebros.

Os investigadores também deram às trutas de ambos os grupos a possibilidade de escolha entre dois fluxos de água: um com metanfetaminas e outro sem. As trutas expostas a metanfetaminas preferiram nadar nas águas contaminadas, sobretudo nos quatro dias seguintes à abstinência de drogas. Com o tempo, a preferência das trutas expostas a metanfetaminas alterou para igualar a dos peixes do grupo de controlo – um sinal claro de abstinência do vício, diz Pavel.

Disrupção nos ecossistemas de água doce

O estudo mostra que as águas residuais são uma rota pouco valorizada pela qual as drogas podem afetar a vida selvagem, diz Emma Rosi, ecologista de ecossistemas do Instituto Cary de Estudos de Ecossistemas da Universidade da Geórgia, que não participou na investigação.

“A forma como [os animais] aquáticos respondem a um antidepressivo vai ser diferente da dos humanos, mas isto não significa que não vão responder”, diz Emma.

Noutro estudo, os cientistas descobriram que a cocaína nos rios europeus pode interferir na reprodução de enguias que estão em perigo crítico de extinção. Em Ontário, peixes macho da espécie Pimephales promelas expostos a estrogénio sintético de pílulas contracetivas não desenvolveram testículos e começaram a produzir ovos. Outros estudos encontraram peixes efeminados e rãs anormalmente hermafroditas devido aos elevados resíduos químicos presentes nas águas residuais.

Os animais selvagens dependentes de drogas podem optar por passar mais tempo perto de canos de escoamento ou esgotos – “algo que perturba toda a ecologia do sistema”, diz Matthew Parker, neurocientista comportamental da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido. Por exemplo, os peixes que estão sempre em movimento ajudam a distribuir nutrientes por todo o ambiente, quer seja através dos seus próprios resíduos como pelas atividades de procura de alimento, portanto, quando permanecem num só lugar, o sistema perde o equilíbrio.

Truta selvagem ainda por estudar

Como os estudos foram realizados em laboratório – uma etapa imprescindível para compreender os potenciais efeitos de determinado químico sob condições controladas, ainda não se sabe como é isto pode alterar o comportamento dos peixes nos riachos do mundo real, salienta Emma. As águas residuais têm uma enorme variedade de contaminantes e nutrientes que podem ter um efeito diferente, quando comparado com um ambiente que só tem metanfetaminas.

Ainda assim, diz Emma, estes resultados devem ser uma motivação para os governos e grupos conservacionistas melhorarem a saúde dos cursos de água do planeta, testando e removendo mais contaminantes, incluindo produtos farmacêuticos e drogas ilegais.

“As estações de tratamento de águas residuais estão a prestar um serviço público incrível”, diz Emma. “Se queremos que prestem um serviço melhor, precisamos de investir em formas de lidar com os resíduos de forma mais eficaz.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

 

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