As baleias não expelem água pelos seus respiradouros – e outras lendas desmistificadas

Estamos a corrigir os equívocos mais comuns sobre estes mamíferos marinhos, algo que é essencial para os manter seguros e saudáveis.

Publicado 7/07/2021, 12:21
mito respirador baleias

O sol da manhã banha uma orca Tipo B no Estreito de Gerlache, na Antártida.

Fotografia de Jasper Doest, Nat Geo Image Collection

A crença de que as baleias são tão grandes que podem engolir humanos é tão antiga quanto a história bíblica de Jonas e a baleia. Apesar dos casos em que humanos foram engolfados pela boca de uma baleia – incluindo, mais recentemente, um pescador de lagosta em Cape Cod, Massachusetts – a maioria das baleias nem sequer consegue engolir uma pessoa.

Como disse à National Geographic Nicola Hodgins, da Whale and Dolphin Conservation, uma organização sem fins lucrativos sediada no Reino Unido, a garganta da maioria das baleias é demasiado pequena para engolir algo tão grande como um humano. Por exemplo, a boca de uma baleia-jubarte pode ter até 3 metros, mas a sua garganta só consegue esticar até aos 40 centímetros de diâmetro. Só os cachalotes é que têm gargantas grandes o suficiente para engolir uma presa do tamanho de uma pessoa – mas, como vivem em águas profundas e longe da costa, é pouco provável que esta espécie alguma vez encontre uma pessoa, muito menos engolir uma.

Este é apenas um de vários conceitos errados sobre as baleias que podem ser desmentidos pela ciência. As pessoas geralmente ficam surpreendidas quando ouvem dizer que nem todas as baleias conseguem “cantar”. Estes animais também não conseguem respirar debaixo de água e não expelem água pelos seus respiradouros. Portanto, vamos esclarecer a verdade e acabar com os mitos mais comuns sobre estes mamíferos marinhos.

As baleias têm pelos

Embora não pareçam peludas, as baleias têm pelos, diz Nicola, explicando que algumas baleias e golfinhos nascem com o que parecem ser bigodes nos bicos. Estes bigodes desaparecem rapidamente porque os animais “não fazem qualquer uso” dos pelos debaixo de água. Apesar de estes bigodes serem apenas visíveis em algumas espécies, a presença de folículos capilares é uma característica evolutiva que pode ser observada em todas as espécies, incluindo nas baleias-jubarte e azuis.

Isto acontece porque as baleias são mamíferos – e não peixes – o que significa que têm pelos, sangue quente e, em vez de colocarem ovos, dão à luz crias vivas que as mães amamentam com o seu leite.

As baleias não conseguem respirar debaixo de água

Enquanto mamíferos, as baleias também “têm pulmões e respiram ar como nós”, diz Emily Cunningham, bióloga marinha e curadora da Sociedade de Conservação Marinha. Emily acrescenta que as pessoas “pensam que as baleias são uma espécie de peixe – e isso não é verdade”.

Ao passo que os humanos respiram pelo nariz e pela boca, as baleias têm um respiradouro no topo da cabeça – ou dois, no caso das baleias-de-barbas. Funciona “como uma narina”, diz Emily. Apesar de não ser o mesmo que um nariz humano, é por aqui que as baleias inspiram e expiram.

A respiração das baleias é “muito eficiente”, acrescenta Pippa Garrard, diretora do departamento educacional do Hebridean Whale and Dolphin Trust, e têm um “controlo consciente” sobre a sua respiração e frequência cardíaca. Conseguir regular os níveis de oxigénio é particularmente importante para as espécies de mergulhos profundos. Uma vez debaixo de água, “as baleias podem diminuir a frequência cardíaca e desviar o sangue oxigenado para as áreas que precisam” – incluindo cérebro, coração e músculos.

A quantidade de tempo que uma baleia consegue suster a respiração debaixo de água depende da espécie: as baleias-anãs conseguem aguentar cerca de 15 minutos, os cachalotes até 90 minutos e as baleias zífio mais de duas horas.

 

As baleias expelem ar – e não água – dos seus respiradouros

Quando uma baleia emerge após suster a respiração desta forma impressionante, Pippa diz que o som que ouvimos “é o animal a expirar” antes de inspirar para mergulhar novamente. Muitas vezes retratado nos desenhos animados como um repuxo de água, Pippa esclarece que “o que estamos realmente a ver é a respiração da baleia”. Conforme o ar quente dos pulmões da baleia encontra o ar frio no exterior, condensa-se numa nuvem – é o mesmo que acontece quando vemos a nossa respiração num dia frio. Esta nuvem também inclui muco e gotículas de água do mar que cobrem o respiradouro quando a baleia exala.

Os cientistas podem aprender muito com a respiração de uma baleia. “Muitas espécies passam cerca de 95% da sua vida debaixo de água e provavelmente nunca as iriamos conseguir ver se não fosse pelo facto de precisarem de emergir para respirar”, diz Pippa. Os cientistas usam drones equipados com placas de Petri para voar sobre as baleias enquanto estas exalam para capturar amostras de muco sem perturbar os animais. Isto permite aos investigadores “descobrir mais sobre a sua saúde, níveis de stress, presença de poluentes e todos os tipos de coisas interessantes”. Os cientistas também conseguem identificar as baleias pelo formato dos seus bicos.

O conceito errado de que a água sai do orifício de respiração de uma baleia pode ser prejudicial quando algumas pessoas bem-intencionadas cometem erros a tentar resgatar uma baleia encalhada. Dan Jarvis, do British Divers Marine Life Rescue, descreve o caso de pessoas que encontraram uma baleia encalhada e “despejaram água diretamente no respiradouro a pensar que se tratava de um peixe e que precisava de água”. Neste caso, infelizmente, acabaram por matar acidentalmente o animal.

Nem todas as baleias cantam

A maioria das pessoas está familiarizada com o canto das baleias: a sequência de sons por vezes complexos que conseguem viajar distâncias enormes através do oceano. Mas não é do conhecimento geral que nem todas as baleias cantam.

O canto das baleias já foi documentado nas baleias-de-barbas, como as baleias-jubarte, baleias-comuns, baleias-azuis e baleias-francas. Não se sabe como é as baleias produzem estes sons, porque não têm cordas vocais.

Embora as baleias dentadas, incluindo cachalotes, baleias-piloto e beluga, usem o som para fins de ecolocalização – os cliques de um cachalote, com mais de 200 decibéis, são tão altos que as vibrações nos podem matar – estes animais não cantam.

Para além disso, só as baleias-de-barbas macho é que cantam, diz Laela Sayigh, especialista da Instituição Oceanográfica Woods Hole e professora no Hampshire College. Laela explica que “há uma enorme variedade de ‘chamamentos não musicais’ que ambos os sexos fazem”, mas as fêmeas não são conhecidas por produzir o conhecido canto das baleias. Não se sabe ao certo porque é que os machos cantam, acrescenta Laela, mas é amplamente considerada uma exibição reprodutora “para competir com outros machos ou atrair fêmeas”.

Os machos aprendem a cantar com outras baleias. Populações diferentes têm canções diferentes, que podem mudar com o tempo, permitindo aos investigadores identificar populações específicas. Por exemplo, em 2020, uma nova população de baleias-azuis foi descoberta desta forma no Oceano Índico.

 

Os tubarões-baleia não são um tipo de baleia

Existem cerca de 90 espécies conhecidas de baleias na Terra, com novas espécies ainda a serem descobertas – recentemente, uma terceira espécie de baleia-de-bico foi identificada no Pacífico Norte, e a baleia Balaenoptera ricei foi identificada no Golfo do México em 2021.

Contudo, algumas das chamadas baleias nem sequer são baleias. Os tubarões-baleia atingem tamanhos que rivalizam com os de uma baleia – o maior de que há registo superava um cachalote, medindo 19 metros de comprimento – mas Stella Diamant, fundadora do Madagascar Whale Shark Project, explica que “na realidade são tubarões”.

Ao contrário das baleias, os tubarões são um tipo de peixe. Isto significa que têm sangue frio, guelras e o seu esqueleto é feito de cartilagem – como as nossas orelhas e nariz – em vez de ossos. Uma forma prática de discernir entre tubarões e baleias é olhar para a barbatana caudal. A barbatana caudal de uma baleia move-se para cima e para baixo, mas a de um tubarão move-se horizontalmente de um lado para o outro.

Nas águas de Madagáscar, esta diferença pode ter grandes repercussões. Embora as baleias estejam estritamente protegidas por lei, os tubarões-baleia, que são animais em perigo de extinção, não o são. As áreas marinhas protegidas existentes no país cobrem apenas uma pequena parte do habitat dos tubarões-baleia e os conservacionistas estão a pedir medidas formais para melhorar a preservação desta espécie ameaçada, bem como a de outros tubarões e raias.

“Madagáscar é um habitat importante para estes gigantes amigáveis, pelo que é vital que os tubarões-baleia recebam proteções da mesma forma que as baleias – para a sobrevivência da espécie e também das comunidades locais que dependem do ecoturismo marinho”, diz Stella Diamant.

As baleias – e os tubarões – são vitais para um ecossistema marinho saudável. As baleias distribuem nutrientes importantes por todo o oceano, ao passo que os tubarões, enquanto predadores de topo, mantêm as espécies de presas sob controlo para garantir que o ecossistema permanece equilibrado. Com tanta coisa ainda para descobrir sobre o oceano, é vital dissipar os equívocos para que as pessoas de todo o mundo aprendam a manter os ecossistemas seguros e saudáveis para as gerações futuras.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

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