Descoberta surpreendente de crias de um dos maiores tubarões-buldogue do mundo

A mãe de quinhentos quilos, chamada Big Bull, pode ser uma das últimas da sua espécie na costa atlântica dos Estados Unidos.

Publicado 20/07/2021, 14:49 WEST
tubarão-buldogue

Os tubarões-buldogue, que tendem a nadar perto de regiões costeiras, também toleram água doce.

Fotografia de Andy Mann, Nat Geo Image Collection

O ecologista marinho Neil Hammerschlag já capturou e libertou muitos tubarões na sua carreira. Mas não há dúvida de que o mais memorável foi o tubarão-buldogue fêmea de quinhentos quilos chamada Big Bull, um dos maiores espécimes de que há registo.

“Fiquei literalmente sem fôlego”, diz Neil, diretor do Programa de Pesquisa e Conservação de Tubarões da Universidade de Miami. “Não era tanto o comprimento, mas o diâmetro. A Big Bull tinha um pescoço saliente, parecia um lutador.” A maioria dos tubarões-buldogue tem cerca de 2,10 metros de comprimento – a Big Bull tinha 3,5 metros.

Quando Neil e a sua equipa recolheram amostras não invasivas de sangue e tecido do tubarão-buldogue, capturado em 2012 perto de Marathon, uma cidade nas ilhas de Florida Keys, a química do sangue indicou que o animal tinha dado à luz recentemente. Apesar de anos de busca, não houve mais registos de avistamentos da Big Bull.

Mas, numa incrível reviravolta de eventos, três tubarões-buldogue capturados e analisados ao largo da costa da Flórida nos últimos anos são afinal descendentes da lendária mãe tubarão, diz Neil no programa “World’s biggest bull shark?” do Sharkfest.

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Encontrar filhos e filhas de um tubarão conhecido é relativamente raro. “Quero dizer, estamos literalmente à procura – não de uma agulha num palheiro – mas de uma agulha nos oceanos mundiais”, diz Neil.

Por mais incrível que pareça a história de Big Bull, para as pessoas que melhor conhecem estes animais, esta saga também traz consigo uma imagem preocupante: há simplesmente menos tubarões-buldogue adultos para se reproduzirem. Globalmente, a União Internacional para a Conservação da Natureza lista os tubarões-buldogue como quase em perigo de extinção e há evidências de que a espécie está em declínio no Atlântico.

“Não devia ser possível atirar uma linha e apanhar tubarões-buldogue irmãos. Não devia estar a acontecer, mas está”, diz Toby Daly-Engel, ecologista molecular do Instituto de Tecnologia da Flórida que realizou os testes de ADN. “Portanto, o que estamos a descobrir, em geral, é que já não restam muitos tubarões.”

Mãe de gigantes

Como parte do seu trabalho, Neil Hammerschlag captura regularmente tubarões-buldogue para fins de investigação, içando estes predadores para uma plataforma especial na parte de trás de um barco para fazer medições e recolher amostras de sangue – e, em alguns casos, equipar os animais com uma etiqueta rastreada por satélite. Durante os exames, os animais recebem constantemente água oxigenada para conseguir respirar.

Estes dados são importantes porque ajudam os cientistas a desvendar o comportamento dos tubarões, rastrear os seus movimentos regionais e auxiliar nos planos de conservação.

No verão de 2018, os colegas de Neil Hammerschlag capturaram e analisaram dois tubarões adolescentes, um macho e uma fêmea, perto de Palm Beach, quase 320 quilómetros a norte de Marathon. A equipa fez uma análise para perceber se o ADN dos tubarões correspondia a algum na sua base de dados. Surpreendentemente, os dois jovens tubarões eram descendentes da conhecida Big Bull.

Em 2017, ainda mais a norte na costa, uma cria macho de tubarão-buldogue com um ano de idade, analisado na Indian River Lagoon, também tinha metade dos genes da Big Bull, indicando que era a sua mãe.

Tudo isto sugere que a fêmea enorme, que atualmente pode ter cerca de 40 anos, é uma mãe muito bem-sucedida. Os tubarões-buldogue só atingem a maturidade por volta dos 15 ou 20 anos de idade e podem viver até aos 25 anos ou mais. Uma fêmea geralmente dá à luz entre uma a 13 crias por ano e a prole, após nascer, fica por conta própria.

Para além de confirmar as capacidades reprodutoras de Big Bull, Toby Daly-Engel também encontrou cerca de meia dúzia de outros tubarões-buldogue que estavam de alguma forma relacionados entre si. E bastou apenas analisar um total de 50 tubarões, diz Toby. (Descubra como os tubarões formam ‘amizades’ que duram anos, dissipando o mito do ‘tubarão solitário’.)

“Estas populações parecem ser dominadas por algumas fêmeas realmente enormes. Isto acontece porque, quando atingem um determinado tamanho, tornam-se numa espécie de super-reprodutoras e não têm muitos predadores”, diz Toby, que também é diretora do Tech Shark Conservation Lab na Flórida. Como a pesca do tubarão-buldogue é legal na Flórida, Toby suspeita que a maioria dos tubarões não sobrevive até à idade da Big Bull.

Estas mães prolíficas são “interessantes do ponto de vista científico, mas não nos dizem muito sobre o estado dos tubarões no oceano”, acrescenta Toby.

‘Ainda há tubarões monstruosos por aí’

Enquanto predadores de topo que conseguem tolerar água doce e salgada, os tubarões-buldogue tendem a passar a maior parte do tempo perto de zonas costeiras e estuários. Isto também aumenta a propensão para entrarem em conflito com humanos. Esta é uma de três espécies de tubarões que tem mais probabilidades de morder pessoas, juntamente com os grandes tubarões-brancos e os tubarões-tigre.

Isto pode muitas vezes levar a atos de retaliação, diz Sébastien Jaquemet, ecologista marinho da Universidade da Ilha da Reunião que estudou as populações de tubarões-buldogue. Por exemplo, quando aconteceu uma vaga de ataques de tubarão na Ilha da Reunião em 2011, este território francês no Oceano Índico respondeu com um programa governamental para aumentar as quotas de pesca de tubarões tigre e buldogue, diz Sébastien. A ilha também instalou redes para afastar os tubarões de várias praias, interditou a natação noutras e criou um sistema de patrulha de tubarões.

Em 2019, Sébastien e os seus colegas descobriram uma diminuição global na população de tubarões-buldogue, em parte devido a estas medidas. Viver perto da costa também coloca os tubarões em risco porque podem ser apanhados por anzóis de pesca e ficar emaranhados nas redes destinadas a proteger pessoas.

Os tubarões-buldogue também podem ser mais vulneráveis à poluição provocada pelo homem, diz Neil Hammerschlag. Como estes animais rondam a foz dos rios, ficam expostos a tudo, desde mercúrio e outros metais pesados a produtos farmacêuticos e à proliferação de algas tóxicas desencadeada pelos fertilizantes.

Ao mesmo tempo, o facto de um tubarão como a Big Bull ainda poder existir, significa que também há motivos de esperança para a espécie.

“A Big Bull pode ainda estar viva e a reproduzir”, diz Neil. “Portanto, para mim, é emocionante saber que ainda existem alguns tubarões monstruosos por aí.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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