Algumas fêmeas de beija-flor mascaram-se de machos

Os cientistas estão a encontrar cada vez mais exemplos de aves fêmeas com plumagem vistosa semelhante à dos machos.

Publicado 30/08/2021, 11:49
 jacobin de pescoço branco

Uma nova investigação revela os benefícios que as fêmeas de beija-flor-de-papo-branco obtêm de uma plumagem vistosa e colorida semelhante à dos machos, em vez dos tons castanhos mais comuns.

Fotografia de JOEL SARTORE, NATIONAL GEOGRAPHIC PHOTO ARK

Nos reino das aves, são os machos que costumam ostentar penas coloridas e vistosas – que atraem e seduzem melhor as fêmeas. São os pavões, e não as pavoas, que exibem penas exuberantes em tons de azul e verde. Os cardeais macho têm uma plumagem vermelha brilhante, enquanto que as penas das fêmeas são castanhas claras. E o beija-flor-de-papo-branco macho, um minúsculo colibri tropical, tem uma cabeça em tons de azul e um dorso verde vibrante, ao passo que as fêmeas geralmente têm cores mais deslavadas.

Mas não é sempre assim. Os investigadores que estudam beija-flores-de-papo-branco no Panamá repararam que quase 30% das mais de 120 fêmeas que capturaram entre 2015 e 2019 eram fêmeas que se pareciam com machos.

Um estudo publicado na revista Current Biology revela as descobertas destes investigadores. Aparentemente, imitar a coloração dos machos ajuda as fêmeas de beija-flor-de-papo-branco a evitar o assédio social por parte de outros colibris enquanto se alimentam.

“A coloração [brilhante] de uma ave está associada à agressão”, diz Jay Falk, ecologista evolucionário da Universidade de Washington e autor principal do estudo. “Basta parecerem machos para afastar os agressores”, dando às fêmeas melhor acesso ao néctar.

Esta investigação revela o papel raramente observado que a ornamentação tem nas aves fêmeas, aumentando também a nossa perceção sobre as forças evolutivas que servem uma função social em vez de sexual, diz a bióloga evolucionista Sara Lipshutz, da Universidade de Indiana, que não participou no estudo.

Copiar os machos

Há muito tempo que as investigações se concentram na evolução de características extravagantes nos animais macho, desde cores vibrantes a chifres, caudas e barbilhos exagerados. O papel destes ornamentos nas fêmeas, apesar de não ser tão difundido, foi amplamente esquecido até há cerca de duas décadas. A visão inicial, favorecida por Darwin, era a de que estas características não serviam um propósito real nas fêmeas e, em vez disso, eram herdadas dos machos, já que ambos os sexos partilham a maioria do seu código genético.

“Este conceito mais antigo ignorou por completo a diligência das fêmeas”, diz Sara. Porém, desde então, um corpo crescente de investigações tem indicado que as fêmeas ornamentadas de algumas espécies, incluindo aves, peixes e outros táxons, usam a sua aparência para competir por melhores parceiros e recursos.

Uma investigação feita recentemente descobriu que, nos beija-flores, uma pequena proporção de fêmeas de 47 espécies – entre 209 espécies examinadas em museus – assemelhava-se aos seus homólogos macho, sugerindo que isto é mais comum do que os cientistas pensavam. (Leia sobre os beija-flores que conseguem ver cores que os humanos nem sequer conseguem imaginar.)

Os beija-flores-de-papo-branco estavam entre estas 47 espécies. Jay Falk e os seus colegas queriam saber se as fêmeas desta espécie, que tinham uma aparência masculina, estavam a tentar atrair parceiros, destacando-se das fêmeas de cores monótonas, ou se estavam a competir entre si por néctar. Mas, primeiro, os investigadores queriam saber se as fêmeas ornamentadas eram predominantes no local de investigação de Jay, na pequena cidade de Gamboa, no Panamá. Através de redes de captura de aves que foram colocadas entre 2015 e 2019, os investigadores descobriram que quase 30% das mais de 120 fêmeas de beija-flor-de-papo-branco que capturaram, tanto adultas como jovens, eram semelhantes a machos.

A equipa descobriu que os jovens machos também exibiam uma plumagem apelativa semelhante.

“Juvenis que pareciam machos [adultos] – foi uma grande surpresa”, diz Jay. “Não é algo que normalmente vemos nas aves.”

Esta descoberta inesperada ajudou a equipa a descartar a seleção sexual como a força evolucionária que mantém a plumagem ornamentada nas fêmeas adultas. Isto porque os beija-flores fêmea exibiam cores vistosas mesmo antes de atingirem a idade reprodutiva e esta aparência tornava-se menos prevalente entre as fêmeas adultas – a maioria das fêmeas trocou as penas chamativas por outras mais descoloridas à medida que amadureciam, embora cerca de 20% das fêmeas adultas mantivessem a sua coloração semelhante à dos machos.

Os investigadores também descobriram que os beija-flores macho preferiam cortejar e acasalar com fêmeas de cores mais subtis, sugerindo que as cores vivas não conferem quaisquer vantagens para as fêmeas no cortejo de parceiros.

Jay e os seus colegas também focaram as atenções noutra hipótese: a competição por recursos. A equipa instalou rastreadores eletrónicos em cerca de 150 beija-flores, 15 dos quais eram fêmeas parecidas com machos, e registaram as suas visitas a 28 alimentadores. Durante 278 dias, as fêmeas parecidas com machos frequentaram os alimentadores com mais frequência e passaram mais tempo a alimentarem-se do que as fêmeas de cores simples.

Para compreender porque é que as fêmeas ornamentadas eram mais bem-sucedidas, Jay observou as interações entre os beija-flores que visitavam os alimentadores e três tipos de beija-flores falsos montados nesses mesmos alimentadores: fêmeas de cores simples, fêmeas ornamentadas e machos. Os pássaros falsos foram agredidos com bicadas, que foram registadas por Jay. As fêmeas de cores simples foram alvo de muito mais agressões por parte dos beija-flores e de outras espécies do que os modelos de aparência masculina. Para além disso, as imagens de videovigilância mostraram que as fêmeas reais de cores monótonas eram normalmente perseguidas com mais frequência do que as fêmeas ornamentadas.

“Isto sugere que, quando as fêmeas são ornamentadas e se alimentam nestes alimentadores, são menos assediadas”, diz o coautor do estudo Dustin Rubenstein,  ecologista evolucionário da Universidade de Colúmbia e Explorador da National Geographic.

Dados os benefícios, porque é que nem todas as fêmeas desenvolvem este tipo de ornamentação? A plumagem extravagante não só exige muita manutenção, como também é arriscada. Os beija-flores fêmea cuidam sozinhas das proles, algo que por si só exige muita energia. “Para além disso, se tiverem cores vivas e estiverem num ninho castanho de uma árvore verde, vão destacar-se”, diz Dustin. “É muito mais fácil serem atacadas.”

Em relação aos beija-flores juvenis mais vistosos, a sua coloração provavelmente oferece os mesmos benefícios que as fêmeas obtêm, ajudando-os a evitar o assédio e a superar a competição pelo néctar. “A taxa de sobrevivência pode ser muito baixa nesta fase das suas vidas”, diz Jay. “A única coisa que têm de fazer enquanto juvenis é sobreviver até ao ano seguinte para conseguirem reproduzir.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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