As anémonas-do-mar por vezes comem... formigas. Porquê?

Uma nova investigação revela o quão pouco sabemos sobre a dieta de alguns necrófagos subaquáticos – e sobre as intrincadas ligações entre as cadeias alimentares terrestres e marinhas.

Publicado 3/08/2021, 13:58
anémona-plumosa-gigante

Quando o investigador Christopher Wells descobriu que estas anémonas-plumosas-gigantes comiam formigas, ficou surpreendido. “Não estava à espera disto.”

Fotografia de Gina Kelly / Alamy Stock Photo

Se dermos um mergulho ao longo da costa noroeste do Pacífico provavelmente encontramos florestas subaquáticas com seres fantasmagóricos e carnívoros. Os cientistas chamam a estas criaturas anémonas-plumosas-gigantes e, com mais de um metro, são as anémonas-do-mar mais altas da Terra.

Contudo, apesar de as anémonas-plumosas-gigantes (Metridium farcimen) serem grandes, fáceis de observar e completamente dominantes nos ecossistemas que habitam, há muitas coisas que não sabemos sobre elas – como por exemplo saber exatamente o que comem.

Parte da dificuldade em estudar a sua dieta reside no facto de a maioria das anémonas-do-mar ter tentáculos longos e espessos que são uados para capturar e subjugar presas, mas também exibem inúmeras antenas minúsculas e finas – uma “indicação de que estão a comer presas muito pequenas”, diz Christopher Wells, ecologista marinho da Universidade de Buffalo, em Nova Iorque. Os pequenos animais, depois de ingeridos, transformam-se em pedaços ainda mais pequenos de gosma estomacal.

Em vez de tentar classificar este material visualmente com um microscópio, Christopher pegou no conteúdo intestinal de 16 anémonas de Friday Harbor, no estado de Washington, e utilizou uma tecnologia conhecida por metabarcodificação de ADN. Esta ferramenta isola fragmentos de ADN dentro de uma amostra e, de seguida, investiga as bases de dados existentes à procura de correspondências com espécies conhecidas.

Quando as análises ficaram concluídas, Christopher ficou impressionado com o que viu. Havia sinais de todos os suspeitos do costume – copépodes, percebes, larvas de caranguejo e seres semelhantes – criaturas minúsculas que não conseguiam escapar das garras venenosas de uma anémona-plumosa-gigante. Também havia uma quantidade curiosa de ADN de insetos, incluindo três moscas, uma abelha e um besouro. Mas as combinações mais invulgares vinham de uma espécie de formiga conhecida por Lasius pallitarsis, que constituía 98% do ADN de insetos encontrado nas vísceras das anémonas-do-mar.

“Foi uma surpresa”, diz Christopher, autor principal do estudo publicado na revista Environmental DNA que anuncia a primeira utilização deste método de ADN em conteúdos intestinais de anémonas-do-mar. “Não estava à espera disto.”

Enigma da formiga

As anémonas plumosas encontram-se desde o Alasca à Califórnia e sobrevivem filtrando pequenas criaturas na coluna de água. A sua dieta consiste maioritariamente em animais tão pequenos como uma célula e tão grandes quanto uma formiga. Ao contrário das suas parentes, que usam tentáculos longos para colocar pedaços de comida na boca, estas anémonas-do-mar apanham presas pequenas e depois canalizam-nas para o estômago através de uma série de ranhuras interligadas.

Muitos dos organismos cujo ADN foi encontrado no estudo passam realmente as primeiras fases do seu ciclo de vida enquanto ovos flutuantes ou larvas microscópicas que deslizam pela água, pelo que faz sentido as anémonas alimentarem-se deles. Em relação às formigas, porém, os cientistas não sabem exatamente como é que acabaram nas mandíbulas de um predador subaquático. Mas têm uma teoria bastante plausível.

Quando as formigas desta espécie estão prontas para reproduzir, dirigem-se para os céus em grande número para encontrar parceiro. Depois, as fêmeas regressam a terra para iniciar as suas próprias colónias. As suas histórias estão apenas a começar. Mas, para os machos, não há mais nada a fazer a não ser morrer.

Embora Christopher não se lembre de um número particularmente elevado de formigas voadoras quando estava a conduzir os levantamentos de anémonas, o investigador diz que há sempre muitos insetos a voar em torno de Friday Harbor. Outros cientistas documentaram que estas formigas acasalam ou fazem os seus voos nupciais em agosto, quando foram recolhidas as amostras de anémonas-do-mar. Presumivelmente, tudo o que os insetos teriam de fazer seria cair na água e afundar até atingirem as garras destes carnívoros. Provavelmente não é coincidência que os outros insetos encontrados na análise de ADN também sejam voadores.

“Muitos animais tiram partido do grande número de formigas que voam durante o acasalamento”, diz a especialista em formigas Corrie Moreau, diretora e curadora da coleção de insetos da Universidade Cornell. “Creio que não é irracional pensar que algumas destas formigas acabam nas águas oceânicas e tornam-se presas de organismos marinhos.”

A anémona-plumosa-gigante (Metridium giganteum ou Metridium farcimen) é uma anémona-do-mar enorme.

Fotografia de agefotostock / Alamy Stock Photo

Em relação à vertente aquática das coisas, a especialista em anémonas-do-mar Michela Mitchell concorda que é possível, embora invulgar, os predadores marinhos alimentarem-se de insetos terrestres.

De facto, já foram encontradas anémonas-do-mar com tentáculos grossos – que são mais comuns e tendem a ter uma alimentação mais diversa com presas maiores – a alimentarem-se de todos os tipos de coisas, desde côdeas de pão a coelhos inteiros.

“Ainda há poucos estudos sobre a ecologia de alimentação das anémonas-do-mar”, diz Michela, que é investigadora honorária do Museu Tropical de Queensland, na Austrália.

São necessárias provas sólidas

Embora pareça provável que as anémonas-do-mar tenham engolido algumas formigas, Michela alerta que, até que alguém observe este comportamento em ação, devem ser consideradas outras explicações.

“Podemos estar a olhar para um corredor de espelhos que reflete o conteúdo intestinal de outra coisa a descer pela cadeia da alimentar, ao mesmo tempo que tentamos estabelecer o que é”, diz Michela.

O coautor do estudo, Gustav Paulay, diz que este tipo de confusão é possível, dada a natureza da técnica de ADN usada. Mas, neste caso, Gustav acha improvável.

“A maior parte [da dieta das anémonas-do-mar] é do tamanho de formigas e é muito difícil um predador com tamanho suficiente para comer tantas formigas aparecer neste nível de sequências”, diz Gustav, curador de Zoologia de Invertebrados do Museu de História Natural da Flórida. “A maioria dos outros alimentos são animais demasiado pequenos que não conseguem lidar com uma formiga.”

Os investigadores também encontraram um aracnídeo no conteúdo estomacal das anémonas-do-mar: um tipo de ácaro, uma criatura minúscula que é principalmente terrestre, mas que também pode viver no oceano.

Estes eventos revelam uma das desvantagens do método de metabarcodificação de ADN – sabemos que uma espécie está presente, mas não conseguimos necessariamente determinar como foi lá parar. Ainda assim, o estudo é mais um exemplo interessante de como esta tecnologia pode ser usada para revelar interações invisíveis entre criaturas. E conforme os cientistas continuam a adicionar mais genomas de novas espécies às bases de dados, esta técnica torna-se mais robusta, útil e surpreendente.

Tudo o que precisamos é de uma amostra com uma célula que contenha ADN, diz Christopher. “Com isso, conseguimos identificar sardas num crustáceo.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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