Cacatuas selvagens copiam comportamentos – primeiras evidências de aprendizagem social

Há poucas décadas, estes comportamentos culturais seriam considerados uma característica exclusivamente humana.

Publicado 3/08/2021, 13:19
cacatua

As cacatuas-de-crista-amarela são aves comuns nas áreas desenvolvidas pelo homem no leste da Austrália.

Fotografia de ROBERT CLARK, NATIONAL GEOGRAPHIC IMAGE COLLECTION

Os papagaios conseguem imitar a fala humana, mover-se ao ritmo da música e até mesmo ajudar outros papagaios em apuros. Agora, uma nova investigação mostra que estas aves de cérebro grande também podem aprender novos comportamentos umas com as outras, algo que há poucas décadas seria considerado uma característica exclusivamente humana.

Em Sydney, na Austrália, algumas cacatuas-de-crista-amarela – aves ruidosas que vivem em bandos nas cidades do leste da Austrália – descobriram como se abre caixotes do lixo, um comportamento que outras cacatuas copiaram rapidamente, permitindo-lhes explorar um novo recurso alimentar.

Esta descoberta significa que os papagaios “juntaram-se ao clube de animais que mostram cultura”, diz a ecologista comportamental Barbara Klump, líder do estudo publicado na revista Science.

As outras espécies sociais com vidas longas e cérebros grandes, como corvos, grandes símios e cetáceos, praticam a chamada cultura de forrageio – por exemplo, os chimpanzés ensinam uns aos outros novas formas de abrir nozes. “Seria de esperar que os papagaios também fizessem estas coisas, mas não tínhamos evidências disso” – até agora, diz Barbara, Exploradora da National Geographic que faz parte da equipa de Comportamento Animal do Instituto Max Planck, na Alemanha.

Parte da razão para a ausência de evidências sobre comportamento cultural em papagaios selvagens deve-se ao facto de os papagaios, que em cativeiro estão bem estudados – como o caso de Alex, um papagaio-cinzento africano que tinha a inteligência de uma criança de três anos – serem mais difíceis de observar na natureza. Por um lado, numa paisagem natural é difícil contabilizar todos os fatores que podem estar a influenciar as ações das aves.

Mas como as cacatuas-de-crista-amarela de Sydney frequentam geralmente os mesmos caixotes do lixo, o seu comportamento forneceu uma configuração de estudo ideal para Barbara “observar estes atrevidos exploradores urbanos”.

VEJA CACATUAS A ABRIR CAIXOTES DO LIXO


Estes belos papagaios brancos de 60 centímetros de altura com cristas amarelas na cabeça são nativos do leste da Austrália e de ilhas próximas no Pacífico. Ao contrário da maioria das 350 espécies conhecidas de papagaios, a cacatua-de-crista-amarela está a prosperar, sobretudo em ambientes urbanos. Mas muitas vezes são consideradas pragas nestes ambientes devido aos seus hábitos destrutivos, como por exemplo riscar e picar varandas.

As pessoas que estudam papagaios não ficaram particularmente surpreendidas com esta descoberta de aprendizagem social, diz Timothy Wright, biólogo da Universidade Estadual do Novo México que estuda a aprendizagem vocal nos papagaios e não participou no estudo. Ainda assim, diz Timothy, esta investigação aumenta a nossa compreensão sobre os papagaios enquanto seres altamente inteligentes.

“Gosto de dizer que os papagaios são as aves mais humanas”, diz Timothy, “e isto é mais uma evidência nessa direção”.

Padrão previsível de aprendizagem das cacatuas

Em meados da década de 2010, os cientistas começaram a ouvir falar sobre cacatuas que abriam caixotes do lixo nos subúrbios a sul de Sydney. “A parte interessante é que este tipo de recurso está por todo o lado e os pássaros também, mas não víamos este comportamento em todo o lado”, diz Barbara.

A equipa de Barbara lançou uma sondagem online nas áreas metropolitanas de Sydney e Wollongong, perguntando às pessoas se as cacatuas no seu bairro abriam caixotes do lixo. As respostas vieram de cerca de 400 subúrbios.

A primeira sondagem, em 2018, confirmou que pessoas de três subúrbios tinham observado cacatuas a abrir caixotes do lixo com os seus bicos e garras. No final de 2019, as sondagens mostravam que este comportamento já se tinha espalhado por 44 subúrbios. O rastreio dos dados no mapa revelou que este comportamento irradiava para fora num padrão previsível – uma indicação clara, diz Barbara, de que a capacidade de abrir caixotes do lixo era aprendida e não aleatória.

De acordo com o estudo, com o passar do tempo os pássaros desenvolveram várias técnicas para abrir os caixotes, como usar as patas ou o bico de formas diferentes, uma evidência de subculturas regionais.

No decorrer do estudo, os cientistas passaram algum tempo a habituar cerca de 500 cacatuas suburbanas à sua presença. Quando as aves se habituaram à presença da equipa, os cientistas usaram tinta não tóxica nas penas dos pássaros para conseguir rastrear quais eram os animais individuais que conseguiam abrir caixotes.

Entre as 500 aves marcadas, apenas 10% conseguiam abrir caixotes. A maioria eram machos – possivelmente porque os machos são mais dominantes na hierarquia social destas cacatuas, ou porque os machos são maiores e, portanto, fisicamente são mais capazes de abrir os caixotes, diz Barbara. Este comportamento não era mais prevalente em qualquer faixa etária, com os pássaros jovens a serem tão talentosos como os mais velhos na abertura de caixotes do lixo.

Ciência cidadã

“Este estudo demonstra muito claramente que as cacatuas… conseguem mudar os seus comportamentos alimentares para explorar novos recursos. E que este comportamento é transmitido e sustentado ao longo do tempo – pelo menos no decorrer do estudo”, diz Daniella Teixeira, ecologista da Universidade de Queensland que estuda cacatuas australianas.

Daniella diz que esta investigação “oferece alguma esperança” de que as espécies de cacatuas ameaçadas de extinção consigam aprender novas formas de encontrar comida e partilhar esse conhecimento com os seus pares. As espécies ameaçadas incluem a cacatua-negra-de-cauda-vermelha do sudeste da Austrália, cujos números na natureza são inferiores a 1.500.

Daniella também elogia o estudo por usar ciência cidadã, ou comunitária, como uma ferramenta de investigação no estudo de papagaios selvagens. “É bom ver esta disseminação de comportamento num curto espaço de tempo, e ainda melhor ver que isto foi feito através de ciência cidadã”, diz Daniella. “É uma abordagem inovadora.”

Esta colaboração, bem como a técnica não invasiva usada pelos cientistas na marcação das aves, também impressiona Timothy Wright. “O estudo como um todo é muito engenhoso por usar estas abordagens diferentes, particularmente em papagaios selvagens pouco estudados.”

“Sabíamos desde sempre nos nossos corações”, diz Timothy, “que os papagaios eram animais muito espertos.”

A National Geographic Society, empenhada em destacar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou o trabalho da exploradora Barbara Klump. Saiba mais sobre o apoio dado pela National Geographic Society aos exploradores que destacam e protegem espécies críticas.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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