Descubra porque é que os animais venenosos não se envenenam a si próprios

As aves e sapos tóxicos desenvolveram uma forma de evitar danos – mas não da maneira que pensávamos.

Publicado 30/08/2021, 11:07
sapo venenoso

O sapo-boi-azul venenoso é nativo da região de Sipalwini, no Suriname.

Fotografia de Jon G. Fuller/VWPics / Alamy Stock Photo

Nas florestas de Nova Guiné vive um pequeno pássaro que tem um segredo mortal. O seu nome é Pitohui dichrous e as suas penas laranja e pretas estão repletas de veneno.

Basta tocar nas penas de um Pitohui para sentirmos que as nossas mãos estão a arder. Mas se ingerirmos um pouco desta batracotoxina, ou BTX, o veneno interrompe o funcionamento dos canais de sódio, levando à paralisia e até morte.

“Podemos pensar nestes venenos como se fossem uma espécie de fármaco natural. É algo que os animais usam para se proteger, porque... ou dão uma sensação muito desagradável ao animal que os está a tentar comer ou, na pior das hipóteses, mata o animal que os está a tentar comer”, diz Daniel Minor, biofísico do Instituto de Pesquisa Cardiovascular de São Francisco, na Universidade da Califórnia. (Descubra a diferença entre animais tóxicos e venenosos.)

Os cientistas acreditam que o Pitohui não produz as suas próprias toxinas, adquire-as através de minúsculos besouros que caça. Acredita-se que este mesmo mecanismo é utilizado pelos sapos venenosos da América Central e do Sul, que também têm BTX na sua pele de cores garridas.

Tudo isto leva a uma questão intrigante – como é que os animais venenosos evitam o seu próprio envenenamento?

Durante décadas, a melhor teoria era a de que as aves e os sapos desenvolveram canais de sódio especialmente adaptados – uma parte do corpo necessária para os nervos, células cerebrais e células musculares funcionarem adequadamente – que eram imunes ao BTX. Existem vários exemplos de animais que evitam as toxinas através deste método, como os mangustos egípcios que conseguem sobreviver ao veneno de cobras.

Mas um estudo publicado no início de agosto na Journal of General Physiology contraria este conceito.

Os investigadores fornecem evidências de que o Pitohui e os sapos venenosos têm o que chamam de “esponjas de toxinas”, ou proteínas que limpam as toxinas fatais antes de estas provocarem danos.

Encontrar evidências da proteína “esponja de toxinas”

No laboratório, Daniel Minor e os seus colegas recriaram os genes responsáveis pelos canais de sódio do Pitohui e dos sapos venenosos e colocaram-nos em células vivas de várias espécies expostas à BTX. Estas células sucumbiram à toxina, sugerindo que os canais de sódio dos animais venenosos não são resistentes à BTX. No entanto, quando os investigadores injetaram BTX em sapos vivos de espécies diferentes, só os sapos venenosos é que sobreviveram.

“Isto dá-nos uma indicação de que existe algo que basicamente está a proteger os canais desta toxina”, diz Daniel. A teoria principal é a de que se trata de uma proteína esponjosa, algo que Daniel já tinha identificado antes. Em 2019, o seu laboratório encontrou uma esponja de toxinas que concede às rãs-touro imunidade a outro veneno muito forte chamado saxitoxina. Apesar de Daniel ainda não ter encontrado algo semelhante no Pitohui ou nos sapos venenosos, a investigação passa certamente por aí.

Rebecca Tarvin, bióloga evolucionária da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que investigou a forma como os sapos venenosos toleram outra neurotoxina chamada epibatidina, está impressionada com os resultados.

“Dado o meu campo de investigação, fiquei muito surpreendida ao ver que os canais de sódio [dos sapos venenosos] não são sensíveis à batracotoxina, porque não é o que tínhamos previsto”, diz Rebecca, que também é Exploradora da National Geographic.

Mas Rebecca também alerta contra a generalização excessiva dos resultados. “Esta é apenas uma de muitas toxinas que os sapos têm. Porém, para o caso que eles testaram, estou convencida.”

O estudo de toxinas pode levar a avanços na medicina

Embora os pássaros de ilhas distantes e sapos de florestas tropicais possam parecer um nicho para estudar, desvendar a sua magia biológica pode ter aplicações para os humanos no mundo inteiro.

“Historicamente, as toxinas têm desempenhado um papel importante na ajuda que nos dão para direcionarmos proteínas específicas e descobrirmos a função dessas mesmas proteínas, para além de servirem de base para a projeção de medicamentos”, diz Rebecca.

Por exemplo, já ficou demonstrado em testes laboratoriais que um componente do veneno da rã-touro possui alguns efeitos anticancerígenos, ao passo que a tetrodotoxina presente em várias criaturas, desde o peixe-balão ao tritão, tem sido definida como uma fonte de novos medicamentos anestésicos.

“Para mim, a pergunta mais interessante é: porque é que estes animais não se matam com as toxinas?” diz Daniel. “Mas isto [também] nos vai dizer algo realmente importante sobre os sistemas biológicos.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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