Estes pequenos animais parecidos com coelhos têm uma estratégia invulgar para sobreviver ao inverno

Passados 13 anos, os cientistas podem ter resolvido um antigo enigma sobre o pika do planalto da Ásia Central.

Publicado 16/08/2021, 11:44
Pikas do planalto

Enquanto animais que vivem em tocas, os pikas do planalto são irrigadores naturais, arejando e humedecendo o solo.

Fotografia de Staffan Widstrand, Nature Picture Library

Para evitar as temperaturas extremas e a escassez de comida que acompanham um clima mais frio, alguns animais migram e outros hibernam. Mas os pikas do planalto Qinghai-Tibetano, no noroeste da China, não fazem uma coisa nem outra.

Os pikas são pequenos mamíferos semelhantes a roedores que parecem um cruzamento entre um porquinho da índia e um coelho. Entre as 29 espécies mundiais, o pika americano, nativo do oeste dos Estados Unidos e do Canadá, é bem conhecido pela forma como recolhe plantas com a boca antes de armazenar os alimentos no subsolo para sobreviver ao inverno.

Mas faltava resolver o mistério de como é que o seu parente asiático, o pika do planalto, sobrevive nas estepes secas e fustigadas pelo vento onde as temperaturas caem normalmente abaixo dos 29 graus Celsius e as plantas murcham no inverno. Ao contrário de outros animais de climas frios, os pikas não podem contar com a gordura, o aumento de peso no inverno ou com a hibernação durante os meses mais frios.

Agora, depois de 13 anos de investigação, os cientistas alegam ter descoberto o segredo de sobrevivência dos pikas do planalto: os animais abrandam o metabolismo e complementam a sua dieta habitual à base plantas com fezes de iaque, que contêm nutrientes valiosos ainda por digerir.

A primeira parte desta fórmula faz sentido, pois um metabolismo reduzido significa que os animais necessitam diariamente de menos calorias. Mas a segunda parte foi uma surpresa para os investigadores.

“Ao início, entre as pessoas com quem falávamos, ninguém acreditava na história de comerem fezes de iaque”, diz o líder do estudo, John Speakman, fisiologista da Universidade de Aberdeen, na Escócia.

“As evidências acumuladas, porém, são agora incontestáveis”, diz John, cujo estudo foi publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

Este comportamento, conhecido por coprofagia interespecífica, é bastante raro entre os vertebrados. John acredita que as fezes de iaque podem ser uma fonte de alimento abundante e de baixo esforço que permite aos pikas economizar energia e permanecer escondidos de predadores, como falcões-peregrinos e raposas-tibetanas.

Bactérias benéficas

Em 2009, John encontrou fezes de iaque meio comidas no interior da toca de um pika do planalto, despertando a sua curiosidade. “Depois comecei a pensar: Isto é estranho. Talvez comam estas coisas.” Um ano depois, quando dois pikas morreram acidentalmente numa armadilha, uma análise aos seus intestinos revelou a presença de fezes de iaque.

Para provar esta teoria, John e os seus colegas analisaram os conteúdos intestinais de mais de 300 pikas mortos – recolhidos para outro estudo feito em 2018 e 2019 – e descobriram que cerca de 22% das amostras continham ADN de iaque. Este valor provavelmente está subestimado porque o ADN degrada-se quando as fezes ficam expostas ao sol, diz John.

Outra bateria de testes revelou que, no inverno, a composição dos microbiomas dos pikas muda para se assemelhar à dos iaques, sugerindo que os animais também podem estar a adquirir bactérias benéficas a partir das fezes dos iaques.

Em 2017 e 2018, os cientistas captaram vídeos de pikas do planalto a comer excrementos de iaque em quatro ocasiões diferentes. Juntas, estas evidências confirmam a sugerida coprofagia.

Esta coprofagia também pode explicar porque é que os pikas do planalto tendem a ser mais abundantes nas áreas habitadas por iaques. Os pastores de gado encaram os pikas como competidores diretos por comida e envenenam milhões de animais, diz John.

“No entanto, as coisas estão a mudar e as tentativas mais recentes de controlo têm investigado o uso de contracetivos, que têm menos danos colaterais para outras espécies.”

A cantiga ouvida no mundo inteiro

“Há 30 anos que dou palestras sobre os pikas e conto a história de como o pika americano guarda fezes de marmota nas suas pilhas de feno, na esperança de que alguém na plateia me pergunte porquê”, diz Chris Ray, ecologista quantitativa da Universidade do Colorado, em Boulder.

Contudo, ainda não existem provas de paralelos entre a coprofagia dos pikas do planalto da Ásia Central e o comportamento dos pikas americanos. Mas o novo estudo “abalou” o pensamento de Chris em relação à potencial importância das fezes de marmota para o pika americano, uma espécie que está em declínio no oeste americano devido à subida das temperaturas, diz Chris.

“Eu vivo no alto das Montanhas Rochosas, portanto sei o quão frios são os invernos onde vivem alguns pikas, e estou realmente perplexa com a forma como conseguem sobreviver.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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