Muitos animais fingem estar mortos – e não o fazem apenas para evitar predadores

Cobras, invertebrados, aves e outros animais desenvolveram vários motivos para fingir que estão mortos.

Por Christine Peterson
Publicado 6/08/2021, 10:44
Cobra-dado finge estar morta

Uma cobra-dado finge estar morta perto de um riacho em Creta, na Grécia.

Fotografia de Blickwinkel, Alamy

De todas as maneiras pelas quais os animais evoluíram para evitar predadores, fingir a morte pode ser uma das mais criativas – e arriscadas.

Conhecida cientificamente por tanatose, ou imobilidade tónica, a simulação da morte acontece por todo o reino animal, desde aves a mamíferos e peixes. Talvez o animal mais conhecido por simular a morte seja o gambá da Virgínia na América do Norte, que abre a boca, mostra a língua, esvazia os intestinos e segrega fluidos malcheirosos para convencer um predador de que já passou do prazo de validade.

Os porquinhos-da-índia e muitas espécies de coelhos também fingem estar mortos, assim como várias cobras, como a cobra índigo do Texas. Os impostores aviários incluem codornizes-japonesas, galinhas domésticas e patos selvagens. Alguns tubarões até se viram com a barriga para cima: se ficarem virados de costas e momentaneamente parados, os tubarões-limão ficam flácidos, apresentando uma respiração pesada e tremores ocasionais.

Dezenas de invertebrados praticam esta imobilidade tónica, ficando assim entre as espécies que mais o fazem – ou pelo menos as mais estudadas.

Por exemplo, quando são abordados por um predador, os gafanhotos-pigmeu no Japão fingem que estão mortos e esticam as pernas em várias direções, tornando quase impossível para as rãs conseguirem engoli-los.

Em geral, os cientistas não sabem o suficiente sobre este comportamento intrigante, diz Rosalind Humphreys, estudante na Universidade de St. Andrews, no Reino Unido. É uma coisa difícil de registar na natureza e há preocupações éticas sobre a criação de experiências laboratoriais onde predadores atacam presas, diz Rosalind. Eis o que os cientistas sabem até agora.

“Última oportunidade”

Muitos insetos fingem que estão mortos quando são apanhados por um predador, um fenómeno chamado imobilidade pós-contacto.

Por exemplo, as larvas da formiga-leão Euroleon nostras – um tipo feroz de inseto alado – podem fingir que estão mortas durante uns espantosos 61 minutos. Charles Darwin, por outro lado, ficou surpreendido quando reparou que um besouro fingiu estar morto durante 23 minutos.

O processo é mais ou menos assim: digamos que um predador, pode ser um pardal, repara num grupo de larvas de formiga-leão e mergulha para apanhar os insetos. O pardal solta a larva, como acontece frequentemente, e o inseto finge que está morto.

“É a última oportunidade da vida”, diz Ana Sendova-Franks, investigadora visitante na Universidade de Bristol, no Reino Unido, e coautora de um estudo sobre este comportamento publicado em março de 2021 na revista Biology Letters.

A imobilidade pós-contacto é diferente de ficar momentaneamente imobilizado, “como quando um ladrão entra na nossa casa e ficamos imobilizados para não sermos vistos”, diz Ana. Em vez disso, muitas vezes trata-se de uma mudança fisiológica involuntária, como diminuir a frequência cardíaca.

Simular a morte para comer ou reproduzir

Embora a maioria das criaturas finja estar morta para escapar ao destino final, outras encontraram usos alternativos para esta técnica.

Temos por exemplo o caso da aranha Pisauridae. As fêmeas desta espécie costumam atacar os machos, portanto, para acasalar, o macho recolhe alguma comida e prende-se à mesma, fingindo estar morto. A fêmea arrasta depois a comida e o macho supostamente morto. Quando a fêmea começa a comer a comida, o macho regressa à vida e tenta acasalar novamente – por vezes com sucesso, diz Trine Bilde, professora de biologia da Universidade Aarhus, na Dinamarca.

“Fingir a morte parece ser um esforço de acasalamento do macho, em vez de ser apenas uma estratégia anti-predatória”, diz Trine. “Talvez sirva para ambas as funções.”  

Na outra extremidade do espectro está a libélula fêmea da espécie Aeshna juncea, que faz todos os possíveis para evitar o acasalamento: deixa de voar e cai no chão para escapar aos machos agressivos, que a podem magoar.

Os ciclídeos Parachromis friedrichsthalii da América Central fingem estar mortos no fundo de lagos para atrair peixes e outras presas. Quando um peixe se aproxima para dar uma dentada na sua carcaça, o ciclídeo acorda e ataca. Da mesma forma, a garoupa Mycteroperca acutirostris do Brasil simula a sua própria morte para atrair peixes mais jovens.

Uma defesa estranha, mas eficaz

A imobilidade tónica pode parecer “estranha enquanto defesa de ‘último recurso’, porque seria de esperar que uma presa quisesse lutar e fugir”, diz Rosalind Humphreys. “No entanto, há uma série de meios através dos quais [a imobilidade tónica] pode reduzir a probabilidade de novos ataques.”

Por exemplo, nas experiências feitas com a formiga-leão, os cientistas descobriram que as larvas que fingiam estar mortas durante mais tempo tinham menos propensão para serem comidas por um predador, porque este ou é enganado ou fica simplesmente frustrado pela resposta da larva.

Numa experiência realizada em 1975, os cientistas observaram os comportamentos predatórios de raposas-vermelhas em cativeiro usando cinco espécies diferentes de patos, a maioria dos quais fingia estar morto imediatamente após a captura. As raposas levavam os patos para as suas tocas para comer mais tarde. As raposas mais experientes sabiam que tinham de matar ou mutilar imediatamente os patos, mas as inexperientes deixavam por vezes os patos supostamente mortos, permitindo que as presas escapassem.

É por isso que Ana Sendova-Franks designa este comportamento de última oportunidade. Um movimento é morte garantida, mas simular a morte oferece uma possibilidade – embora ténue – de sobrevivência.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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