A controversa captura anual de golfinhos no Japão já começou

Mais de uma década depois de “The Cove - A Baía da Vergonha” ter revelado a crueldade desta prática, os pescadores de Taiji continuam a apanhar golfinhos para abastecer aquários e parques marinhos.

Publicado 14/09/2021, 13:08
A caça anual de golfinhos no Japão já começou

Roazes-corvineiros, capturados no primeiro dia da infame pesca aos golfinhos de Taiji, são mantidos na baía, enquanto os pescadores arranjam as redes. Membros da guarda costeira, de capacete, observam as operações.

Fotografia de Kyodo via AP Images

A polémica pesca aos golfinhos na cidade japonesa de Taiji vai no seu nono dia e os pescadores já capturaram pelo menos sete roazes-corvineiros numa época de pesca que se deve estender até março de 2022.

Esta captura, gerida pela Associação de Pescadores de Isana, tem uma quota de 1.849 golfinhos de nove espécies diferentes. Foram estes os parâmetros definidos pelo governo japonês para a captura ou morte de golfinhos para esta temporada. Isto inclui roazes-corvineiros, golfinhos-riscados, golfinhos-cabeça-de-melão e golfinhos-de-risso.

Alguns destes animais são capturados e vendidos a parques marinhos e delfinários, maioritariamente no Japão e na China, e várias centenas são abatidos pela sua carne, de acordo com o Dolphin Project, um grupo de defesa dos animais sediado na Califórnia. (Nos últimos anos, os pescadores apanharam várias centenas de golfinhos a menos do que o permitido pela quota de captura).

O ativista Ren Yabuki, do grupo de defesa dos animais Life Investigation Agency, no Japão, tem estado na baía de Taiji todos os dias a filmar e a publicar os números das capturas nas redes sociais – em parceria com o Dolphin Project. Ren tem feito isto todas as épocas de pesca nos últimos seis anos.

“Quando as baleias e os golfinhos são empurrados para a baía vindos da costa, é como se o nosso sangue começasse a ferver”, diz Ren. “Os golfinhos e as baleias, que não fizeram nada de mal, são repentinamente capturados à força. As suas famílias ficam divididas. Os animais são capturados para os aquários à frente dos [seus] membros do grupo, ou mortos à frente das suas famílias.

Esta captura já é condenada globalmente desde 2009, quando o documentário The Cove – A Baía da Vergonha, vencedor de um Óscar, revelou a forma como os pescadores de Taiji reúnem centenas de golfinhos, forçando-os a entrar na baía, onde são capturados e abatidos.

No Museu Baleeiro de Taiji, que exibe a história da indústria baleeira local, os funcionários realizam um serviço fúnebre para as baleias. O museu costuma comprar golfinhos capturados em Taiji e oferece aos seus visitantes a oportunidade de nadar com golfinhos, assistir a espetáculos com golfinhos e comprar carne de golfinho.

Fotografia de Kyodo via AP Images

O governo de Taiji não respondeu aos pedidos da National Geographic para comentar, mas já defendeu esta atividade noutros órgãos de comunicação social como sendo uma tradição cultural com 400 anos. (Os críticos, porém, argumentam que os métodos de pesca – grupos de barcos motorizados a reunir grupos inteiros, muitas vezes para o comércio de golfinhos – evoluíram a partir de algo que outrora era uma tradição de sustento.)

Os testemunhos oculares de voluntários que colaboram com o Dolphin Project revelam que os pescadores normalmente matam os golfinhos com uma lança na zona por baixo do respiradouro, para cortar a medula espinal. Mas alguns golfinhos podem não morrer instantaneamente e há testemunhos de animais que mais tarde foram vistos a mexer-se. Outras testemunhas dizem que as crias, incapazes de sobreviver sozinhas, são libertadas novamente no oceano depois de as suas mães serem mortas.

A carne de golfinho ainda é popular em Taiji, mas a demanda por carne de golfinho e baleia por todo o Japão tem diminuído nos últimos anos, e muitos distribuidores e instalações de processamento encerraram.

Um golfinho pode ser vendido por 500 dólares pela sua carne, mas um roaz-corvineiro vivo para o comércio de golfinhos pode ascender aos 8.000 e 12.000 dólares, de acordo com o Washington Post.

Geralmente, entre cem e duzentos golfinhos são capturados anualmente para os delfinários, de acordo com o Dolphin Project. O Japão, que tem cerca de 70 delfinários, mais do que qualquer outro país, continua a ser o grande mercado dos golfinhos vivos capturados em Taiji, diz Tim Burns, coordenador do Dolphin Project em Taiji.

"Piscina gigante de golfinhos"

Em 2015, a Associação Japonesa de Zoos e Aquários (JAZA) proibiu os seus membros de comprar golfinhos pescados em Taiji, após vários protestos e muita pressão por parte da Associação Mundial de Zoos e Aquários, uma organização global do setor. Alguns delfinários japoneses saíram da JAZA para poderem continuar a comprar golfinhos a Taiji.

Quando os golfinhos são levados para a baía, há tratadores que trabalham com os pescadores para selecionar os indivíduos que querem levar para cativeiro. Os pescadores “podem reunir um grupo de oito golfinhos-de-risso, e um pode ser a jovem fêmea perfeita que precisam [para treinar]”, diz Tim Burns. “O resto é chacinado.”

A equipa de Tim acredita que muitos dos golfinhos capturados nesta época de pesca vão ser enviados para o Museu Baleeiro, que é propriedade do governo de Taiji, e para a Baía de Moriura, onde este mesmo governo mantém os golfinhos em tanques marinhos. Ao todo, são mantidos entre 100 a 200 cetáceos, aos quais se juntam regularmente mais vítimas da caçada, de acordo com o Japan Times. No Museu Baleeiro, os visitantes podem comprar carne de baleia e golfinho para petiscar enquanto assistem aos espetáculos com golfinhos.

A cidade de Taiji está a trabalhar para converter a Baía de Moriura, que tem cerca de duas vezes o tamanho do Yankee Stadium de Nova Iorque, numa “piscina gigante de golfinhos”, mas, por enquanto, está a manter os golfinhos em recintos marinhos.

“A cidade de Taiji investiu muito na Baía de Moriura e nas suas próprias reservas de golfinhos”, diz Tim. Conforme aumenta a pressão para acabar com a pesca, a reprodução em cativeiro no museu e na baía provavelmente também irá aumentar, para a indústria do comércio de golfinhos de Taiji poder continuar.

Os representantes do Museu Baleeiro de Taiji não responderam aos pedidos da National Geographic para comentar.

Um movimento nacional crescente

Devido a uma variedade de questões legais e culturais, os protestos públicos são menos comuns no Japão do que em alguns outros países. Os estrangeiros costumam protestar contra as caçadas com imagens gráficas e sangrentas. Enquanto isso, os protestos liderados por japoneses, que são mais contidos, estão a tornar-se cada vez mais comuns. Este ano, várias dezenas de defensores dos animais japoneses protestaram em Taiji no primeiro dia de pesca, de acordo com o Japan Forward, empunhando cartazes com mensagens como “Deixem os golfinhos nadar livremente” e “Amem todos os animais”.

“Como a pesca e o comércio de golfinhos em Taiji são geridos pelos pescadores japoneses, cabe ao povo japonês assumir a liderança”, diz Ren Yabuki. “Ao documentar todo este processo de caça, ao expor a realidade desta exploração de golfinhos e a forma como está associada aos aquários [e] parques marinhos, as pessoas [podem] decidir não os visitar e deixar de apoiar estas instalações de golfinhos em cativeiro.”

O Wildlife Watch é um projeto de jornalismo de investigação da National Geographic Society e da National Geographic Partners com um foco nos crimes e exploração de vida selvagem. Descubra mais sobre a missão sem fins lucrativos da National Geographic Society em natgeo.com/impact. Envie dicas, comentários e ideias para artigos para NGP.WildlifeWatch@natgeo.com.

Natasha Daly é redatora da National Geographic, onde aborda a forma como os animais e a cultura se cruzam. Siga-a no Twitter e Instagram.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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