Animais que oferecem pistas vitais sobre as alterações ambientais

As espécies indicadoras são geralmente as primeiras a ser afetadas pelas alterações num ecossistema. O estudo destes animais sensíveis ajuda os cientistas a detetar precocemente os efeitos das alterações climáticas e da poluição.

Publicado 24/09/2021, 11:32
Rãs-arlequim

As rãs-arlequim estão em perigo crítico de extinção devido ao fungo quitrídio. Os anfíbios são considerados espécies indicadoras porque são altamente sensíveis às alterações nos seus ambientes. Através da monitorização destas espécies, os cientistas podem descobrir mudanças na saúde de ecossistemas inteiros.

Fotografia de ROBIN MOORE, Nat Geo Image Collection

O que é uma espécie indicadora?

Uma espécie indicadora é um organismo – bactéria, planta ou animal – que reflete a condição do ambiente que a rodeia. Estas espécies são frequentemente as primeiras no seu ecossistema a serem afetadas por uma mudança ambiental específica, como o aquecimento do clima, a poluição, o desenvolvimento humano e outras degradações ambientais. Ao monitorizar as mudanças no comportamento, fisiologia ou número de uma espécie indicadora, os cientistas podem monitorizar a saúde de todo o ambiente.

Os lagostins, por exemplo, podem indicar a qualidade da água doce, porque as mudanças na acidez da água são stressantes para esta espécie. A saúde dos corais pode indicar tendências como a subida do nível do mar e flutuações na temperatura do oceano, que por sua vez são indicadores de alterações climáticas. Os falcões-peregrinos são uma espécie indicadora de pesticidas; o DDT, por exemplo, faz com que a casca dos seus ovos fique mais fina. Muitas plantas nativas são indicadoras da presença e do impacto de espécies invasoras. Por exemplo, os freixos-brancos nos EUA foram os primeiros a serem dizimados por besouros invasores.

Os pikas encontram-se geralmente no alto das montanhas do oeste americano, até 4.260 metros acima do nível do mar. Como estão muito adaptados para prosperar neste ambiente, os pikas são afetados pela mudança mais ínfima no clima.

Fotografia de Arterra/Universal Images Group via Getty Images

Para ser uma espécie indicadora eficaz – também chamada bioindicadora – uma espécie precisa de ter algumas características-chave. A sua saúde deve atuar como um termómetro para a saúde de outras espécies no mesmo ecossistema; uma espécie que seja particularmente vulnerável ou que esteja a enfrentar dificuldades é má indicadora. E qualquer alteração que sofra deve ser clara e mensurável, atuando como um sistema de alerta precoce para mudanças mais amplas. Por último, a espécie deve responder às mudanças de forma previsível.

Espécies indicadoras notáveis

Os anfíbios como rãs e sapos são fortes indicadores de poluição. Estes animais têm uma pele permeável através da qual absorvem oxigénio – e toxinas. Assim, são extremamente sensíveis às alterações na qualidade do ar e da água. E são geralmente, por exemplo, os primeiros animais a serem afetados pela utilização de pesticidas nos seus ecossistemas ou outros circundantes. Muitas populações de anfíbios têm desaparecido pelo mundo inteiro, ao passo que outras desenvolveram deformidades como pernas extra devido aos pesticidas.

Por outro lado, algumas espécies de bactérias prosperam onde há a presença de toxinas, tornando-as também bioindicadoras. Uma vasta abundância de bactérias, tal como a ausência de rãs, pode indicar a presença de uma toxina.

As corujas-pintadas-do-norte são uma espécie indicadora muito estudada. Os cientistas recorrem a estas aves para terem uma noção da saúde geral dos ecossistemas florestais antigos e para monitorizar os efeitos das mudanças provocadas pelo homem nos habitats. Nativas do noroeste do Pacífico, estas corujas fazem os seus ninhos nas cavidades e na copa de árvores antigas, todas em florestas antigas da região. Mas, à medida que as florestas são derrubadas devido à exploração madeireira, à agricultura e ao desenvolvimento urbano, as corujas perdem os seus locais de nidificação e as suas populações começam a desaparecer. As corujas continuam a ter uma redução média anual de quase 4%.

O declínio destas aves significa que outras espécies da floresta provavelmente também estão em declínio e que a própria floresta – e a teia de vida que sustenta – está degradada. Da mesma forma, uma população próspera de corujas-pintadas-do-norte indica que um ecossistema é saudável e que consegue sustentar uma variedade de plantas e animais.

Uma coruja-pintada-do-norte repousa no ramo de uma árvore na região noroeste do Pacífico. Nas zonas onde a floresta tem sido degradada, as populações de coruja-pintada-do-norte começaram a desaparecer. Ao monitorizar as corujas, os cientistas podem aprender sobre a saúde geral das florestas que habitam.

Fotografia de Gerry Ellis / Minden Pictures

Os pikas – pequenos mamíferos peludos que parecem coelhos de orelhas pequenas – estão perfeitamente adaptados para viver em habitats alpinos inóspitos, o que significa que são afetados por quaisquer mudanças, mesmo que insignificantes, no seu ambiente. Isto faz dos pikas bons indicadores do aquecimento global.

Em vez de hibernar durante o inverno, os pikas protegem-se debaixo de detritos rochosos, contando com o isolamento das pesadas camadas de neve para manter as suas tocas aquecidas. Na década de 2000, os investigadores começaram a registar declínios nas populações de pikas que vivem em altitudes mais baixas, sobretudo nas regiões mais secas do oeste dos EUA. Este sinal de alarme sinalizou que o clima estava a aquecer: nas últimas décadas, com invernos mais curtos e menos neve a cair, a camada de neve derrete mais cedo a cada primavera, reduzindo o manto que serve de cobertura isolante para os pikas. Isto deixou os animais cada vez mais expostos às temperaturas frias da primavera, numa época em que os seus alimentos escasseiam e os seus descendentes, do tamanho de nozes, são pequenos e vulneráveis. Alguns não sobrevivem.

Espécies indicadoras vs. espécies-chave

As espécies indicadoras diferem das espécies-chave, embora algumas possam pertencer aos dois grupos. As espécies-chave são as que têm um efeito desproporcionalmente grande nos seus ambientes. São espécies que ajudam a manter a biodiversidade e não há qualquer outra espécie nesse ecossistema que consiga desempenhar a mesma função. Sem estas espécies, os seus ecossistemas alterar-se-iam drasticamente ou poderiam até deixar de existir. Os castores, por exemplo, são considerados uma espécie-chave. Os castores constroem barragens que criam habitats húmidos nos quais muitas outras espécies prosperam.

Apesar de as espécies-chave serem vitais para a manutenção dos seus ecossistemas, estas podem ou não ser exclusivamente suscetíveis às alterações ambientais – uma característica-chave das espécies indicadoras. Algumas espécies, porém, preenchem ambos os papéis. O freixo-branco, por exemplo, pode ser considerado uma espécie indicadora; nos EUA, centenas de milhões de freixos foram mortos por um besouro invasor. Mas os freixos-brancos também são uma espécie-chave – fornecem alimento e habitat a dezenas de espécies de animais e atuam como escoadouros para os poluentes atmosféricos.

A importância das espécies indicadoras

Através do estudo das espécies indicadoras, os cientistas podem ter noção da saúde de todo um ecossistema sem terem de investir recursos de monitorização em várias espécies e locais. O Projeto Pika Colorado, por exemplo, tem voluntários que recolhem dados sobre as populações de pikas de todo o estado. Isto permite aos cientistas não só saber quais são as populações de pikas que estão em maior risco, como também os ajuda a proteger essas mesmas populações e, principalmente, todos os seus ecossistemas alpinos.

Este coral, fotografado no Parque Natural dos Recifes de Tubbataha, nas Filipinas, é uma espécie indicadora. Os corais são muito sensíveis às alterações na temperatura do mar, pelo que a morte de um coral pode ser um sinal de alterações climáticas.

Fotografia de DAVID DOUBILET, NAT GEO IMAGE COLLECTION

A monitorização das espécies indicadoras também pode ajudar os cientistas a determinar quais são as mudanças que estão a acontecer num ambiente. Por exemplo, se um ecossistema de pântanos mostrar sinais gerais de que algo está errado, e se os cientistas perceberem que as populações de sapos estão a diminuir, então sabem que o problema pode estar nos pesticidas.

Tanto cientistas como legisladores e autoridades públicas podem usar os dados recolhidos sobre as espécies indicadoras para implementar políticas de conservação – como proteger terras e habitats, regulamentar o desenvolvimento ou uso de produtos químicos ou aprovar leis – para reverter ou prevenir estragos antes que seja tarde demais.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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