Espécie invasora de lagostim está a morrer nos EUA. Poderá um fungo ser a causa?

Um fungo parasita descoberto num lago do Wisconsin pode ser uma arma natural para travar os crustáceos não nativos.

Por Jack Tamisiea
Publicado 29/09/2021, 12:01
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Os lagostins enferrujados (na imagem vemos um animal apanhado no Minnesota) são nativos do rio Ohio.

Fotografia de JOEL SARTORE, NATIONAL GEOGRAPHIC PHOTO ARK

Quase todas as manhãs, quando Eric Larson puxa uma armadilha de arame para o seu barco de pesca no lago Trout, no norte do Wisconsin, encontra dezenas de lagostins cor de café com as suas pinças enormes num frenesim – enquanto tentam escapar.

Eric, ecologista da Universidade do Illinois Urbana-Champaign, regista o comprimento e o sexo de cada animal. Depois, coloca os lagostins num balde de água misturada com um tóxico para peixes, uma forma de eutanásia eticamente aprovada para esta espécie invasora. No lago Trout e noutros lagos ali perto, Eric e a sua equipa podem pescar, estudar e sacrificar alguns milhares de lagostins em poucas horas.

Nativos do rio Ohio e designados devido às manchas cor de ferrugem que adornam o seu corpo, os lagostins enferrujados (Faxonius rusticus) chegaram ao norte do Wisconsin na década de 1960, quando os pescadores os usavam como engodo. Estes crustáceos de dez centímetros de comprimento tinham pouca competição nativa e as suas populações aumentaram exponencialmente: em quatro décadas, os lagostins já habitavam cerca de 86% das bacias hidrográficas do Wisconsin.

Este problema não é exclusivo do Wisconsin: em 2021, as populações não nativas de lagostins enferrujados já estavam em 28 estados dos EUA, desde o Maine até ao Oregon. Estes omnívoros oportunistas devoram insetos aquáticos, ovos de peixes e expulsam os lagostins locais do seu habitat, deixando todo o ecossistema mergulhado no caos.

Por exemplo, desde que os lagostins chegaram ao lago Trout em 1979, os caracóis aquáticos e pequenos peixes tiveram um declínio acentuado. As espécies nativas de lagostins tiveram um destino ainda pior – um estudo de 2011 descobriu que os lagostins nativos (Faxonius virilis) desapareceram de mais de 75% dos lagos do Wisconsin que estão infestados com lagostins enferrujados.

Os lagostins em geral são muito habilidosos na adaptação a novos ambientes. O lagostim-sinal, por exemplo, é nativo de regiões do oeste da América do Norte, mas provocou estragos quando se espalhou por Inglaterra, Suécia e no lago Crater do Oregon, onde os crustáceos deixaram as salamandras endémicas à beira da extinção. Os lagostins invasores prevalecem porque, enquanto escavadores experientes, podem aguardar pacientemente para escapar das tentativas humanas de captura ou exterminação química.

“Fazemos todos os possíveis para impedir a sua introdução nestes ambientes”, diz John Umek, ecologista do Instituto de Pesquisa do Deserto do Nevada que documentou a propagação do lagostim-sinal por todo o lago Crater. “Assim que a espécie é introduzida, a sua erradicação completa é quase impossível.”

Contudo, há cerca de sete anos, Eric Larson começou a reparar em algo estranho no lago Trout: Eric pescava cada vez menos lagostins. O que Eric e outros acabaram por descobrir pode fornecer aos cientistas uma ferramenta rara – e eficaz – na luta contra um invasor complicado.

Os lagostins estão a destruir o seu próprio habitat?

Para investigar o declínio destes lagostins no Wisconsin, Eric e os seus colegas estudaram décadas de dados de captura registados em 17 lagos da região norte do Wisconsin. Os dados mostram que, entre 1975 e 2017, houve um declínio na população de lagostins enferrujados em oito dos lagos – e quando Eric e a sua equipa tentaram encontrar as razões, descobriram que todos os corpos de água tinham fundos lamacentos ou arenosos.

Quando os lagostins enferrujados forrageiam comida, arrancam plantas aquáticas – as investigações no lago Trout descobriram que a diversidade de plantas aquáticas em algumas áreas teve um declínio de até 80% após a chegada dos lagostins enferrujados. Mas os crustáceos também precisam de lugares para se esconder dos peixes famintos e de outros lagostins enferrujados que os atacam. Em lagos com muitas rochas, as fendas entre as rochas oferecem um abrigo para os lagostins – mas nos lagos de fundo arenoso, as plantas aquáticas fornecem a única cobertura. É possível, teoriza Eric, que em lugares como o lago Trout, os lagostins tenham danificado a vegetação aquática de forma tão abrangente que já não tenham lugar para se esconder.

Mas falta aqui algo, diz Eric, porque mesmo em alguns dos lagos rochosos, o número de lagostins enferrujados está em declínio.

Lindsey Reisinger, ecologista de água doce da Universidade da Flórida, pode ter encontrado outra explicação. Lindsey está a compilar evidências de que um parasita fúngico que ainda não foi descrito infetou e enfraqueceu os lagostins, tornando-os mais vulneráveis a predadores como garças-reais, percas e robalos. Este fungo, membro do género Nosema, está relacionado com o mortífero Nosema apis, o parasita que está a devastar colónias de abelhas pelo mundo inteiro.

Durante os últimos três anos, Lindsey tem monitorizado um surto deste novo parasita Nosema em corpos de água no Wisconsin, onde a população de lagostins enferrujados tem diminuído, incluindo no lago Trout.

A espécie Nosema, tal como acontece com outros parasitas do género, parece provocar danos no sistema muscular dos lagostins. No laboratório de Lindsey, muitos dos lagostins enferrujados infetados são mais lentos do que os seus homólogos saudáveis. Estes animais também têm dificuldade em virar-se quando estão de barriga para cima – uma manobra vital em águas turbulentas.

Factos sobre Espécies Invasoras

Este fungo usa esporos microscópicos para infetar novos hospedeiros. Não se sabe se os lagostins enferrujados são infetados primeiro pelos próprios esporos ou pela ingestão de insetos aquáticos infetados com o patógeno. Lindsey teoriza que a tendência dos lagostins para o canibalismo pode propagar este parasita por toda a população.

Apesar de Lindsey não poder afirmar que é este parasita que está a reduzir o número de lagostins, a ecologista salienta que testemunhou um declínio muito acentuado na população [de lagostins] ao mesmo tempo em que foi detetado o surto. “Como os lagostins nativos e outras espécies evoluíram na presença deste fungo, provavelmente desenvolveram imunidade.”

Uma arma natural contra lagostins invasores

Se os lagostins continuarem a diminuir no lago Trout, Lindsey acredita que as autoridades de vida selvagem podem libertar mais fungos parasitas noutros lagos onde os lagostins são problemáticos, para atuar como um controlo biológico natural.

Porém, Lindsey enfatiza que ainda há muito para aprender sobre os fungos antes de estes poderem ser utilizados para travar as incursões dos lagostins. Resta saber se este parasita, como muitos outros do seu género, tem um alvo específico – ou seja, é preciso descobrir se só infeta crustáceos como os lagostins – ou se é mortal para uma gama mais vasta de hospedeiros. Para além disso, Lindsey ainda não sabe ao certo qual é a duração dos surtos destes parasitas fúngicos.

Ainda assim, enquanto fungo nativo pré-existente, este parasita pode ser uma solução natural para um problema não natural. “Não é que estejamos preocupados em levá-lo para lá”, diz Lindsey. “O parasita já está lá.”

Outros cientistas estão a investigar como é que os fungos podem ser transformados em armas contra as espécies invasoras. Por exemplo, os investigadores podem usar um fungo que mata a árvore-do-céu – uma árvore nativa da China que se espalhou rapidamente e invadiu os Estados Unidos – para fazer um produto herbicida comercial que é injetado diretamente nas plantas.

Os parasitas assassinos e os próprios hábitos autodestrutivos dos lagostins enferrujados oferecem alguma esperança na restauração dos ecossistemas locais, mas Eric Larson enfatiza que a melhor forma de controlar os crustáceos é evitar em primeiro lugar a sua introdução descuidada. “Por exemplo, se as organizações precisam de descartar lagostins que foram capturados para fins de investigação ou como marisco, os lagostins devem ser sacrificados humanamente em vez de libertados em ambientes não nativos.”

Eric sente-se encorajado pelo número cada vez menor de lagostins enferrujados que apanha nas suas armadilhas. “Fico a pensar que eles irão certamente recuperar”, diz Eric. “Mas ainda não vimos isso.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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