Lula macho ajuda a escolher o lar para a sua parceira – revela estudo inédito

A lula de recife de bigfin pode dedicar-se aos cuidados paternos, uma prática observada com mais frequência nos vertebrados monogâmicos, como as aves.

Publicado 9/09/2021, 12:49
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Um casal de lulas de recife de bigfin cuida dos seus ovos ao longo de uma linha de boia no Estreito de Lembeh, na Indonésia.

Fotografia de Ryan Rossotto, Nat Geo Image Collection

As lulas não são geralmente encaradas como pais dedicados – principalmente os machos, que tendem a acasalar e fugir. É por esta razão que os cientistas ficaram surpreendidos quando descobriram aquela que pode ser a primeira evidência de cuidados paternos por parte de uma pequena lula brilhante que vive em todos os recifes de coral do mundo, a lula de recife de bigfin.

Os machos desta espécie competem agressivamente pelas fêmeas e, quando um macho acasala com uma fêmea, geralmente fica por perto para evitar que outros machos acasalem com ela. Quando a fêmea está pronta para colocar os ovos fertilizados, procura uma fenda nos corais protegida das correntes e predadores e põe os ovos várias vezes no mesmo lugar. O macho continua a protegê-la durante um curto período de tempo após a fêmea acabar de pôr os ovos e depois segue a sua vida, presumivelmente para encontrar outras fêmeas para acasalar.

Mas nos mergulhos feitos recentemente no Mar Vermelho do Egito, o biólogo Eduardo Sampaio observou algo estranho: um macho dominante, que já tinha acasalado com uma fêmea, estava a afugentar os seus rivais com os tentáculos e a fazer a sua pele brilhar com listas negras. Depois, deixou a sua companheira sozinha durante breves momentos, nadou para uma potencial fenda de postura de ovos e emergiu alguns segundos depois. (Cefalópodes e inteligência: o caso do choco social)

VEJA A LULA MACHO A DESAPARECER NA FENDA


“Não sabíamos ao certo o que ele estava a fazer. Era algo que nunca tínhamos visto antes”, diz Eduardo, doutorando na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e no Instituto Max Planck de Comportamento Animal na Alemanha.

Quando Eduardo descreveu o que tinha visto a Samantha Cheng, cientista de biodiversidade no Museu Americano de História Natural, em Nova Iorque, Samantha disse que tinha registado o mesmo tipo de ação por parte de lulas de recife de bigfin macho na Indonésia em 2013. Porém, este comportamento ainda não tinha sido descrito na literatura científica relativamente a qualquer lula, polvo ou outro cefalópode.

Num novo artigo publicado na revista Ecology, Eduardo Sampaio e Samantha Cheng detalham este comportamento e explicam a sua teoria de que é um exemplo de cuidado paterno – algo que nunca tinha sido observado em lulas. A “sondagem do local”, no qual um macho investiga um potencial ninho antes de a fêmea pôr os seus ovos, é comum entre as espécies monogâmicas, mas os cuidados paternos de qualquer tipo entre os cefalópodes são extremamente raros.

Embora os cientistas ainda não compreendam a fundo este fenómeno, esta descoberta pode transformar o conhecimento que os cientistas têm sobre a reprodução das lulas. Isto revela que a dinâmica entre lulas macho e fêmea é “muito mais complexa do que pensávamos. Temos muito mais para aprender”, diz Eduardo.

As lulas macho estão investidas nos seus genes

Os cientistas compararam as imagens captadas em vídeo por Samantha na Indonésia com as imagens captadas por Eduardo no Egito e concluíram que a “sondagem do local” era intencional, não um acontecimento aleatório. E também repararam que, em alguns casos, enquanto a fêmea ficava sozinha, outros machos acasalavam sorrateiramente com ela.

Assim sendo, porque é que o macho deixaria a sua parceira? Mesmo uma breve ausência dá aos outros machos a oportunidade de acasalarem com ela. Abandonar a fêmea ameaça o seu sucesso reprodutivo, pelo que os investigadores concluíram que devia haver um bom motivo para isto acontecer.

Como os cientistas ainda não observaram realmente o que acontece no interior das fendas dos recifes, o macho podia estar a “limpar a área, certificando-se de que era um bom substrato para colocar os ovos, verificando se não havia outro macho – ou predador – à espreita, e que era um local seguro para os ovos”, diz Eduardo.

Isto sugere que as lulas macho investem mais em transmitir os seus genes do que se pensava anteriormente.

Nas lulas – e nos cefalópodes em geral – as fêmeas costumam cuidar dos ovos até estes eclodirem, limpando-os com os tentáculos e fornecendo oxigénio ao aumentar o fluxo de água em torno dos ovos. Os machos não desempenham qualquer papel. Em muitas espécies, a fêmea morre após a eclosão dos ovos.

Fernando Ángel Fernández-Álvarez, especialista em cefalópodes e investigador de pós-doutoramento no Irish Research Council e na Universidade Nacional da Irlanda, diz estar igualmente surpreendido com esta descoberta.

“Nunca vi uma coisa assim nos cefalópodes”, diz Fernando, que não participou no estudo, mas acredita que as descobertas são válidas. “Estes machos [dominantes] geralmente não se afastam muito da fêmea porque os outros machos podem acasalar com ela.”

O que se segue para a investigação de lulas?

Este novo estudo sublinha a importância de estudarmos mais o acasalamento dos cefalópodes na natureza, diz Fernando.

“Muito do que sabemos sobre o comportamento desta espécie vem dos estudos feitos em aquários e pode ser que esses ambientes artificiais sejam demasiado simples para os animais fazerem a referida sondagem do local.”

Agora, Eduardo e Samantha estão a contactar outros cientistas para perceber se as lulas de recife de bigfin noutras partes do mundo também têm este comportamento de acasalamento.

“O maior desafio ao estudar espécies que vivem numa área tão extensa é obter uma amostra abrangente e representativa. Ao unir forças com outros cientistas, economizamos tempo e ganhamos recursos para uma colaboração concertada num estudo global”, diz Samantha.

Independentemente dos resultados, não há dúvida de que as lulas – e provavelmente outros cefalópodes – têm vidas muito mais sofisticadas do que pensávamos.

“Quanto mais aprendemos sobre as lulas”, diz Eduardo, “mais maravilhados ficamos com as suas complexidades e peculiaridades”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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