Lagartixa-lusitânica, uma nova espécie portuguesa

Investigadores do CIBIO-InBIO definem a lagartixa-lusitânica, anteriormente considerada uma subespécie da lagartixa-do-noroeste, como uma nova espécie.

Publicado 6/10/2021, 14:39
Lagartixa-lusitânica

Lagartixa-lusitânica (Podarcis lusitanicus), fotografada durante o trabalho de campo no Couto do Penedo, Serra da Peneda.

Fotografia de Guilherme Caeiro-Dias

Uma equipa de investigadores desenvolveu uma pesquisa que se debruça sobre as linhagens divergentes de espécies distintas, no caso, o complexo de espécies de Podarcis hispanicus. Esta equipa internacional é liderada por investigadores do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, InBIO Laboratório Associado da Universidade do Porto (CIBIO-InBIO).

O estudo foi publicado na revista Molecular Phylogenetics and Evolution e eleva para cinco, o número de espécies de lagartixas do género Podarcis, espécies endémicas da Península Ibérica e naturalmente existentes em Portugal. A lagartixa-lusitânica (Podarcis lusitanicus), anteriormente descrita apenas como uma subespécie da lagartixa-do-noroeste (Podarcis guadarramae) alcançou, desta forma, o estatuto de espécie.

A lagartixa-lusitânica ocorre numa vasta área do noroeste peninsular, tal como acontece com a lagartixa-de-Bocage (Podarcis bocagei) e, ao contrário da distribuição da lagartixa-do-noroeste, que abrange sobretudo as montanhas do Sistema Central espanhol e áreas circundantes, estando, em Portugal, restrita a uma área fronteiriça no concelho de Sabugal.

Para além das espécies em foco no estudo existem ainda, em Portugal, a lagartixa-de-Carbnell (Podarcis carbonelli) e a lagartixa-verde (Podarcis virescens), também endémicas da Península Ibérica. 

Um belo exemplo do processo evolutivo das espécies

As lagartixas do género Podarcis, conhecidas comummente como sardaniscas, são um dos répteis mais abundantes da região do Mediterrâneo, sendo bem conhecidas dos seres humanos, pela sua circulação em muros e paredes das suas habitações.

A história desta espécie começou há cerca de 20 milhões de anos e parece ter sido particularmente rápida, logo após a chamada Crise de Salinidade do Messiniano, há quase 6 milhões de anos. Neste período, o Mediterrâneo quase secou, enchendo-se novamente com água num espaço de tempo de apenas cerca de 100 anos, cujas mudanças drásticas da época contribuíram para o surgimento de novas espécies.

As lagartixas são um bom exemplo do processo evolutivo, que resultou da evolução independente ocorrida ao longo de milhões de anos, onde diferentes espécies se encontraram e hibridaram ocasionalmente, promovendo a diversidade. Exemplo deste processo evolutivo, são as lagartixas de Ibiza, em que metade dos seus genes são provenientes de espécies de lagartixas que hoje vivem na Península Ibérica.

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Espécies são crípticas, mas distintas

A investigação visou a reconstrução da árvore evolutiva das espécies de lagartixa-lusitânica, da lagartixa-do-noroeste e da lagartixa-de-Bocage que, embora se soubesse que eram algo diferenciadas a nível genético, desconhecia-se se eram suficientemente distintas para serem consideradas espécies diferentes.

Pela reconstrução, foi possível verificar que a lagartixa-de-Bocage é facilmente distinguida morfologicamente. Além disso, os investigadores revelaram que a separação entre as três espécies ocorreu praticamente em simultâneo, seguindo-se isoladas desde essa altura, o que justifica que todas mereçam o mesmo estatuto.

As espécies mantêm-se isoladas até reprodutivamente, sendo que a capacidade de se reproduzirem entre si e produzirem híbridos viáveis foi diminuindo até ao ponto em que se justifica que as populações divergentes passem a ser consideradas espécies distintas.

Os resultados confirmam o estatuto de espécie

Para o estudo, foram utilizados dados moleculares para abordar a sistemática das duas linhagens de lagartixa-do-noroeste e de uma espécie próxima de ambas, a lagartixa-de-Bocage. A primeira etapa passou pela reconstrução da árvore de espécies.

Em segundo lugar, foi analisada a estrutura da população, através dos limites de distribuição da lagartixa-lusitânica e da lagartixa-do-noroeste servindo, ainda para comparação, uma zona de contacto entre a lagartixa-de-Bocage e a lagartixa-lusitânica.

Os resultados do estudo confirmam que todas as três formas são igualmente diferenciadas e isoladas reprodutivamente. Em consequência, concluiu-se que as duas ex-subespécies de lagartixa-do-noroeste constituem espécies válidas e devem ser referidas como lagartixa-lusitânica e lagartixa-do-noroeste.

Guilherme Caeiro-Dias é o primeiro autor do estudo, antigo aluno de doutoramento no CIBIO-InBIO, atualmente a trabalhar na Universidade do Novo México, nos Estados Unidos. A investigação contou ainda com a participação de Catarina Lopes Pinho, investigadora do CIBIO-InBIO, autora também de outros estudos e publicações sobre a grande diversidade de espécies de lagartixas.

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