Mortes misteriosas de jaguares sob investigação no Brasil

Graças às coleiras de rastreio GPS, a Polícia Federal está a investigar o possível envenenamento de dois jaguares no Pantanal.

Publicado 19/10/2021, 12:32
jaguar

Um jaguar macho emerge nas margens de um afluente do rio Cuiabá, no Brasil. Conforme os agricultores pastam os seus rebanhos no antigo território dos jaguares, os ataques ao gado não são invulgares. Em retaliação, alguns agricultores usam pesticidas para envenenar os grandes felinos.

Fotografia de Nick Garbutt / Barcroft Media, Getty Images

SÃO PAULO, BRASIL Sandro, um jaguar macho adulto, já tinha morrido há quase um mês quando o seu corpo foi recuperado.

Uma coleira de rastreio GPS levou os investigadores até aos restos mortais do animal numa área do Pantanal brasileiro conhecida por Passo do Lontra. Os investigadores estavam a monitorizar Sandro há quase um ano quando a coleira os alertou de que o jaguar tinha parado de se mover em maio.

As expedições até à maior zona tropical de pântanos do mundo exigem um planeamento e financiamento cuidadosos, pelo que só em junho é que os investigadores conseguiram finalmente deslocar-se ao terreno para descobrir o que tinha acontecido. E o que encontraram foi chocante.

Conforme rastreavam a coleira numa das mil quintas de gado da região, perscrutando a área onde tinham registado os movimentos de Sandro pela última vez, encontraram outro jaguar – não era o que estavam a monitorizar – caído morto no chão.

A apenas 50 metros de distância estava Sandro, e a sua coleira estava intacta.

Não havia marcas nos corpos dos animais – não havia sinais de que tivessem estado envolvidos numa luta ou ferimentos de balas.

“Estes dois jaguares, dois animais saudáveis, estavam mortos tão perto um do outro”, diz António Carlos Csermak Jr., veterinário e investigador da Reproduction 4 Conservation (Reprocon), a organização que rastreia os jaguares. “Foi quando começámos a suspeitar que tinham sido envenenados.”

Quando os investigadores regressaram ao local três dias depois com a Polícia Federal e agentes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) – a agência que assegura o cumprimento das leis e dos tratados ambientais federais – identificaram a última localização de GPS onde Sandro tinha passado mais tempo, provavelmente a comer. A cerca de 100 metros do primeiro jaguar que encontraram estava a carcaça de uma vaca. Espalhados por este local estavam mais 17 animais mortos: 14 abutres, duas aves de rapina Caracara plancus e uma raposa.

“Só conseguimos descobrir o envenenamento e morte destes animais porque um dos jaguares estava a ser monitorizado com uma coleira de rastreio GPS.”

por CLAUDINEI SANTI, AGENTE DA POLÍCIA FEDERAL

António Csermak e os seus colegas já tinham ouvido dizer que os agricultores, frustrados com o facto de os jaguares estarem a matar o gado, usavam pesticidas para tentar acabar com o problema. Quando os agricultores encontravam um dos seus animais mortos, cobriam-no com veneno, esperando que o jaguar regressasse para continuar a comer.

Os pesticidas sobre os quais recaem as suspeitas têm um ingrediente ativo chamado carbofurano, uma neurotoxina tão venenosa que é proibida ou muito restrita no Brasil, Canadá, União Europeia, Austrália e China, e o seu uso é proibido nas plantações de alimentos nos EUA. A equipa da Reprocon e as autoridades brasileiras suspeitam que este veneno está a ser contrabandeado através das fronteiras que o Pantanal brasileiro partilha com o Paraguai e a Bolívia. Mas nunca surgiram provas – até agora.

Devido à coleira de rastreio de Sandro, os investigadores conseguiram encontrar o seu corpo e recolher amostras de tecido – possíveis evidências de um crime. Pela primeira vez, a Polícia Federal e o IBAMA investigam a morte por envenenamento de dois jaguares no Pantanal.

Acredita-se que o Brasil seja o lar de cerca de metade dos 170.000 jaguares que ainda restam na natureza. Com uma população de aproximadamente 2.000 jaguares, o Pantanal tem uma das maiores densidades populacionais de jaguares do mundo.

O Pantanal é a maior área pantanosa do planeta, estendendo-se pelo Brasil, Bolívia e Paraguai, e é o lar de mais de 4.000 espécies de plantas e animais, incluindo a maior densidade populacional de jaguares do mundo, mas tanto cientistas como ativistas alertam que este ecossistema corre o risco de entrar em colapso.

Fotografia de CARL DE SOUZA/AFP, Getty Images

Na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da UICN, os jaguares estão classificados como quase ameaçados de extinção, com uma população em declínio. O aumento da desflorestação para clarear espaço para as atividades humanas, como a pecuária, fragmentou habitats e isolou populações de jaguares, dificultando a sua reprodução. Menos espaço disponível significa que os felinos têm menos acesso às presas, ficando sem outra opção a não ser recorrer ao gado para sobreviver. E quando o fazem, os agricultores geralmente procuram quaisquer meios disponíveis para retaliar.

Renato Raizer estava com a equipa da Reprocon quando a organização colocou pela primeira vez a coleira de rastreio em Sandro. Renato também estava com a equipa quando o corpo do jaguar foi encontrado. Este agricultor, que cuida da quinta de gado da família com o seu pai há 12 anos, diz que nunca mataria um jaguar, embora perca cerca de 50 animais devido aos jaguares todos os anos. (As marcas de garras no pescoço de uma vaca e marcas de dentadas no crânio são sinais reveladores de um ataque de jaguar.)

“Não há muito que possamos fazer”, diz Renato. “Se tivermos uma quinta pequena, talvez possamos construir uma vedação para manter o gado protegido durante a noite. Mas o que é que podemos fazer se tivermos mil, 2.000, 15.000, 80.000 cabeças de gado? Limitamo-nos a assumir as perdas. O gado pode ser nosso, mas este território também é dos jaguares.”

Nem todos pensam desta forma. Antes de a quinta onde Sandro foi encontrado estar repleta de gado, a pastagem nativa onde os jaguares e os outros animais vivem era um ponto de foco turístico. Pessoas de todo o mundo reuniam-se nesta área com a esperança de obter um vislumbre de um jaguar na selva. E geralmente conseguiam ver os animais. As margens do rio Miranda atraem mais jaguares do que a maioria das propriedades na região.

Gian Peralta, guia turístico de vida selvagem, alugou a referida quinta desde 2012 até 2019, antes de esta ser comprada pelo seu atual proprietário. Quando Gian estava lá, o negócio corria bem. Todos os dias ele via dois ou três jaguares. Por vezes, Gian atraía os animais com um instrumento que imita os sons de jaguares à procura de companheiro. Mas noutras ocasiões isso nem era necessário. Os jaguares eram facilmente avistados a descansar nas margens do rio.

Gian reparou pela primeira vez que algo estava errado no ano passado.

“Quando eu estava a percorrer a estrada de terra onde os jaguares costumam atravessar, já não encontrava pegadas”, diz Gian.

Agora, enquanto continua a trabalhar nas proximidades, recorrendo ao rio Miranda como meio de transporte, Gian diz que tem sorte se vir um jaguar por dia. E passam-se vários dias sem avistar um jaguar.

Na região de Porto Jofre do Pantanal, o gado bebe água a alguns metros de um jaguar ferido. À medida que a pastagem para o gado se expande para o habitat dos jaguares, tanto predadores como presas ficam cada vez mais próximos.

Fotografia de MAURO PIMENTEL/AFP, Getty Images

Quando Gian deixou a propriedade em 2019, aconselhou o antigo proprietário a não a vender ou arrendar a alguém que a usasse para a criação de gado, mas o proprietário ignorou o seu conselho. Gian diz que assim que ouviu falar sobre os jaguares mortos, ficou com a certeza de que tinham sido mortos lá.

Assim que esta história apareceu nas notícias, começaram os boatos. Alguns moradores e agricultores afirmam ter visto mais nove jaguares mortos na propriedade onde Sandro foi encontrado. Outros dizem que eram sete.

Mas quando a Polícia Federal executou o mandado de busca na quinta, no dia 5 de agosto, já tinham passado quase dois meses desde que os jaguares tinham sido encontrados. Como este caso foi bem divulgado, diz Claudinei Santin, o agente que chefia a investigação, a polícia tem a certeza de que os proprietários e funcionários estavam informados da sua chegada.

Não havia quaisquer evidências de outros animais mortos na propriedade e nada que provasse a presença de pesticidas com carbofurano. A polícia apreendeu os telemóveis do administrador e locatário da quinta que, de acordo com Claudinei, é o suspeito principal.

Outra busca na casa do suspeito em Campo Grande também não revelou nada. A polícia não conseguiu revistar os aposentos dos dois funcionários da quinta porque estes já se tinham mudado para trabalhar noutra quinta que fica numa área ainda mais remota do Pantanal, uma zona à qual a polícia tem dificuldade em chegar.

Um jaguar nas margens do rio Cuiabá, no Pantanal. Para além das mortes retaliatórias por parte dos proprietários de gado, os jaguares enfrentam outras ameaças devido à perda e fragmentação de habitat, sem esquecer a caça furtiva para o comércio ilegal de animais selvagens.

Fotografia de Buda Mendes/Getty Images

As amostras de tecido dos jaguares estão a ser analisadas, embora a Polícia Federal alerte que os testes provavelmente não irão detetar carbofurano devido ao nível de decomposição dos animais quando foram encontrados. Porém, a polícia tem a certeza de que os jaguares foram envenenados.

“Dada a quantidade de insetos mortos na carcaça do bovino e a distribuição dos animais mortos pelo local – quanto menor for o animal, mais perto morre da carcaça do bovino – a equipa forense da Polícia Federal concluiu que os animais morreram por envenenamento da carcaça”, diz o comunicado da Polícia Federal.

E embora esta seja a primeira vez que a polícia brasileira está oficialmente a investigar o envenenamento de jaguares, Claudinei Santin diz que as autoridades já tinham sido “alertadas sobre ocorrências semelhantes noutras quintas do Pantanal neste estado brasileiro [em Mato Grosso do Sul]”.

Matar um animal ameaçado de extinção e importar e utilizar uma substância tóxica proibida é um crime punido com uma sentença combinada de até cinco anos de prisão.

“As maiores dificuldades que temos [na investigação deste tipo de casos] residem na distância, na magnitude, no isolamento e dificuldade de acesso às quintas da região. E como podemos ver por este caso, só descobrirmos o envenenamento e morte destes animais porque um dos jaguares estava a ser monitorizado com uma coleira de rastreio GPS”, diz Claudinei.

Para outros agricultores, como é o caso de Renato Raizer, os benefícios das coleiras de rastreio vão para além da investigação de crimes. Estes dispositivos também podem agir como uma forma de dissuasão, fazendo com que os agricultores – receosos com as possíveis repercussões legais – não envenenem sequer os animais.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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