Os morcegos são os verdadeiros super-heróis do mundo animal – descubra porquê

Estes mamíferos voadores possuem um conjunto de habilidades incríveis, desde ver através do som à coexistência com vírus.

Por Mary Bates
Publicado 29/10/2021, 13:08
NationalGeographic_2749528

Um morcego raposa-voadora em cativeiro, pendurado de cabeça para baixo em Jacarta, na Indonésia.

Fotografia por Joël Sartore, National Geographic Photo Ark

O Batman pode não ter superpoderes, mas os animais nos quais se inspira certamente que os têm.

Há mais de 1.400 espécies de morcegos pelo mundo inteiro, exceto na Antártida e em algumas ilhas remotas. Qual é o segredo do sucesso destes mamíferos voadores?

Ao longo dos seus 50 milhões de anos de evolução, os morcegos desenvolveram soluções engenhosas para os desafios da vida, desde um sistema de sonar para encontrar presas até asas que possibilitam o voo horizontal mais veloz de qualquer animal na Terra.

“Ainda há muito para aprender, mas é evidente que os morcegos têm realmente superpoderes”, diz Rodrigo Medellín, ecologista do Instituto de Ecologia da Universidade Nacional Autónoma do México e Explorador da National Geographic.

“Os morcegos estão a mostrar-nos como se pode ter uma vida melhor, por exemplo, servindo como um modelo de longevidade e vida saudável.”

Superpoder #1: Ecolocalização

Apesar do mito popular, os morcegos não são cegos. Mas muitos morcegos não dependem da visão como sentido primário; em vez disso, usam a ecolocalização para navegar e encontrar comida na escuridão total.

A ecolocalização é uma forma de discernir o ambiente através do ricochetear de sons de alta frequência em objetos e ouvindo o eco resultante. A partir destes ecos, os morcegos conseguem calcular a distância, o tamanho e a forma dos objetos, como por exemplo um mosquito saboroso. Este sonar natural é tão sofisticado que alguns morcegos conseguem detetar um objeto com a largura de um cabelo humano, ou reconhecer diferenças com menos de um microssegundo de atraso num eco.

“A ecolocalização é uma forma flexível e versátil de compreender o mundo”, diz Rodrigo Medellín.

As investigações mais recentes também sugerem que os morcegos podem depender menos da ecolocalização do que se pensava anteriormente.

Aaron Corcoran, Explorador da National Geographic e biólogo da Universidade do Colorado, descobriu que os morcegos voam durante longos períodos em silêncio, aparentemente para evitar a deteção por parte de outros morcegos. Quando não estão a usar a ecolocalização, os morcegos podem recorrer à visão e à memória espacial para encontrar o seu caminho.

Os Morcegos Não São Tão Assustadores Quanto Pensamos
Quando pensamos em morcegos, muitas vezes pensamos numa imagem desfavorável. Quer seja o seu retrato assustador em filmes e literatura sobre vampiros ou o medo dos seus colegas da vida real poderem transmitir vírus, os morcegos têm uma má reputação que é na verdade mais ficção do que realidade. Veja os equívocos comuns que surgiram e como os morcegos são vitais para a nossa vida quotidiana.

Superpoder #2: Velocidade de voo

Os morcegos são os únicos mamíferos que usam os músculos para voar com o chamado voo auto-propulsado. Isto faz com que as suas técnicas de voo sejam únicas no reino animal.

As asas dos morcegos fazem lembrar mãos humanas modificadas, com “dedos” alongados que estão interligados por uma membrana flexível de pele. As asas flexíveis, repletas de vasos sanguíneos, nervos e tendões, são sustentadas por músculos que tornam os morcegos nos voadores mais ágeis e eficientes. Ao contrário das asas dos pássaros ou dos insetos, as asas dos morcegos podem dobrar de várias formas durante o voo, semelhante à forma como uma mão humana se pode fechar de várias formas.

Algumas pessoas podem ficar surpreendidas ao saber que “o voo autónomo mais veloz da Terra é o do humilde morcego Tadarida brasiliensis”, diz Rodrigo Medellín. Em 2016, investigadores no sudoeste do Texas registaram morcegos Tadarida brasiliensis a atingir velocidades de até 160 quilómetros por hora, tornando estes morcegos de 10 gramas nos mamíferos mais velozes da Terra.

Esta velocidade é superior à do falcão-peregrino, que consegue atingir velocidades de cerca de 320 quilómetros por hora quando mergulha na vertical. Em voo horizontal, o falcão-peregrino atinge velocidades de apenas 65 e 95 quilómetros por hora.

 “O falcão-peregrino está a fazer batota”, acrescenta Rodrigo Medellín, “porque usa a gravidade para acelerar”.

Superpoder #3: Longevidade

Na biologia, existe a regra de que os animais mais pequenos têm uma esperança média de vida inferior à dos animais maiores. Mas os morcegos quebram esta regra: os morcegos são os mamíferos de maior longevidade em relação ao seu tamanho corporal. O morcego mais velho de que há registo era um minúsculo morcego de Brandt na Rússia, que pesava menos de sete gramas, mas que viveu pelo menos até aos 41 anos.

Recentemente, os cientistas observaram o interior celular de morcegos para desvendar o segredo das suas vidas excecionalmente longas. Os investigadores concentraram-se nos telómeros, estruturas protetoras encontradas nas extremidades dos cromossomas. Na maioria dos animais, os telómeros tendem a encurtar com a idade, um processo que pode estar associado à degradação celular relacionada com o envelhecimento e morte. Mas os telómeros presentes no grupo de morcegos de maior longevidade, do género Myotis, não parecem encolher com a idade.

Compreender as razões pelas quais os morcegos vivem tanto tempo e permanecem saudáveis até à velhice pode um dia ajudar a prolongar a longevidade humana.

Pequenas raposas-voadoras vermelhas nos céus de Atherton Tablelands em Queensland, na Austrália.

Fotografia por Juergen Freund, Nature Picture Library

Superpoder #4: Resistência aos vírus

Para além da sua longevidade, os morcegos permanecem saudáveis ao longo da vida, com muito poucas incidências de cancro.

Os morcegos também podem ser infetados com vírus mortais, como raiva e ébola, sem adoecer. Para descobrir como o conseguem fazer, os cientistas estão a estudar a genética dos morcegos, que revela algumas pistas. Uma análise feita recentemente aos genomas de seis espécies de morcegos revelou uma disputa evolucionária de longa data entre os morcegos e os vírus. Por exemplo, os genes dos morcegos envolvidos na imunidade e na inflamação mudam periodicamente ao longo do tempo, provavelmente em resposta às infeções virais – e os vírus, por sua vez, desenvolveram formas mais aprimoradas de infetar morcegos.

Suspeita-se que os morcegos são um reservatório de vários vírus que podem infetar humanos, como o vírus Nipah, que costuma ser mortal. Apesar de alguns especialistas suspeitarem que o SARS-CoV-2, o coronavírus responsável pela pandemia de COVID-19, ter originado nos morcegos, outros especialistas questionam se os morcegos são realmente os culpados diretos.

De qualquer forma, os conservacionistas alegam que os morcegos selvagens portadores de coronavírus não representam uma ameaça para os humanos desde que não sejam perturbados. Para além disso, as investigações sobre os seus sistemas imunitários excecionais pode oferecer informações para as pessoas poderem conviver com vírus sem adoecer.

Superpoder #5: Manutenção de ambientes saudáveis

Para além das suas próprias capacidades, os morcegos também reforçam muitas outras partes dos seus ecossistemas.

Três em cada quatro espécies de morcegos comem insetos e, todas as noites, qualquer uma destas espécies pode comer o seu peso corporal ou mais em insetos. Muitos destes insetos são pragas que provocam danos em culturas agrícolas importantes, como o algodão. Os cientistas estimam que os morcegos que comem insetos podem poupar aos agricultores cerca de 23 mil milhões de dólares por ano nos EUA, reduzindo os danos nas plantações e limitando a necessidade de pesticidas.

Muitas espécies de morcegos também ajudam na saúde e diversidade de plantas: pelo menos 549 espécies de plantas são polinizadas ou dispersas por morcegos. Isto inclui muitas das culturas alimentares mais populares, incluindo banana, manga, goiaba e cacau (o ingrediente principal do chocolate).

Também podemos agradecer aos morcegos por algumas das nossas bebidas. O morcego Leptonycteris yerbabuenae, que se pode encontrar desde a América Central até à região sudoeste dos EUA, é vital para a polinização do cato agave, a partir do qual é produzida a tequila. Estes mesmos morcegos também polinizam o cato saguaro, um símbolo bem conhecido do deserto de Sonora.

“Os morcegos são os heróis anónimos da biodiversidade”, diz Rodrigo Medellín. “Estes animais fornecem serviços essenciais que garantem a nossa produção de alimentos, vestuário e bebidas. Acho que está na hora de os valorizarmos.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

Animais
Conheça o morcego que come outros morcegos
Animais
Mais de 130 anos após a sua descoberta, esta mariposa foi finalmente fotografada viva
Animais
Zangões Mordem Plantas Para Que Floresçam Mais Cedo – Surpreendendo Cientistas
Animais
Cães Vadios Percebem Naturalmente os Gestos Humanos
Animais
As origens misteriosas dos cavalos domésticos podem ter sido finalmente reveladas

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados