Recordar Ndakasi, uma adorada gorila-das-montanhas

Brent Stirton, fotógrafo da National Geographic, reflete sobre a vida de uma gorila-das-montanhas órfã.

Por Brent Stirton e Douglas Main
Publicado 14/10/2021, 14:42
Ndakasi nos braços do seu tratador

Ndakasi, uma gorila-das-montanhas, nos braços do seu tratador após doença prolongada, no dia 26 de setembro de 2021. Andre Bauma e outros tratadores no Centro de Senkwekwe cuidam de Ndakasi e de outros animais órfãos há mais de 14 anos.

Fotografia de Brent Stirton/Getty Images

Em 2007, visitei o Parque Nacional de Virunga em trabalho e estava a colaborar com um grupo de guardas-florestais que enfrentava grupos paramilitares. Recebemos a notícia de que alguns gorilas-das-montanhas, animais em perigo crítico de extinção, tinham sido mortos em circunstâncias misteriosas. Foi quando conheci Ndakasi, debaixo de uma chuva intensa. Esta gorila-das-montanhas tinha poucos meses de idade e estava agarrada ao cadáver da sua mãe, numa poça de sangue provocada pelos disparos de várias AK-47, enquanto tentava em vão amamentar-se.

Esta matança sem sentido provocou um enorme alarido naquela época – só restavam 400 gorilas-das-montanhas, embora atualmente existam pouco mais de mil animais na natureza. Ndakasi era o único membro da sua família que ainda estava vivo.

Dada a sua fragilidade, as probabilidades de sobreviver eram baixas. O guarda-florestal e tratador Andre Bauma tirou-a da chuva e usou o calor do seu corpo para a manter viva até de manhã. Foi o início de uma relação amorosa que duraria 14 anos. Andre continua a ser o tratador-chefe do Centro de Senkwekwe em Virunga, o primeiro parque nacional de África, localizado na República Democrática do Congo. Ndakasi foi enviada para Senkwekwe, onde viveu com outros gorilas-das-montanhas órfãos, todos cuidados pela equipa 24 horas por dia, sete dias por semana. O veterinário Eddy Syaluha e a equipa Gorilla Doctors [um grupo de veterinários que cuida de gorilas em perigo de extinção] têm feito milagres desde o primeiro dia.

Esquerda: Superior:

Emmanuel de Merode, diretor do Parque Nacional de Virunga, e os tratadores, incluindo Andre Bauma, observam o rescaldo da matança de gorilas em julho de 2007. Posteriormente, descobriu-se que este ataque estava relacionado com o comércio ilegal de carvão na região.

Direita: Fundo:

Em julho de 2007, os guardas-florestais encontraram o corpo de uma gorila-das-montanhas. Quando o corpo foi descoberto, a sua cria, mais tarde chamada Ndakasi, ainda se estava a tentar amamentar. Esta família de gorilas incluía um dorso-prateado, quatro fêmeas e três crias, das quais apenas uma sobreviveu: Ndakasi.

Fotografia de Brent Stirton/Getty Images

Ndakasi e Baboo, um dos tratadores, fotografados em outubro de 2013. Os tratadores vivem e dormem com os gorilas órfãos em turnos de três semanas, com uma semana de folga por mês para estarem com as famílias.

Fotografia de Brent Stirton/Getty Images

Os gorilas-das-montanhas são seres sensíveis, delicados e surpreendentemente frágeis. Estes gorilas têm personalidades, idiossincrasias. Podem estar alegres ou tristes. Exatamente como os humanos. Ndakasi partilhou todas estas coisas com os seus tratadores, homens que passam mais tempo com os gorilas do que com as suas próprias famílias. Estes órfãos conquistaram-nos e os tratadores começaram a amar os animais, muitas vezes descrevendo-os como se fossem “os seus próprios filhos”.

Apesar de uma vida inteira de cuidados extraordinários, Ndakasi desenvolveu uma doença misteriosa há cerca de seis meses, acabando por sucumbir depois de rastejar para os braços de Andre, 14 anos depois de ter sido abraçada pela primeira vez. Dizer que Andre estava arrasado seria um eufemismo.

Quando recebi o telefonema, estava noutra zona de Virunga com os líderes do parque. Estavam todos envoltos numa intensa discussão, mas quando as notícias chegaram, ficaram todos em silêncio. Foi inesperado e muito triste.

Já fiz muitos trabalhos em Virunga desde 2007, e regresso sempre a cada 18 meses, pelo que pude ver Ndakasi a crescer. Eu ficava sempre impressionado com o nível de cuidado com que Andre Bauma e os outros cuidadores a tratavam e aos três gorilas-das-montanhas que restam em cativeiro, os únicos gorilas-das-montanhas não selvagens do mundo, no orfanato em Goma.

Os tratadores no orfanato de Senkwekwe brincam com os gorilas, incluindo Ndakasi, fotografada com uma bola em novembro de 2015. Este é o único orfanato para gorilas-das-montanhas no mundo e acolhe animais que perderam as suas famílias devido à caça furtiva ou conflitos.

Fotografia de Brent Stirton/Getty Images

Andre Bauma, tratador-chefe do orfanato, ensina Ndakasi a pintar no seu recinto noturno em novembro de 2015. Os tratadores tentam estimular ao máximo os gorilas.

Fotografia de Brent Stirton/Getty Images

Estamos perante quatro tratadores que não têm doutoramentos nem são estudiosos, mas que sabem mais sobre estes animais do que qualquer académico no mundo, e não recebem o devido reconhecimento.

Os gorilas-das-montanhas são muito parecidos com os humanos e têm sociedades complexas. São animais que podem ficar deprimidos. Esta é apenas minha opinião, mas Ndakasi pode ter sentido que faltava algo... Por mais que se tente, não conseguimos replicar como é estar na natureza para estes animais. E é difícil libertá-los porque são territoriais, ou seja, os animais selvagens não iriam necessariamente aceitá-los. Nunca se conseguiu fazer algo assim.

Sei que estes tratadores fizeram tudo para a salvar. Eles trabalham com alguns dos maiores especialistas do mundo. Nós não contávamos com isto. No entanto, da mesma forma que dizemos entre humanos, Ndakasi morreu na companhia das pessoas que amava e que a amavam. Não quero antropomorfizar demasiado a questão, mas foi isto que observei.

Um tratador, cujo nome é apenas Patrick, cuida de Ndakasi. Ela já estava doente há vários meses e não comia antes de falecer em outubro de 2021.

Fotografia de Brent Stirton/Getty Images

Os veterinários Eddy Syaluha e Fabrice Malonga, acompanhados pela equipa de tratadores de Senkwekwe, fazem um exame completo a Ndakasi, que faleceu pouco tempo depois.

Fotografia de Brent Stirton/Getty Images

Quando olhamos para a sociedade dos gorilas, é mais humana do que a nossa. É atenciosa e organizada, e cuidam de todos na família. Quando a mãe de Ndakasi foi abatida, era possível observar pelos rastos na lama que o seu pai, Senkwekwe, tinha morrido a tentar defender as fêmeas.

A maior parte dos trabalhos que fiz para a National Geographic envolveu o comércio ilegal de animais selvagens, o lado negativo da relação entre humanos e animais. Mas quer eu esteja a olhar para um rinoceronte, pangolim, leão ou um elefante, o que tenho observado é que se passarmos tempo suficiente com estes animais e os tratarmos com respeito, ganhando também a sua confiança, podemos desenvolver relações incríveis. Podemos chegar a um ponto em que um elefante nos cumprimenta pela manhã, ou vem à nossa procura quando nos ausentamos, ou até mesmo mostrar onde se escondem os caçadores furtivos.

Nós conhecemos bem as relações que formamos com os cães – é possível acontecer o mesmo com muitas outras espécies. Mas ainda mais quando se trata de gorilas, que são tão parecidos connosco. Para os tratadores, e para muitas outras pessoas, estes animais eram como se fossem humanos, eram família.

Andre Bauma, autodenominado “mãe gorila”, cuida de Ndakasi no dia 2 de março de 2012. Andre levou os seus próprios filhos a verem os gorilas órfãos, aos quais chama “irmãos e irmãs”.

Fotografia de Brent Stirton/Getty Images

Um pequeno exemplo: quando Andre fazia uma pausa, Ndakasi costumava aproximar-se dele e segurava-lhe a mão. Como se fossem amigos íntimos. Há aqui algo a acontecer que ainda não explorámos. Nós criámos um mundo eles e nós, mas creio que existe potencial para humanos e animais se compreenderem melhor. Isto é apenas a ponta do icebergue em termos de possibilidades. E Ndakasi é um bom exemplo disso.

O fotógrafo sul-africano Brent Stirton é colaborador frequente da National Geographic. As suas fotografias dos assassinatos de gorilas em Virunga em 2007 venceram vários prémios, incluindo o World Press Photo e o National Magazine Award.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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