As alterações climáticas estão a reduzir o tamanho de muitas aves amazónicas

Décadas de dados revelam que os pássaros tropicais estão a desenvolver asas mais longas e corpos mais pequenos.

Publicado 16/11/2021, 12:15
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Esta ave da espécie Cyphorhinus arada, uma ave canora que é conhecida pelo seu canto distinto, é uma das diversas espécies de aves afetadas pelas alterações climáticas que vivem na floresta amazónica. Os investigadores analisaram 77 espécies que abrangem um período de quatro décadas – desde 1979 até 2019. Durante este tempo, a temperatura média na região aumentou e a precipitação diminuiu.

Fotografia de Philip Stouffer, LSU

A floresta amazónica é um lugar tão puro quanto a maioria das pessoas imagina, mas ainda assim, os efeitos de um clima em alteração estão a manifestar-se. Agora, as investigações sugerem que muitas das espécies de aves mais sensíveis da região estão a começar a evoluir em resposta ao aquecimento.

Os estudos feitos anteriormente já tinham descoberto que algumas aves da Amazónia, a maior floresta tropical do mundo, estavam a registar declínios que podiam estar relacionados com as alterações climáticas. Agora, um novo estudo examinou quatro décadas de dados sobre espécies de pássaros e descobriu que, conforme a época seca da Amazónia vai ficando mais quente e árida, algumas espécies parecem mudar fisicamente.

A Ramphocaenus melanurus é uma das aves não-migratórias presentes no estudo. Quase metade das espécies perdeu peso desde 1980, em parte porque pode ser mais fácil manter a temperatura nas aves mais pequenas. A escassez de comida também pode ser um dos fatores.

Fotografia de Cameron Rutt, LSU

As aves são frequentemente consideradas espécies sentinela – o que significa que indicam a saúde geral de um ecossistema – e os cientistas estão particularmente interessados em perceber como é que os pássaros estão a responder às alterações climáticas. Em geral, os dados não têm sido positivos. Por exemplo, um relatório de 2019 da National Audubon Society descobriu que mais de dois terços das espécies de aves da América do Norte vão ficar vulneráveis à extinção em 2100 se as tendências de aquecimento continuarem o seu rumo atual.

Para o novo estudo, os investigadores recolheram o maior conjunto de dados até agora sobre as aves residentes na Amazónia, representando 77 espécies não-migratórias e abrangendo 40 anos desde 1979 até 2019. Publicado no dia 12 de novembro na revista Science Advances, o estudo revela que 36 espécies perderam substancialmente peso, cerca de 2% do seu peso corporal por década desde 1980.  Todas as espécies mostraram alguma redução na massa corporal e um terço desenvolveu asas mais longas.

Durante o período do estudo, a temperatura média na região aumentou, ao passo que a precipitação diminuiu. As temperaturas aumentaram 1 grau durante a época das chuvas e 1,65 graus na época seca. A precipitação aumentou 13% durante a época das chuvas, mas diminuiu 15% na época seca, tornando o clima em geral mais quente e seco.

Estas alterações climáticas coincidem com as mudanças observadas na constituição das aves, segundo os investigadores, e o clima mais seco ajuda a explicar ainda mais estas mudanças.

“Este é um estudo valioso e fascinante baseado em 40 anos de dados que praticamente eram inéditos nos trópicos”, diz Cagan Sekercioglu, explorador da National Geographic, fotógrafo e ornitólogo da Escola de Ciências Biológicas da Universidade de Utah, em Salt Lake City.

“Como o estudo tem um longo período temporal e tamanhos grandes de amostra, os autores conseguiram mostrar os efeitos das alterações climáticas na morfologia das aves tropicais”, diz Cagan Sekercioglu, que não participou no estudo.

Da caça de combate a planador

Os investigadores concentraram as suas atenções em espécies de aves não-migratórias, descartando assim fatores como a exposição a diferentes habitats para a causa de quaisquer mudanças físicas. As aves presentes no estudo passam a vida inteira no bosque imperturbado da floresta tropical, logo por baixo da copa das árvores, pelo que a degradação de habitat também não é considerada.

Assim sendo, porque é que os pássaros iriam desenvolver corpos mais pequenos e asas mais longas?

Os próprios investigadores não sabem ao certo quais são as vantagens proporcionadas pelas mudanças no comprimento das asas, mas para os pássaros mais pequenos, pode ser mais fácil refrescarem-se. Em geral, os animais mais pequenos têm uma proporção maior de área de superfície em relação ao tamanho do corpo, dissipando assim calor mais depressa do que os animais maiores. Em climas mais secos, se houver menos alimentos disponíveis, como frutas ou insetos, isso pode resultar numa diminuição corporal.

A comparação com um avião pode oferecer uma explicação para as asas mais longas, diz o ecologista Vitek Jirinec, do Centro de Pesquisa de Ecologia Integral em Blue Lake, na Califórnia, que liderou o novo estudo.

“Por exemplo, um caça de combate tem asas curtas e é pesado, precisa de muita velocidade para se manter no ar, gastando assim muita energia, enquanto que um planador não usa praticamente energia para se manter no ar, porque tem asas longas e é leve.”

Cagan Sekercioglu diz que este efeito no comprimento das asas é surpreendente, sublinhando a necessidade de mais estudos noutras áreas tropicais para compreender como e porque é que as aves nestas regiões estão a responder às alterações climáticas com asas mais longas.

Um investigador examina as asas de um pinto-do-mato-coroado. Um terço das espécies presentes no estudo desenvolveram asas mais longas desde 1980. Com asas mais longas é mais fácil planar, reduzindo a quantidade de energia necessária para o voo.

Fotografia de Vitek Jirinec, LSU

Estes resultados também ecoam as descobertas feitas num artigo publicado em outubro de 2020 na Ecology Letters – um estudo sobre aves da floresta tropical que vivem mais junto ao solo – que foi liderado pelo ecologista aviário Philip Stouffer, da Universidade do Louisiana em Baton Rouge. Philip Stouffer investiga aves na Amazónia desde 1991.

Philip Stouffer e a maior parte da equipa do seu estudo fazem parte do Projeto de Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais do Instituto Smithsonian, um projeto que estuda a fragmentação ambiental na floresta tropical. Em 2008, Philip Stouffer e os seus alunos perceberam que não estavam a observar os mesmos pássaros que tinham visto nos anos anteriores na recolha de dados. E decidiram começar a recolher o mesmo tipo de dados que eram recolhidos na década de 1980, permitindo comparar medições de temperatura, precipitação e populações de aves ao longo do tempo.

O trabalho desenvolvido pela equipa de Vitek Jirinec “engloba uma série de estudos que examinaram os efeitos das alterações climáticas nas aves que vivem nos trópicos”, diz Cagan Sekercioglu.

“Como a maior parte dos ornitólogos e do financiamento para investigação está nos países desenvolvidos, que na sua maioria são temperados, há muito menos investigações sobre aves residentes nos trópicos – que abrangem a grande maioria das espécies de aves do mundo”, diz Cagan Sekercioglu.

Noutro dos poucos estudos de longo prazo sobre aves tropicais, um trabalho desenvolvido por Cagan Sekercioglu com o seu colega Bill Newmark, curador de pesquisa e biólogo conservacionista do Museu de História Natural de Utah, em Salt Lake City, a revisão de 30 anos de dados sobre 22 espécies revelou que, à medida que as temperaturas aumentam, o crescimento populacional diminui.

A história escondida no bosque

Embora a maioria das pessoas provavelmente pense em araras vistosas e noutras espécies coloridas quando se fala em aves de florestas tropicais, “a maioria das espécies, como a Grallariidae, a Formicarius analis, a Thamnophilidae e Sclerurus caudacutus tem uma plumagem bastante monótona”, diz Vitek Jirinec. Estas aves são “os verdadeiros símbolos da Amazónia primitiva, porque são altamente sensíveis à perturbação da floresta”. (Alguns animais conseguem adaptar-se às alterações climáticas – mas não suficientemente depressa.)

As aves da espécie Grallariidae, por exemplo, “que parecem um ovo sobre dois palitos”, e a Cyphorhinus arada, uma minúscula bola de pelo castanho que tem um canto impressionante, estão entre as aves que desenvolveram asas mais longas e corpos mais pequenos ao longo de gerações.

Para quem pensa que uma ligeira mudança no corpo de uma pequena ave é insignificante, Vitek Jirinec refere que as nossas ações têm consequências que nem sempre vemos, como mudar o tamanho e a forma de animais que vivem no outro lado do mundo.

“Pensamos na Amazónia como um símbolo de biodiversidade terrestre, um lugar misterioso e repleto de vida, intocado pelas pessoas, longe da desflorestação”, diz Vitek Jirinec. “Mas não é necessariamente assim.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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