As baleias comem três vezes mais do que se pensava

A baleia-azul, considerado o maior animal do mundo, pode consumir até 16 toneladas de plâncton por dia, comportamento que tem enormes implicações para a saúde do oceano.

As baleias-jubarte (na imagem vemos um animal fotografado na Califórnia) expelem grandes quantidades de fezes ricas em ferro que são vitais para o ciclo de nutrientes do oceano.

Fotografia de John Durban
Publicado 9/11/2021, 12:53

Tudo começou com uma simples pergunta: Quanto pesam as baleias-de-barbas?

Dado que as baleias-de-barbas – baleias-jubarte, baleias-francas, baleias-azuis e outras – se alimentam maioritariamente a centenas de metros de profundidade, não conseguimos observar facilmente os seus comportamentos. E não é desejável ou possível tentar responder a esta questão com animais tão enormes em cativeiro (as baleias-azuis, que podem atingir trinta metros de comprimento, são as maiores da Terra) para monitorizar os seus padrões diários de alimentação. Além do mais, algumas espécies comem vorazmente ao longo de vários meses, fazendo jejum durante o resto ano, algo que complica ainda mais o rastreio da sua ingestão de alimentos.

“Esta é uma questão tão básica que presumi que já a tínhamos respondido há 30, 40 ou 50 anos, mas afinal nunca tinha sido medida”, diz Matthew Savoca, pós-doutorando na Estação Marinha Hopkins da Universidade de Stanford, na Califórnia, e explorador da National Geographic.

Para Matthew Savoca, esta questão ultrapassava a ciência básica e a curiosidade. A quantidade de alimentos ingerida pelas baleias-de-barbas é diretamente proporcional à sua quantidade de defecação. E as fezes de baleia são um fator importante na produtividade do oceano, porque fornecem energia e nutrientes valiosos para uma vasta gama de formas de vida marinha.

Recentemente, com a ajuda de colaboradores internacionais, Matthew Savoca partiu à procura da resposta. A sua equipa usou tecnologia avançada de rastreio para acompanhar baleias-de-barbas – o nome deve-se ao material áspero que estas baleias têm nas suas placas mandibulares, que aprisionam pequenas presas como krill e zooplâncton – nos oceanos Atlântico, Pacífico e Antártico. Os investigadores também usaram drones para medir as concentrações de krill.

Os resultados, publicados no dia 3 de novembro na revista científica Nature, são impressionantes: as baleias-de-barbas comem muito mais do que se estimava anteriormente. Uma baleia-azul individual, por exemplo, come em média 16 toneladas de comida todos os dias – cerca de três vezes mais do que os cientistas pensavam.

“Este estudo mostra que as baleias-de-barbas desempenham um papel muito mais importante no nosso ecossistema do que pensávamos”, diz Sian Henley, cientista marinha da Universidade de Edimburgo, que não participou no estudo. As 14 espécies conhecidas de baleias-de-barbas são cruciais para mover nutrientes como carbono, nitrogénio e ferro pelo oceano, nomeadamente através dos seus excrementos.

As novas informações, acrescenta Sian Henley, “também nos dizem que precisamos de melhorar a proteção e gestão dos oceanos com o maior alcance possível, sobretudo no Oceano Antártico”. As águas da Antártida são particularmente vulneráveis aos impactos humanos, em grande parte devido ao aquecimento das temperaturas provocado pelas alterações climáticas e à sobrepesca, fatores que perturbam a circulação normal de nutrientes e afetam não só o krill como outras fontes de alimento das baleias-de-barbas. Isto é muito preocupante, porque estas baleias ainda estão a recuperar de séculos de atividades baleeiras.

“À medida que as baleias continuam a recuperar, o seu papel na reciclagem de nutrientes deve reiniciar o ciclo de nutrientes – e aumentar novamente a quantidade de krill.”

‘Melhor do que nada’

Para estimar a quantidade de alimentos ingerida pelas baleias-de-barbas, os cientistas analisaram as suas necessidades metabólicas com base no tamanho e nível de atividade – usando um animal estreitamente relacionado ou de tamanho semelhante como referência. Por exemplo, ao medir a quantidade de alimentos ingeridos por orcas, os biólogos extrapolaram o que uma baleia-jubarte ou azul consumiria.

“Quando analisamos o comportamento, a ecologia e a fisiologia destes animais”, diz Matthew Savoca, “uma baleia-azul e uma jubarte são muito, muito diferentes de uma orca. É melhor do que nada, mas não é realmente uma estimativa conclusiva.”

Para conduzir a investigação, a equipa de Matthew Savoca colocou dispositivos de rastreio em 321 baleias-de-barbas de sete espécies: baleias-jubarte, baleias-azuis, baleias-comuns, baleias-da-Gronelândia, baleias-anãs da Antártida, baleias-de-bryde e baleias-francas-do-atlântico-norte.

Matthew Savoca diz que os dispositivos de localização – aparelhos equipados com acelerómetros, magnetómetros, GPS, sensores de luz, giroscópios e câmaras fixas, que são fixados nas costas das baleias com uma cola especial – são uma espécie de “iPhones para baleias”. Assim como os nossos telemóveis nos podem dizer a quantidade de passos que damos por dia, os “iPhones para baleias” conseguem medir a quantidade de mergulhos que uma baleia faz e a que profundidade. As baleias-de-barbas alimentam-se geralmente durante um mergulho ou acelerando rapidamente pela água em curtas rajadas, quer seja na horizontal ou verticalmente, com a boca aberta.

Uma das baleias-jubarte acompanhada pelo novo estudo sai da água para se alimentar. Estas baleias têm placas de queratina no interior boca que filtram as presas mais pequenas.

Fotografia de Matthew Savoca

A equipa também usou drones para medir o tamanho das bocas das baleias, algo que permitiu calcular o volume de água que uma baleia consegue capturar durante as suas investidas. Um sonar para medir a densidade do krill que vive no habitat das baleias permite aos investigadores determinar a quantidade destes pequenos animais parecidos com camarões que a baleia consegue engolir em cada investida.

Ao analisar todos os dados, a equipa descobriu que os animais acompanhados pelo estudo comiam diariamente entre 5 a 30 por cento do seu peso corporal em krill. As estimativas anteriores sugeriam que as baleias-de-barbas consumiam diariamente menos de 5 por cento do seu peso corporal.

Mistério do krill desaparecido

Esta descoberta também ajuda a responder a outra questão, diz Matthew Savoca: porque é que os oceanos ao largo da Antártida não estão cheios de krill? As baleias-de-barbas, que são os predadores principais destes minúsculos crustáceos, foram quase erradicadas durante o século XX, uma era de pesca industrial de baleias que Matthew Savoca classifica como “uma das campanhas de extermínio mais eficazes da história da Terra”.

Apesar do krill ser cada vez mais utilizado pelos humanos na alimentação de peixes e em óleos ricos em nutrientes, esta indústria não é grande o suficiente para explicar porque é que as águas polares não estão a transbordar com esta fonte de alimento vital para baleias, focas e muito mais, de acordo com Matthew Savoca.

No final da década de 1980, o biogeoquímico marinho John Martin levantou a hipótese de que a escassez de ferro no Oceano Antártico estava a limitar o número de fitoplâncton, que é uma fonte primária de alimento para o krill. As plantas e animais precisam apenas de vestígios de ferro, mas não conseguem sobreviver sem o mesmo. (Existe um novo oceano – consegue nomear os 5?)

Os estudos feitos posteriormente mostraram que as fezes de baleia são alguns dos materiais mais ricos em ferro do oceano. Juntamente com a poeira vinda do Deserto do Saara e de outras fontes terrestres, esta fonte de ferro faz parte da espinha dorsal do ciclo de ferro do Oceano Antártico. Ao comer, digerir e expelir krill, as baleias retiram o ferro das profundezas do oceano e trazem-no de regresso à superfície com as suas fezes flutuantes, tornando-o utilizável para o minúsculo fitoplâncton, a principal presa do krill. Uma maior quantidade de fezes cria um ciclo de feedback positivo, porque mais fitoplâncton significa mais krill, podendo sustentar mais baleias.

Uma baleia-jubarte nas águas perto de Tonga, no Oceano Pacífico.

Fotografia de GREG LECOEUR, Nat Geo Image Collection

Com as populações de baleias-de-barbas antárticas a aumentar, sobretudo as baleias-comuns e baleias-de-minke, faz sentido que o krill ainda não tenha recuperado, diz Matthew Savoca. Mas há alguns sinais positivos: o número de baleias-jubarte no oeste do Atlântico Sul aumentou para 25.000 – em meados do século XX restavam apenas 450 indivíduos.

Não é assim tão simples

Emma Cavan, biogeoquímica marinha do Imperial College de Londres, elogia o novo estudo, mas sublinha que a afirmação de que “os números do krill estão baixos porque o número das baleias está baixo, é uma solução demasiado simples”. As alterações climáticas e a pesca também desempenham o seu papel.

Por exemplo, o clima está a mudar mais depressa nas regiões polares, e as mudanças daí resultantes – como águas mais quentes e mais ácidas – podem reduzir as populações de fitoplâncton.

Ainda assim, Emma Cavan diz que o estudo é um forte alerta de que os oceanos, para serem saudáveis, precisam de baleias – e dos seus resíduos.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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