Cobra árabe torna-se o 12.000º animal a entrar na arca de espécies em perigo

Esta imagem marco do projeto Photo Ark da National Geographic sublinha a importância dos répteis, muitos dos quais estão em perigo de extinção.

Publicado 18/11/2021, 16:28
Cobra árabe

Uma cobra árabe levanta o chamado capuz no Centro de Vida Selvagem da Arábia, nos Emirados Árabes Unidos.

Fotografia por Joël Sartore, National Geographic Photo Ark

“Eram apenas 6h45 da manhã”, diz o fotógrafo Joel Sartore – e ainda assim as suas roupas estavam completamente encharcadas – “foi como se tivesse sido atirado para uma piscina”.

Naquela manhã húmida de setembro, Joel Sartore estava deitado no chão de um celeiro a fotografar ungulados como gnus-de-barba-branca no Centro de Vida Selvagem da Arábia, nos Emirados Árabes Unidos. Nesta região, as temperaturas de outono podem chegar aos 42 graus – “É tão quente que três das quatro lâmpadas que uso para iluminar os temas fotográficos pararam de funcionar”, diz o fotógrafo.

Mas estes contratempos não são um problema para Joel Sartore, que nas duas semanas seguintes adicionou mais de 200 novas espécies nativas do norte de África e do Médio Oriente ao Photo Ark da National Geographic, um projeto que visa documentar 15.000 espécies que vivem em zoos e santuários de vida selvagem pelo mundo inteiro.

Joel Sartore já documentou animais impressionantes como a coruja-águia árabe, a chita do noroeste de África, a gazela-árabe do deserto e o leopardo-árabe – que está em perigo de extinção – no Centro de Vida Selvagem da Arábia, um santuário e reserva natural.

Joel Sartore descreve o projeto Photo Ark como “uma campanha publicitária de longo prazo em nome da natureza”, particularmente para as 35.500 espécies de plantas e animais que estão prestes a desaparecer para sempre. “Temos de manter estas questões vivas e prioritárias para fazer com que o público acorde a tempo de salvar o planeta.” Dezenas de espécies desaparecem diariamente, principalmente devido a causas influenciadas pelo homem, como destruição de habitat, poluição e alterações climáticas.

Enquanto estava a fotografar no Médio Oriente, Joel Sartore ultrapassou o limiar das 12.000 espécies, embora não soubesse qual era exatamente o animal 12.000. A cobra árabe foi o animal escolhido para representar este marco porque o Photo Ark nunca colocou um réptil nas luzes da ribalta. A 11.000ª espécie, anunciada em fevereiro, foi a mariposa Dichagyris longidens.

Os cientistas não sabem muito sobre a cobra árabe. Esta espécie comum, que é pouco avistada, encontra-se por toda a Península Arábica, incluindo os EUA, Arábia Saudita, Iémen e Omã. Até 2009, os cientistas pensavam que a cobra árabe era uma subespécie da cobra egípcia.

Tal como acontece com a maioria das cobras, a cobra árabe também levanta o chamado capuz – uma ponta de pele solta atrás da cabeça – como sinal de aviso, algo que Joel Sartore registou durante a sua sessão fotográfica. Para fotografar este animal venenoso, Joel Sartore ficou mais longe do tema do que o normal, usando uma objetiva mais longa e trabalhando mais depressa.

Depois de uma vida inteira a fotografar vida selvagem, Joel Sartore está confortável com a maioria das espécies, mas a segurança é de extrema importância. “Ninguém gostaria de ser mordido”, referindo-se à cobra árabe, uma espécie que todos os anos mata pessoas no Médio Oriente.

Joel Sartore inverteu os papéis e ficou à frente das câmaras no dia 16 de novembro, quando a cobra árabe foi oficialmente anunciada como a 12.000ª espécie do Photo Ark na série General Hospital da ABC.

“Vou receber um Emmy pelo desempenho mais fraco”, brinca Joel Sartore, “mas é por uma boa causa: estamos a apresentar animais que as pessoas nem sequer sabem que existem”.

Pressão alta

Como as cobras são excelentes a esconder-se e as suas concentrações na natureza são baixas, “podem ser objetos de estudo muito difíceis”, diz Philip Bowles, coordenador da Autoridade da Lista Vermelha de Cobras e Lagartos da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), que investiga répteis na natureza pelo mundo inteiro e determina o seu estado de conservação.

Esta cobra de 1,2 metros de comprimento tem tons acastanhados, vive em regiões rochosas e semiáridas com acesso a água doce e provavelmente alimenta-se de pequenos roedores e aves, diz Philip Bowles, que foi um dos coautores de um relatório da UICN de 2012 sobre os répteis da Península Arábica.

Apesar de compreender a escolha da cobra árabe para a 12.000ª espécie, Philip Bowles lamenta que não tenha sido selecionado outro réptil. “Não há nada de excecional sobre [esta cobra]. Não quero dizer que é trivial, mas não é uma prioridade.”

Ainda assim, Philip Bowles diz que a cobra árabe é uma oportunidade para educar o público sobre a necessidade de conservação de répteis. Existem cerca de 11.000 espécies conhecidas de répteis, e quase uma em cada cinco está em perigo de extinção. Por exemplo, o dragão-de-água-chinês, que se encontra na China e no Sudeste Asiático, foi gravemente afetado pela perda generalizada de habitat e pelo comércio de animais de estimação, ficando assim vulnerável à extinção.

As temperaturas extremas, como as que Joel Sartore sentiu, também podem ameaçar ainda mais os répteis, que são animais de sangue frio e não suportam longas exposições a ambientes quentes, diz Philip Bowles. As temperaturas médias na Península Arábica estão a aumentar mais de 0,60 graus por década devido às alterações climáticas, e a precipitação em geral está a diminuir.

Apesar da escassez de estudos que se foquem na forma como o calor pode afetar as cobras, Philip Bowles diz que algumas previsões sugerem que o aumento da temperatura pode fazer com que os lagartos – que são mais facilmente estudados do que as cobras – deixem de sair da sombra quando está demasiado calor, limitando assim as suas oportunidades para encontrar comida. “É provável que aconteça o mesmo com as cobras.”

Fim à vista

Joel Sartore, atualmente com 59 anos, pretende cumprir o objetivo de catalogar 15.000 espécies nos próximos 10 a 15 anos.

Os seus planos já incluem viagens de regresso a pontos críticos de biodiversidade como o Sudeste Asiático, Nova Guiné, Singapura e as estepes da Mongólia. (Conheça o gato-chileno – um ‘felino misterioso’ ameaçado de extinção que assinalou o animal 10.000 de Joel Sartore.)

“Na minha filosofia de vida, devemos ser completamente devotos a uma causa na qual acreditamos profundamente”, diz Joel Sartore. “Se isto não é a própria definição de uma vida bem vivida, devia ser.”

A National Geographic Society, empenhada em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou o trabalho do Explorador Joel Sartore.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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