Conforme mudam os tempos e os gostos, a indústria de bílis de urso no Vietname também desvanece

Para obter algo que já foi considerado um medicamento essencial, os agricultores passaram décadas a extrair bílis de ursos em cativeiro. Agora, estas quintas estão a encerrar – e os consumidores, na sua maioria, seguiram em frente.

Publicado 22/11/2021, 12:33
Quinta de ursos

À medida que as quintas de ursos em cativeiro encerram no Vietname, muitos consumidores de bílis de urso enquanto medicina tradicional dizem que estão “apáticos” com a disponibilidade contínua do produto, de acordo com um novo estudo.

Fotografia de MARK LEONG, Nat Geo Image Collection

Conforme as quintas de bílis de urso encerram por todo o Vietname, os consumidores dizem que estão “apáticos” sobre o uso continuado desta substância na medicina tradicional, de acordo com um novo estudo publicado na Conservation and Society.

No Vietname, a bílis era tradicionalmente obtida da vesícula biliar de ursos selvagens. A prática de criar ursos-negros e ursos-do-sol asiáticos – ambos considerados vulneráveis à extinção – começou na década de 1990 para responder à crescente demanda por bílis. Usada para tratar doenças, incluindo constipações e hematomas, a bílis de urso contém ácido ursodeoxicólico, que está clinicamente comprovado que ajuda a dissolver cálculos biliares e a tratar doenças hepáticas.

Nas quintas de bílis de urso, a negligência, as doenças e as condições desumanas são comuns, de acordo com a organização sem fins lucrativos Animals Asia. A bílis é drenada através de cateteres ou agulhas inseridas na vesícula biliar dos animais, um procedimento doloroso que por vezes é repetido diariamente. Os próprios consumidores correm o risco de ingerir bílis contaminada de ursos doentes.

Em 2005, o Vietname proibiu a venda e extração de bílis de urso, e desde então o governo anunciou a intenção de encerrar as quintas de ursos até 2025. Apesar das interdições, os agricultores foram autorizados a manter os seus ursos, desde que estivessem registados e com microchip até 2005. Uma década e meia depois de a proibição ter entrado em vigor, mais de 300 ursos ainda são propriedade privada em mais de cem quintas. E mais de 150 animais são mantidos na capital, Hanói.

Alguns agricultores deixaram os seus ursos morrer de fome ou abateram-nos, porque cuidar dos animais era demasiado dispendioso, de acordo com o grupo de defesa dos animais Free the Bears. Outros agricultores mantêm os ursos porque estão a abastecer ilegalmente o mercado de bílis, diz Barbara van Genne, chefe do departamento de resgate de animais selvagens da organização internacional sem fins lucrativos Four Paws. A aplicação negligente da lei por parte do Departamento de Proteção Florestal do Vietname permitiu que a bílis de urso permanecesse disponível, diz Barbara van Genne. E alguns agricultores também podem ter ligações pessoais com os seus ursos.

O Departamento de Proteção Florestal do Vietname não respondeu aos pedidos para comentar.

A bílis produzida em cativeiro está a escassear no Vietname. Oficiais do governo têm verificado quintas à procura de ursos não registados, mas a pouca procura fez cair o preço da bílis. Muitos ursos nestas quintas morreram devido a negligência ou problemas de saúde.

Os ursos também são caçados ou criados para a extração de bílis noutros países, incluindo Mianmar, Laos e Coreia do Sul. A China é de longe o maior mercado legal, abastecido por milhares de ursos de criação, de acordo com a Animals Asia. Em março de 2020, o governo chinês promoveu o uso de uma injeção com bílis de urso para tratar os casos graves de COVID-19. (O governo chinês não respondeu aos pedidos para comentar no ano passado.)

Sondagem com os consumidores vietnamitas

Os autores do novo estudo entrevistaram mais de 2.400 participantes em sete regiões do Vietname. Cerca de 31% disseram que já tinham usado bílis de urso. Os hematomas, dores nas articulações, dores de estômago e problemas pós-parto são geralmente o alvo dos tratamentos com bílis. Bebidas espirituosas à base de bílis de urso também são por vezes consumidas socialmente. Menos de 1% dos participantes na sondagem – apenas 22 indivíduos – disseram que tinham consumido bílis de urso selvagem durante os últimos doze meses.

A pouca taxa de utilização tem muito que ver com a falta de interesse, diz Brian Crudge, coautor do estudo, ecologista e diretor regional da organização Free the Bears. Quando questionados sobre o que iriam fazer após o encerramento das quintas de ursos no Vietname, muitos participantes pareceram despreocupados. “[Eu] nunca mais vou usar bílis de urso” e “eu já não usava muito bílis de qualquer maneira” foram as respostas de alguns entrevistados. Esta tendência está alinhada com o encerramento recente de quintas por todo o país. De acordo com a Four Paws, 34 das 58 províncias anunciaram que não tinham ursos de criação.

Quando questionados sobre o que iriam fazer após o encerramento das quintas de ursos, alguns participantes responderam: “[Eu] nunca mais vou usar bílis de urso” e “eu já não usava muito bílis de qualquer maneira.”

Fotografia de Free the Bears

Brian Crudge interrogava-se sobre o que os consumidores iriam fazer quando já não houvesse mais bílis de ursos de criação. Brian receava que as pessoas recorressem à bílis de ursos-negros ou ursos-do-sol, levando ao aumento da caça ilegal. Mas, aparentemente, não é isso que está a acontecer, em parte porque a perda de habitat e as mortes ilegais reduziram drasticamente as populações selvagens nas últimas décadas – e porque a procura por bílis parece de facto estar a diminuir.

A bílis de ursos selvagens tornou-se “cada vez mais numa coisa de nicho”. Na sondagem, só os habitantes da província central de Nghe An é que disseram ter usado bílis durante os últimos doze meses. A falta de popularidade da bílis de ursos selvagens foi uma surpresa, diz Brian Crudge, porque no passado os consumidores vietnamitas demonstraram sempre uma forte preferência por bílis.

Alternativas sintéticas e naturais

Muitos dos entrevistados disseram acreditar na eficácia da bílis de urso, mas também indicaram uma “forte preferência” por bílis sintética, que é produzida desde os anos 1950.

“Considerando o tempo que estes ursos estiveram a sofrer nas quintas, e considerando a apatia das pessoas em relação ao tema, já podíamos ter acabado com isto há muito tempo”, diz Brian Crudge. “É menos um motivo para manter os ursos nas quintas, isto se as pessoas estiverem dispostas a usar as alternativas.”

Durante mais de uma década, Tuan Bendixsen, diretor da organização Animals Asia no Vietname, tem liderado uma campanha para promover os tratamentos herbais em vez de bílis de urso. Tuan Bendixsen, que não participou no novo estudo, diz que foi particularmente gratificante observar que 15.7% dos entrevistados disseram usar uma alternativa à base de plantas chamada cỏ mật gấu, ou “planta da bílis de urso”, para tratar hematomas e inflamações. A Animals Asia teve conhecimento desta alternativa através da Associação de Medicina Tradicional do Vietname, que fez um compromisso para os seus médicos deixarem de prescrever bílis de urso em 2020.

A equipa de Tuan Bendixsen compilou e divulgou um livro que lista as alternativas à bílis de urso (incluindo canela, cardo japonês e ruibarbo) para doenças como constipações, gripe e dores nas articulações. E providenciaram clínicas de saúde gratuitas e plantaram jardins de ervas.

“O estudo feito pela equipa de Brian Crudge é uma espécie de validação de que estamos no caminho certo”, diz Tuan Bendixsen. “O trabalho que estamos a fazer está a começar a dar frutos.”

De acordo com Brian Crudge, levando em consideração as descobertas feitas no Vietname, onde outrora a bílis de urso era considerada um medicamento essencial, o potencial para reduzir a sua procura deve ser examinado noutros países. Será que as pessoas na China estariam dispostas a aceitar alternativas? “Creio que existe potencial para expandir esta investigação e descobrir a resposta”, diz Brian Crudge.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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