Este felino selvagem africano adaptou-se de forma surpreendente à vida na grande cidade

Os linces-do-deserto aprenderam a caçar nos limites urbanos da Cidade do Cabo, mas estes predadores enfrentam diversas ameaças, como atropelamentos.

Publicado 15/11/2021, 14:18
Lince-do-deserto

Hermes é um lince-do-deserto macho bem conhecido que se habituou às pessoas.

Fotografia de Jay Caboz

CIDADE DO CABO, ÁFRICA DO SUL –  O lince-do-deserto estava aparentemente calmo no trilho à nossa frente, estava a observar o nosso grupo de três caminhantes a subir a encosta da montanha numa noite quente de outubro.

As luzes da Cidade do Cabo piscavam por baixo, enquanto a parede rochosa da Table Mountain se tornava mais íngreme. Ficámos imóveis, esperando que o animal recuasse. Em vez disso, passou tranquilamente por nós, com as luzes dos nossos frontais a iluminar o seu pelo alaranjado; olhos redondos; e orelhas pontiagudas bastante distintas com longos tufos pretos em cima. Parando para olhar brevemente para trás, o felino desapareceu nos arbustos.

Soubemos imediatamente que era Hermes – um lince-do-deserto (ou caracal) que está habituado aos humanos e que é frequentemente avistado pelos caminhantes e praticantes de desporto nos trilhos do Parque Nacional de Table Mountain, um parque de 25.000 hectares que fica no interior da capital sul-africana. Este lince-do-deserto, que se acredita ter quatro ou cinco anos, tornou-se numa espécie de rosto para o movimento de conservação de vida selvagem na Cidade do Cabo, uma cidade na Península do Cabo cuja população cresceu de 1.1 milhões em 1970 para os 4.7 milhões da atualidade. Esta metrópole costeira, com a sua montanha no meio da cidade, hospeda uma infinidade de vida selvagem urbana, desde babuínos a cobras e pinguins.

Estes tímidos felinos, que geralmente preferem a escuridão da noite, encontram-se em várias paisagens de África e da Ásia – e não correm perigo de extinção. Mas os linces-do-deserto da Cidade do Cabo são notáveis de outra maneira: são o predador de topo da região, já que os leopardos foram caçados até à extinção na Península do Cabo no início do século XX. Nativos desta península, só recentemente é que foram registados linces-do-deserto a aventurarem-se pelas áreas mais urbanas, provavelmente atraídos por presas fáceis de capturar, como ratos-de-vlei-sul-africanos e galinhas-d'Angola, diz Gabriella Leighton, investigadora da Universidade da Cidade do Cabo que liderou recentemente um artigo sobre o comportamento destes felinos. Os cientistas estimam que existem cerca de 60 linces-do-deserto na Península do Cabo.

“São predadores oportunistas – apanham o que for mais fácil”, diz Gabriella Leighton.

Hermes deambula pelo Parque Nacional de Table Mountain.

Fotografia de Hilton Davies

Conforme estes felinos impressionantes de meio metro de altura se foram habituando às pessoas, começaram a ser vistos por todas as áreas naturais da cidade, desde trilhos apinhados de gente até ao Jardim Botânico Kirstenbosch e à famosa praia de Clifton durante o pôr do sol.

Muitos dos felinos – sobretudo os que estão mais a norte, na parte mais desenvolvida de Table Mountain (onde encontrei Hermes) – preferem caçar em torno da periferia urbana, que inclui subúrbios, estradas e vinhas. Mas é um comportamento arriscado, porque estas áreas representam uma ameaça para os animais, que são atropelados por carros – a principal causa de morte de linces-do-deserto na Cidade do Cabo. Estes felinos também enfrentam outras pressões, embora em menor grau, e podem ser envenenados, atacados por cães ou presos em armadilhas, diz Laurel Serieys, bióloga de vida selvagem da organização conservacionista Panthera, que em 2014 fundou o Projeto Urban Caracal da Universidade da Cidade do Cabo. A falta de diversidade genética devido ao desenvolvimento urbano que rodeia este animal também é uma enorme ameaça para o futuro dos linces-do-deserto da cidade.

“Ainda assim, os linces-do-deserto conseguem adaptar-se à atividade humana de formas inesperadas”, diz Laurel Serieys, como por exemplo ajustar o comportamento para evitar ser visto por pessoas nas áreas mais movimentadas. “Isso foi uma surpresa muito interessante.”

As investigações também mostram que os linces-do-deserto que estão na parte menos desenvolvida da região sul da península tendem a evitar as periferias urbanas, mostrando como o seu comportamento muda em diferentes condições.

Até agora, a maioria dos habitantes da Cidade do Cabo tem acolhido bem os linces-do-deserto, adotando papéis de cientistas cidadãos para relatar os seus avistamentos (bem como os animais atropelados na estrada) para o Projeto Urban Caracal. Embora alguns linces-do-deserto já tenham matado gatos de estimação, as investigações mostram que os felinos da Cidade do Cabo caçam maioritariamente presas selvagens.

Estabelecer as bases

Até 2014, ninguém tinha estudado os linces-do-deserto desta península, diz Laurel Serieys, em grande parte porque as pessoas duvidavam que estivessem sequer lá. Laurel Serieys teve de convencer os Parques Nacionais da África do Sul a concederem-lhe uma licença para estudar uma população que alegadamente não existia em Table Mountain.

Desde então, Laurel Serieys e os seus colegas aprenderam mais sobre os movimentos, dieta, genética e ameaças enfrentadas por estes felinos urbanos. Os investigadores equiparam 26 linces-do-deserto com coleiras GPS, realizaram necropsias, montaram armadilhas fotográficas pela cidade e recolheram fotografias e vídeos de avistamentos feitos pelo público.

“É importante estar no terreno e aprender o que existe lá, saber quais são as ameaças existentes para estes animais”, diz Laurel Serieys.

Até agora, os resultados mostram que as colisões com veículos são responsáveis por mais de 70% das mortes de linces-do-deserto registadas na Cidade do Cabo entre 2015 e 2020. A morte por envenenamento é outro dos perigos: entre os animais mortos que foram testados pela equipa, 92% tinham consumido rodenticidas anticoagulantes, cuja exposição é geralmente mortal.

Os linces-do-deserto também ficam presos em armadilhas cujo objetivo é capturar presas mais pequenas, ou são vítimas de cães, que também podem transmitir doenças como o parvovírus canino, de acordo com Laurel Serieys.

Em janeiro, para reduzir os atropelamentos, a equipa do projeto instalou sinais refletores a indicar a presença de linces-do-deserto ao longo dos sete locais mais comuns de atropelamentos na Cidade do Cabo, embora ainda não tenha recolhido dados para mostrar se esta ação está a contribuir para a redução de mortes. A equipa também sugeriu que a cidade colocasse lombas de velocidade nos locais mais frequentes de travessia de linces-do-deserto.

Proteger pinguins ameaçados

Apesar dos animais domésticos representarem menos de 4% da dieta dos linces-do-deserto, há um estudo que diz que alguns habitantes da Cidade do Cabo não são a favor da presença destes felinos selvagens.

Muitos dos habitantes da cidade habituaram-se a conviver com os linces-do-deserto, mantendo os seus animais de estimação dentro de casa durante a noite ou erguendo “catios”, espaços fechados onde os seus gatos podem desfrutar do ar livre em segurança. Ambas as medidas são recomendadas pelo Projeto Urban Caracal.

Os linces-do-deserto aprenderam a viver escondidos à vista de todos na periferia urbana, uma área que inclui subúrbios, vinhas e estradas.

Fotografia de Luke Nelson

Em algumas das chamadas eco-propriedades da Cidade do Cabo – empreendimentos residenciais suburbanos que se autopromovem como sendo ecológicos – os donos exigiram a remoção dos linces-do-deserto daquela área, tanto em reuniões de bairro como nas redes sociais.

Apanhar um lince-do-deserto para o libertar num local diferente raramente funciona, de acordo com os biólogos do Projeto Urban Caracal, em parte porque esse felino será muito provavelmente substituído por outro.

Foi exatamente isso que aconteceu em 2016 na praia de Boulders, uma zona do Parque Nacional de Table Mountain, num subúrbio a sul da Cidade do Cabo, que abriga uma colónia de 2 a 3 mil pinguins-africanos em perigo de extinção.

Um lince-do-deserto fêmea que tinha encontrado a colónia de pinguins foi capturada e levada para outro lugar, mas estabeleceu-se numa área próxima do local onde foi libertada. Contudo, a sua cria masculina substituiu a mãe na colónia e evitou a captura durante quase um ano, matando cerca de 260 pinguins. Este animal acabou por ser levado para uma reserva natural perto da baía, mas poucos dias depois abandonou a área protegida e foi atropelado por um carro.

Felizmente, não há evidências de que os linces-do-deserto procurem ativamente os pinguins, mas quando encontram uma colónia, “é como uma criança a entrar numa loja [de doces]”, diz Gregg Oelofse, chefe do departamento de gestão ambiental costeira da Cidade do Cabo. A cidade trabalha em parceria com os Parques Nacionais da África do Sul em questões como atividades predatórias dos linces-do-deserto em Boulders, uma vez que estas envolvem a cidade e o parque.

Atualmente, se um lince-do-deserto invadir a colónia de pinguins, o protocolo envolve a sua captura e eutanásia, porque os pinguins são prioritários em termos de conservação. No entanto, esse é o pior cenário, diz Gregg Oelofse, e a prevenção é o foco.

Para trabalhar preventivamente, a cidade instalou uma vedação à prova de predadores. Até agora, esta vedação tem sido um sucesso a dissuadir os animais.

Com o seu telemóvel, Gregg Oelofse mostrou-me imagens captadas pelas armadilhas fotográficas ao longo da vedação: numa das imagens, um lince-do-deserto limita-se a passear ao longo da vedação longe da costa, como se pretende. Noutra imagem, eu nem sequer consegui ver o felino bem camuflado, até que Gregg Oelofse apontou para um par de orelhas pontiagudas.

Sem espaço para vaguear

Enquanto população isolada, os linces-do-deserto também estão ameaçados pela sua pouca diversidade genética. Laurel Serieys tem dados que ainda não foram publicados e que mostram que os cerca de 60 linces-do-deserto da península são consanguíneos – algo que reduz a saúde da população local, colocando-a eventualmente em extinção.

Isto acontece porque os terrenos em torno de Table Mountain foram desenvolvidos até um ponto em que a maior parte da vida selvagem está retida, não conseguindo dispersar para o interior ou exterior da montanha nem expandir a sua diversidade genética.

O último corredor viável de passagem em Table Mountain é uma faixa estreita que rodeia False Bay, mas também é um local potencial para o desenvolvimento residencial.

“Queremos manter estes corredores e espaços verdes, mas também temos de fazer concessões para permitir que as comunidades [se desenvolvam]”, diz Gregg Oelofse. É algo que faz parte da eterna luta para “tentar encontrar um bom equilíbrio” entre humanos e vida selvagem.

E para o raro lince-do-deserto que consiga chegar à península vindo de fora da cidade, reivindicar uma área para viver e depois procriar vai ser “extremamente difícil” entre os indivíduos já estabelecidos, diz  Laurel Serieys.

“Os linces-do-deserto da Cidade do Cabo ainda têm muitos desafios pela frente.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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