Os inseticidas podem reduzir a fertilidade das abelhas, afetando várias gerações

Uma só aplicação de um inseticida neonicotinoide pode afetar as abelhas e os seus descendentes.

Por Douglas Main
Publicado 29/11/2021, 11:37
Abelha azul

As chamadas abelhas azuis são polinizadoras cruciais de árvores de fruto e muitas espécies nativas de plantas.

Fotografia por Jennifer Bosvert, Alamy Stock Photo

A chamada abelha azul é uma amiga muito atarefada das árvores de fruto – poliniza maçãs, cerejas, amêndoas, pêssegos e muitas outras culturas. E também poliniza muitas plantas com flor nativas dos Estados Unidos.

Apesar de ter praticamente o mesmo tamanho de uma abelha, a abelha azul é bastante diferente e tem um brilho metálico azulado, um estilo de vida solitário e preferência por transportar pólen nas pilosidades do estômago, em vez de nas patas.

Estas abelhas, tal como muitos outros polinizadores, são vitais para a agricultura e extremamente vulneráveis a um tipo de pesticida chamado neonicotinoide.

Agora, uma nova investigação mostra que um dos produtos químicos agrícolas mais usados, um neonicotinoide chamado imidaclopride, não só afeta imediatamente as abelhas azuis, como também tem efeitos negativos que podem ser observados ao longo de gerações.

Conforme descrito num estudo publicado no dia 22 de novembro na Proceedings of the National Academy of Sciences, as descendentes de abelhas capturadas na natureza, que foram expostas a pequenas quantidades de imidaclopride ainda em larvas – através de pólen contaminado e néctar que receberam das suas mães – produziram menos 20% descendentes do que as abelhas azuis que não foram expostas ao inseticida. Algumas das abelhas foram expostas mais de uma vez ao longo da vida e cada exposição reduziu adicionalmente a sua fertilidade.

“Os efeitos são cumulativos – não basta olhar para uma exposição”, diz Clara Stuligross, líder do estudo e doutoranda na Universidade da Califórnia, em Davis.

Isto é importante, uma vez que as abelhas costumam encontrar pesticidas repetidamente ao longo das suas vidas. Estes efeitos acumulados e multigeracionais não são tidos em consideração nas avaliações de risco ambiental, que avaliam os danos provocados por pesticidas e são usadas pelos legisladores para regular os produtos químicos, diz Clara Stuligross.

Uma abelha azul na entrada do seu ninho. Na natureza, estes insetos nidificam em cavidades já pré-existentes, mas também usam túneis artificiais, como este ninho feito por investigadores. As fêmeas fornecem pólen e néctar às suas proles e selam os ninhos com lama.

Fotografia por Clara Stuligross

O novo estudo vem juntar-se a uma série de evidências abundantes de que os neonicotinoides desempenham um papel no declínio das abelhas e de outros insetos – a novidade é a sugestão de que os efeitos podem persistir ao longo de gerações, diz Steve Peterson, investigador, apicultor e proprietário do Foothill Bee Ranch, no norte da Califórnia, que cria abelhas azuis e outras espécies.

“Estas descobertas confirmam o que muitos de nós, apicultores, suspeitamos que está a acontecer nos campos agrícolas”, diz Steve Peterson, que não participou no estudo. “Nas últimas décadas temos observado declínios acentuados em todos os tipos de insetos e muito disso pode dever-se aos resíduos de pesticidas no ambiente.”

As abelhas também estão ameaçadas devido ao aquecimento global e às alterações climáticas, ou parasitas como ácaros e patógenos, e pela perda de diversidade de plantas associada ao desenvolvimento e a outros fatores. O declínio das abelhas é dramático: um estudo feito recentemente descobriu que 25% das espécies de abelhas de que há conhecimento não são avistadas desde a década de 1990.

Abelhas e químicos

As abelhas azuis (Osmia lignaria) fazem os seus ninhos em buracos escavados por outros insetos, cavidades de árvores ou, por vezes, no solo. As fêmeas colocam vários ovos, cada um na sua própria câmara de argila, erguendo paredes com lama para formar passagens de argila.

Depois de emergirem no início da primavera, estas abelhas passam alguns dias a alimentar-se antes de acasalar. Depois, as fêmeas põem os ovos e abastecem cada um com uma bola de pólen e néctar. Algumas semanas depois, as fêmeas morrem. Mas as suas larvas desenvolvem-se durante o verão e emergem do ninho na primavera seguinte, reiniciando o ciclo.

Esta explosão de polinização no início da primavera é vital para muitas árvores de fruto: as abelhas azuis são polinizadoras mais eficientes do que as abelhas, pois são mais eficazes a movimentar grandes quantidades de pólen.

No estudo, Clara Stuligross e os seus colegas criaram gaiolas de voo ao ar livre para dezenas de abelhas azuis com uma mistura de plantas com flor. Em algumas das gaiolas de voo, cinco semanas antes de as abelhas serem libertadas, os cientistas encharcaram o solo com a fórmula de imidaclopride mais usada na Califórnia, um produto chamado AdmirePro, produzido pela Bayer Crop Science.

Os cientistas aplicaram o nível máximo do pesticida recomendado no rótulo, simulando as condições vividas no mundo real. Um porta-voz da Bayer respondeu aos pedidos da National Geographic para comentar e concorda que os níveis de imidaclopride usados neste estudo são “relevantes para o terreno”, mas que os resultados do estudo “não são relevantes” porque “o rótulo do produto proíbe a sua aplicação antes e durante o brotar das flores”.

Apesar de este inseticida ser geralmente aplicado em colheitas como amendoeiras após a floração, Clara Stuligross responde que estes produtos são usados o ano inteiro em ambientes agrícolas – e a investigação mostra que as abelhas azuis nas amendoeiras, por exemplo, continuam expostas ao imidaclopride durante o seu curto período de vida adulta e apresentam os níveis observados no estudo.

Depois de libertadas, as abelhas continuaram a viver nas gaiolas de voo durante algumas semanas, polinizando flores, construindo ninhos e recolhendo néctar e pólen para as suas crias. Mas o inseticida já tinha sido absorvido pelas flores e estava presente em todos os seus tecidos corporais.

“As abelhas ficam expostas através do pólen e do néctar”, diz Clara Stuligross. “A natureza sistémica dos neonicotinoides (que se incorpora nos tecidos vegetais, em vez de matar os insetos através do contacto) torna estes químicos ‘tóxicos, mas eficazes’ para matar determinadas pragas, como pulgas – mas também afeta inadvertidamente os polinizadores.”

Steve Peterson acrescenta que as abelhas também podem estar a ficar expostas através do solo, já que estes insetos usam lama para fazer os seus ninhos.

Os neonicotinoides matam os insetos ligando-se às suas células nervosas e evitando a transmissão de impulsos elétricos. Mas são menos tóxicos para os mamíferos, apesar de serem prejudiciais para muitos invertebrados, incluindo os aquáticos, como os crustáceos e o plâncton que formam a base dos ecossistemas de água doce.

Os investigadores usaram um padrão de estudo cruzado no qual algumas abelhas foram expostas apenas enquanto larvas ao imidaclopride presente no pólen e no néctar transportado pelas suas mães a partir de plantas que foram tratadas ao nível do solo. Outras abelhas foram expostas enquanto larvas e adultas; outras apenas enquanto adultas; e algumas nem sequer foram expostas.

Uma abelha azul (Osmia lignaria) alimenta-se de uma flor silvestre nativa chamada Phacelia tanacetifolia. Quando as abelhas procuram pólen e néctar nas flores, podem ficar expostas a inseticidas que são depois passados aos seus descendentes. As marcas pintadas nas abelhas ajudam os investigadores a diferenciá-las para avaliar o seu comportamento de nidificação e reprodução.

Fotografia por Clara Stuligross

A equipa descobriu que cada exposição reduzia a fertilidade com um efeito cumulativo. As abelhas expostas apenas enquanto larvas tiveram uma redução de 20% na sua fertilidade comparativamente com os insetos não expostos. As abelhas expostas no início e final de vida tiveram um declínio de 44%. Como as abelhas têm cerca de duas dezenas de descendentes, isso traduz-se numa diferença de 10 abelhas. As abelhas expostas apenas na idade adulta tiveram um declínio de 30%.

Os investigadores ainda não sabem de que forma é que o imidaclopride afeta a fertilidade, mas não é surpreendente que um veneno que afeta o sistema nervoso central possa apresentar estes resultados.

“Estes efeitos são bastante dramáticos”, diz Clara Stuligross, “e são certamente um dos motivos pelos quais algumas abelhas estão a desaparecer em algumas áreas”.

“Este estudo mostra que o uso atual de imidaclopride vai ter repercussões nas futuras gerações de abelhas muito depois de o pulverizador ter abandonado o campo”, diz Charlie Nicholson, investigador de pós-doutoramento na Universidade de Lund, na Suécia. “E estas repercussões não são atualmente tidas em consideração na avaliação dos produtos químicos.”

“É um exemplo claro de como o passado está presente em termos ecotoxicológicos. Num exemplo mais abrangente, estas descobertas também me fazem considerar que o trauma geracional não é exclusivo dos humanos.”

Evidências de danos

Todas as evidências continuam a mostrar que os neonicotinoides usados nos EUA são nocivos para os insetos. Apesar de os estudos feitos anteriormente se terem concentrado particularmente nos efeitos letais, há mais dados que mostram efeitos secundários preocupantes. Por exemplo, um artigo publicado recentemente descobriu que o imidaclopride reduz bastante a fertilidade nas abelhas solitárias; e outro estudo descobriu que este químico reduz a atividade nas mitocôndrias das abelhas, onde é gerada a energia celular.

Na União Europeia é proibida a utilização de neonicotinoides ao ar livre como o imidaclopride, precisamente devido aos danos que provocam aos polinizadores e a outros insetos. Muitos apicultores e investigadores não conseguem perceber porque é que este produto ainda é legal nos EUA.

“Espero que a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos faça a revisão de estudos como este e considere cuidadosamente estes tipos de efeitos nas suas avaliações de risco”, diz Steve Peterson. “Acredito que os estudos multigeracionais e de contacto indireto são indispensáveis enquanto parte da avaliação de risco dos pesticidas.”

“Precisamos de fazer mais para ajudar as abelhas, sobretudo nestas paisagens [agrícolas] em particular”, diz Clara Stuligross. Uma forma simples de as ajudar é usar menos pesticidas e, sempre que possível, cultivar plantas nativas.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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