Os parasitas podem ser repugnantes, mas mantêm a coesão dos ecossistemas

Desde vespas a vírus, os parasitas são elos cruciais para uma cadeia alimentar saudável.

Publicado 30/11/2021, 12:29
Parasitas na barbatana de um peixe

Parasitas platelmintos agarram-se à barbatana caudal de um peixe tilápia azul.

Fotografia de JOEL SARTORE, NATIONAL GEOGRAPHIC PHOTO ARK

Muitas pessoas sentem repulsa por parasitas, e poucas partilhariam intencionalmente o seu corpo com parasitas. A própria palavra “parasita” – que tem origem na palavra grega para “alimentar-se juntamente com” – é suficiente para arrepiar-nos.

“Mas o parasitismo merece mais respeito enquanto forma de vida excecionalmente bem-sucedida”, diz Jimmy Bernot, biólogo evolucionário do Museu Nacional de História Natural Smithsonian, em Washington. Quer sejam animais, plantas, fungos, bactérias ou vírus, todos podem ser parasitas – desde morcegos vampiros a tamboris de águas profundas, cujos machos minúsculos se ligam permanentemente às fêmeas.

O parasitismo é uma forma de simbiose – uma relação estreita entre dois organismos. Apesar de alguns parasitas chamados parasitoides serem mortais para os seus hospedeiros, muitos não provocam grandes problemas. Alguns até protegem os seus hospedeiros de outros parasitas, como vírus que escudam bactérias contra antibióticos – más notícias para quem toma penicilina, mas boas notícias para o pequeno patógeno.

Os parasitas recolhem nutrientes dos seus hospedeiros de várias formas: alguns, os chamados ectoparasitas, bebem literalmente o sangue ou comem a pele dos seus hospedeiros. Outros, os chamados endoparasitas, instalam-se no interior dos seus hospedeiros – como ténias ou moscas Oestridae. (Descubra um parasita que controla a mente e torna as crias de hiena mais imprudentes perto de leões.)

Não existem estimativas concretas sobre a quantidade de espécies de parasitas que existem no mundo, mas alguns especialistas acreditam que há muito mais espécies de parasitas do que animais de “vida livre” – e a maioria dos parasitas provavelmente ainda não foi descoberta.

Uma pessoa remove uma sanguessuga do braço na Área de Conservação do Vale Danum do Bornéu, na Malásia.

Fotografia de MATTIAS KLUM, Nat Geo Image Collection

Como os parasitas se infiltraram em todos os aspetos da vida, não é surpresa que a sua estratégia já exista há muito, muito tempo. A primeira interação parasita-hospedeiro de que há conhecimento no registo fóssil é a de um verme que roubava comida a um braquiópode parecido com um molusco, há 515 milhões de anos.

“Quando desenvolvemos cadeias alimentares ou redes ecológicas, percebemos que, em alguns casos, os parasitas constituem mais de metade das ligações entre as espécies”, diz Mackenzie Kwak, parasitologista da Universidade Nacional de Singapura. “Portanto, a cola que mantêm estes ecossistemas unidos são os parasitas.”

Para além das sanguessugas

As sanguessugas, um tipo de verme, podem ser os parasitas mais conhecidos. Existem cerca de 700 espécies de sanguessugas, mas apenas cerca de metade suga sangue. As sanguessugas vivem em todos os lugares da Terra, exceto na Antártida terrestre – mas os oceanos em torno deste continente polar têm sanguessugas com tentáculos que parecem dedos.

Porém, os parasitas conseguem ser ainda mais engenhosos. Por exemplo, as moscas-sapeiras preferem viver nas narinas de anfíbios, mas também há piolhos que comem línguas – criaturas marinhas que se agarram à língua de um peixe, um dos poucos exemplos de um parasita que substitui literalmente o órgão de um hospedeiro.

Para além de viverem às custas dos seus hospedeiros, os parasitas desenvolveram formas de os esterilizar, aceder e controlar o seu sistema imunitário ou até mesmo alterar o seu comportamento. Alguns fungos Cordyceps, por exemplo, transformam os seus insetos hospedeiros, como formigas, em “zombies”, forçando-os a subir muito acima do solo – um local perfeito para dispersar os esporos do fungo – antes de os matarem. Os esporos caem depois no chão, pousando sobre um novo inseto, reiniciando o ciclo.

Alguns parasitas também roubam recursos indiretamente. O cuco comum, por exemplo, é uma ave parasita que se livra de outros organismos para criar a sua prole. Ao colocar os ovos no ninho de outro pássaro, o cuco força a outra ave a cuidar das suas crias por conta própria.

Pequeno, mas poderoso

Alguns parasitas, apesar de pequenos, podem ter efeitos gigantescos nos seus ecossistemas. A humilde Rhinanthus minor é uma planta parasita nativa da Europa que finca as suas raízes nas ervas e bebe toda a água até estas secarem.

“Basicamente, quando não há plantas destas nos prados de flores silvestres, os prados transformam-se em pastagens”, explica Mackenzie Kwak. “No entanto, quando temos a presença de plantas Rhinanthus minor, isso enfraquece as ervas que são muito competitivas e, de seguida, obtemos uma diversidade maravilhosa de flores no nosso prado de flores silvestres.”  

Ao substituir as gramíneas por flores silvestres, a Rhinanthus minor também abre espaço para os insetos polinizadores, que por sua vez atraem aves e anfíbios.

“Estas plantas estão a construir a base que sustenta todo o prado e ajudam as frágeis flores silvestres a lidar com a competição”, diz Mackenzie Kwak.

Parasitas de parasitas

O hiperparasitismo acontece quando um parasita vive às custas de outro parasita – na verdade, esta é uma ocorrência bastante comum. Por exemplo, a vespa parasita Hyposoter horticola é explorada pela Mesochorus cf. stigmaticus, outra vespa que põe os seus ovos nas larvas da vespa Hyposoter horticola.

Em alguns casos raros, pode até haver “hiper-hiper-parasitismo”, como um fungo sobre outro fungo num fungo de uma árvore. Na Nova Zelândia, o fungo Rhinotrichella globulifera alimenta-se das partes mortas do fungo Hypomyces c.f. aurantius, que por sua vez se alimenta do fungo Fomes hemitephrus, que coloniza as faias.

Salvem os parasitas

Apesar da sua importância, os parasitas são “estranhamente negligenciados”, diz Jessica Stephenson, professora assistente da Universidade de Pittsburgh que estuda o parasitismo evolucionário.

Um fungo do género Ophiocordyceps emerge dos restos mortais da sua formiga hospedeira.

Fotografia de ANAND VARMA, Nat Geo Image Collection

Por exemplo, os programas de conservação costumam negligenciar estes organismos. De muitas formas, os parasitas estão mais ameaçados do que outros organismos, sobretudo devido às alterações climáticas – existem efeitos diretos da subida das temperaturas globais, que no passado provocaram várias extinções em massa. Basta um só hospedeiro de vários parasitas desaparecer para exterminar várias espécies de parasitas de uma só vez.

“Dada a sua diversidade, isto pode significar que os parasitas estão presentes na maioria das espécies em extinção”, escreveram Mackenzie Kwan e os seus coautores num estudo de 2020 que apela à criação de um “plano global de conservação de parasitas”. O estudo descreve várias formas de proteger os parasitas, incluindo a sua classificação enquanto espécie protegida.

“Em quase todos os animais em extinção que observo, encontro parasitas em risco de extinção, e muitos deles são novas espécies”, diz Mackenzie Kwak.

Este investigador foi um dos primeiros a documentar a ameaçada carraça de pangolim (Amblyomma javanense), que vive no pangolim-malaio, um animal em perigo crítico de extinção, no sudeste asiático. Mackenzie Kwak também deu o nome comum a um dos parasitas mais raros da Austrália, a pulga goblin (Stephanocircus domrowi), que vive no marsupial Gymnobelideus leadbeateri, que também está em perigo crítico de extinção.

De acordo com o estudo, é importante salientar que estes esforços de conservação não se aplicam aos parasitas de humanos ou de gado, como o verme da Guiné, que provoca uma doença debilitante na qual o verme emerge da pele de uma pessoa.

Contudo, Mackenzie Kwak diz que, em muitos outros casos, estas espécies não são necessariamente prejudiciais para os seus hospedeiros. São apenas passageiros nesta longa jornada evolutiva... e vale a pena protegê-los para o bem da integridade e estabilidade dos ecossistemas.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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