Uma doença mortal está a dizimar corais na Flórida e nas Caraíbas

Os investigadores estão apressadamente a tentar impedir a perda de tecido de coral rochoso, que está a matar alguns dos maiores e mais antigos corais da região.

Publicado 17/11/2021, 12:59
Colónia montanhosa de corais em Key West, na Flórida

Em setembro de 2019, os investigadores colocaram um prego nesta colónia montanhosa de corais em Key West, na Flórida, para identificar o avanço rápido da doença de perda de tecido de coral rochoso.

Fotografia de Lucas Jackson/Reuters via Alamy

Um assassino silencioso está a espalhar-se pelas águas das Caraíbas. Conhecida por doença de perda de tecido de coral rochoso, esta doença atinge pelo menos 22 espécies, incluindo alguns dos maiores, mais antigos e mais importantes corais produtores de recifes. As colónias infetadas desenvolvem manchas brancas que aumentam lentamente, drenando a cor e a vida dos animais. Nas espécies mais suscetíveis, como os corais-de-pilar e os corais-cérebro, as colónias infetadas geralmente morrem em poucas semanas ou meses.

“É a pior coisa que já vi”, diz William Precht, especialista em doenças de corais na Flórida.

A doença de perda de tecido de coral rochoso, abreviada para SCTLD na sigla em inglês, foi descoberta no outono de 2014 em corais ao largo de Miami. Esta doença, provavelmente disseminada por uma bactéria ou vírus – ou uma combinação entre ambos – já se propagou por toda a costa da Flórida e grande parte do norte das Caraíbas. Neste momento, a doença manifesta-se em pelo menos 20 países, desde o México até às Honduras e Santa Lúcia. Em maio de 2021, os corais no Parque Nacional Dry Tortugas da Flórida, uma área com bastante diversidade de corais, ficaram infetados com SCTLD.

Os investigadores, incluindo William Precht, estão apressadamente a tentar descobrir o que provoca a doença, como se dissemina e a tentar encontrar uma forma de a tratar. Embora a SCTLD se propague lentamente através das correntes de água, uma nova investigação sugere que também se pode espalhar devido aos navios comerciais ancorados em grandes portos, como o das Bahamas.

Os corais das Caraíbas – que formam a base dos ecossistemas de recife da região – já estão ameaçados pelo aquecimento das águas devido às alterações climáticas, poluição, escoamento de nutrientes e muito mais, aumentando a pressão para desvendar este mistério.

‘Completamente doentio’

O verão de 2014 foi péssimo para os corais na Flórida. Uma vaga de calor fez com que a temperatura da água atingisse um nível recorde na costa, provocando um enorme branqueamento. Isto acontece quando os corais stressados expelem as algas simbióticas, chamadas zooxantelas, que os mantêm vivos. Os corais conseguem recuperar do branqueamento, mas podem enfraquecer e ficar suscetíveis a doenças.

Naquele ano, William Precht, cientista-chefe da Dial Cordy and Associates, uma empresa de consultoria ambiental sediada em Miami, estava a gerir uma série de estações de monitorização de recifes de coral em torno de Miami para rastrear quaisquer impactos provocados por um projeto de dragagem na zona.

O investigador Kevin Macaulay aplica uma pomada antibiótica na superfície de uma colónia de coral infetada, durante um mergulho perto de Key West, em setembro de 2019. Em alguns casos, os antibióticos podem ajudar a retardar o avanço da doença.

Fotografia de Lucas Jackson/Reuters via Alamy

Em outubro, um dos mergulhadores da empresa, chamado Ryan Fura, viu alguns corais que pareciam “um pouco estranhos” num recife a uma curta distância de uma zona de escoamento da estação de tratamento de águas do condado de Miami-Dade, recorda William Precht. Nas semanas seguintes, a doença, que ainda era desconhecida, teve uma propagação aparentemente rápida. William Precht visitou o recife afetado no início de novembro para o verificar pessoalmente.

Mais de metade dos corais parecia estar infetada e alguns já estavam mortos. “Eu não conseguia acreditar nos meus olhos. Era completamente doentio.”

Como se propaga?

O aparecimento da doença noutros lugares tem sido repentino – e devastador. Em outubro de 2019, a SCTLD ainda não tinha chegado às Bahamas, em parte porque a corrente oceânica prevalecente dirige-se para norte até à costa da Flórida. Naquele mês, o ecologista marinho Craig Dahlgren e os seus colegas pesquisaram cerca de 100 quilómetros de recife e não encontraram qualquer coral doente. Ainda assim, em novembro, a equipa continuava a receber relatórios a indicar que os corais nas proximidades de Freeport tinham uma infeção desconhecida – que rapidamente se descobriu tratar de SCTLD.

Durante outra extensa investigação feita em março de 2020, Craig Dahlgren, em parceria com o Instituto Perry de Ciência Marinha, investigou novamente mais de 100 quilómetros de recife – e encontrou corais infetados em todo o lado, particularmente corais-de-pilar e corais-cérebro. Em poucos meses, a grande maioria das colónias infetadas estava morta.

Esquerda: Superior:

Uma colónia de coral-cérebro sulcado – uma espécie altamente suscetível à SCTLD – fotografado num laboratório perto de Tampa, na Flórida. Os investigadores estão a estudar estes corais numa corrida contra o tempo para descobrir a causa da doença e uma forma de tratamento.

Direita: Fundo:

O coral de flores espinhosas é uma das 22 espécies que podem ficar infetadas com SCTLD. Os corais-cérebro e os corais-de-pilar também são particularmente vulneráveis à doença.

Fotografia de Lucas Jackson/Reuters

Muitos dos corais afetados formam as estruturas dominantes dos recifes – como as impressionantes colunas dos corais-de-pilar – e podem viver durante séculos.

“Colónias que levaram centenas de anos a crescer podem ser eliminadas numa questão de semanas”, diz Craig Dahlgren.

Em julho de 2021, Craig Dahlgren e os seus coautores publicaram um estudo a mostrar que a doença vinha dos portos comerciais de Freeport e Nassau. Uma explicação plausível para este padrão: os navios comerciais estão a espalhar a doença. Existe a possibilidade de os patógenos estarem a ser transportados na água de lastro dos navios comerciais, que é mantida em tanques para estabilizar os enormes navios. No entanto, são necessárias mais investigações para confirmar esta hipótese, diz William Precht.

Em janeiro de 2019, a SCTLD também chegou repentinamente às Ilhas Virgens dos EUA, perto do porto de embarque comercial de Crown Bay, na ilha de St. Thomas. Depois, propagou-se gradualmente pela ilha e para a vizinha St. John, saltando repentinamente para dois locais separados em St. Croix – ambos perto de portos de embarque comercial, diz Marilyn Brandt, que estuda corais na Universidade das Ilhas Virgens, na ilha de St. Thomas.

A doença tem sido devastadora para os recifes das Ilhas Virgens, que em alguns lugares perderam entre metade e três quartos dos seus corais num período de dois anos após a primeira infecção.

“De tudo o que vi até agora, isto é de longe o pior”, diz Marilyn Brandt.

Marilyn Brandt receia que a perda de corais afete as populações de peixes, para além de também impactar negativamente a economia que depende fortemente dos mergulhos com snorkel e do turismo de mergulho nos recifes de coral.

A guarda costeira de vários países, incluindo das Bahamas, emitiu recomendações aos navios para não trocarem a água de lastro nos portos. Porém, até agora, foram aprovadas poucas leis para impedir esta prática.

Para evitar que a SCTLD se espalhe entre as ilhas, os navios precisam de ser mais cuidadosos sobre a forma como e quando trocam a água de lastro, e evitar a sua libertação perto de portos e recifes de coral, diz Craig Dahlgren.

Identificar a causa

Ainda ninguém sabe ao certo o que provoca a doença – mas dezenas de investigadores estão a trabalhar para identificar a causa.

Um estudo de caso publicado online neste outono pelo investigador Thierry Work, do Serviço Geológico dos EUA, ofereceu uma pista interessante. Enquanto observava as células infetadas de coral com um microscópio eletrónico, Thierry Work reparou que as células zooxantelas destes corais aparentavam estar cheias de buracos. No interior das células degradadas, Thierry Work encontrou umas partículas curiosas semelhantes a fios – “pareciam esparguete empacotado”.

Os chamados fios eram vírus não identificados, semelhantes em tamanho e forma aos vírus de plantas da família Flexiviridae. Thierry Work não consegue provar que estes vírus são os responsáveis pela doença, mas suspeita que estejam a desempenhar um papel importante, e vários investigadores estão a fazer o acompanhamento da sua descoberta.

Karen Neely, ecologista de corais da Universidade Nova Southeastern, com um pedaço de coral-cérebro doente enquanto mergulha para recolher amostras nas colónias de recifes afetadas perto de Key West, na Flórida, em setembro de 2019.

Fotografia de Lucas Jackson/Reuters

Mas há motivos para haver algum ceticismo. Por um lado, os corais infetados respondem bem aos antibióticos, que matam bactérias, não vírus. Por outro lado, os antibióticos podem ter efeitos estimulantes no sistema imunitário que afetam algo mais do que os alvos pretendidos. Os trabalhos preliminares também mostram que alguns dos corais infetados respondem favoravelmente a tratamentos antivirais.

Os corais aparentemente saudáveis que Thierry Work examinou também tinham partículas virais nas suas zooxantelas, mas Thierry acredita que estes corais podem não ter sido tão saudáveis quanto se supunha – e que talvez também tivessem probabilidades de adoecer no futuro – ou tivessem uma doença assintomática.

Alguns investigadores suspeitam que a culpa é provavelmente de uma bactéria. Marilyn Brandt e Erinn Muller, bióloga do Laboratório Marinho Mote em Sarasota, examinou os tipos de bactérias que eram mais prevalentes nos corais doentes das Ilhas Virgens e da Flórida, respetivamente.

William Precht concorda que a causa é provavelmente uma bactéria, talvez semelhante à bactéria que provoca uma doença bem conhecida nos corais que se chama peste branca.

Um banho de micróbios

Também é provável que não exista só um culpado. Os corais stressados pelo calor também ficam mais suscetíveis a uma infeção por qualquer patógeno. Para além disso, as doenças dos corais são frequentemente provocadas por mais do que um patógeno.

“Tem de ser algo complexo, porque não há um sinal claro vindo de qualquer um dos nossos estudos”, diz Amy Apprill, bióloga da Instituição Oceanográfica Woods Hole que estuda a SCTLD. Amy Apprill suspeita de uma interação complicada entre um ou mais patógenos – talvez até mesmo bactérias e vírus – e o microbioma do coral.

Julie Meyer, microbióloga marinha da Universidade da Flórida, concorda que provavelmente esta doença é provocada por vários micróbios. Na sua investigação, Julie Meyer sequenciou o genoma de todos os micróbios presentes no coral para procurar pistas sobre uma causa.

“Este tipo de investigação é muito difícil porque o oceano é basicamente um banho de bactérias e vírus”, diz Julie Meyer. Também não se sabe muito sobre as doenças dos corais em geral, ou as complexidades dos sistemas imunitários dos corais – muito menos os sistemas imunitários das 22 espécies afetadas.

Pelo lado positivo, há uma enorme quantidade de investigações a decorrer neste momento, com vários artigos enviados para publicação todas as semanas.

“É uma crise enorme”, diz Marilyn Brandt. “Toda a comunidade de investigação está a dar o máximo nisto.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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