Conheça o morcego que come outros morcegos

Os cientistas estão a aprender mais sobre o raramente avistado morcego-espectral, ou “jaguar alado” da América Latina.

Por Jason Bittel
Publicado 17/12/2021, 11:15
Mais mistérios revelados sobre morcego-espectral

Um morcego-espectral, a maior espécie de morcego do hemisfério ocidental, alimenta-se de um morcego-da-fruta de cauda curta.

Fotografia por Marco Tschapka

RESERVA ARQUEOLÓGICA DE LAMANAI, BELIZE – “É o Vampyrum!” dizia Winifred Frick num trilho escuro mais à frente. A floresta tropical à nossa volta fervilhava de vida, enquanto os sons dos macacos-uivadores irrompiam pela noite. Quando alcancei Winifred Frick junto à rede de neblina – uma malha negra que os cientistas usam para apanhar morcegos – olhei atentamente, mas o que vi fez o meu coração palpitar.

Winifred Frick, a cientista-chefe da organização sem fins lucrativos Bat Conservation International e ecologista da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, estava a verificar as redes usadas para a investigação de morcegos este ano no Belize. Nesta expedição feita em novembro, vi de perto dezenas de morcegos na Reserva Arqueológica de Lamanai: morcegos com rostos enrugados parecidos com os de buldogues, morcegos probóscides com nariz de Pinóquio e até mesmo morcegos-vampiros comuns com dentes assustadores.

Nenhum destes morcegos era maior do que uma ave canora. Mas o morcego que eu tinha agora à minha frente era do tamanho de um corvo – com orelhas, focinho e dentes à mostra. O Vampyrum spectrum, mais conhecido por morcego-espectral, é o maior morcego do hemisfério ocidental, com uma envergadura de asas de até um metro.

O Vampyrum spectrum é por vezes denominado morcego-vampiro falso – o falso deve-se ao facto de não sugar sangue como os seus primos vampiros; só come carne. Estes predadores de topo caçam roedores, grandes insetos, pássaros e outros morcegos, chegando a atacar as suas presas em pleno voo.

Com isto em mente, Winifred Frick – que já interagiu com milhares de morcegos ao longo dos seus 20 anos de carreira, mas que nunca lidou com um morcego-espectral – tirou da sua mochila um par de luvas de cabedal ainda mais grossas. “Se eu não tiver cuidado, vou ficar toda mordida”, disse Winifred Frick.

Na semana anterior, uma equipa de investigação diferente tinha capturado um morcego-espectral fêmea – a primeira da espécie alguma vez avistada nesta região em 14 anos de investigações.

Ao desenlear o morcego da rede para observar mais de perto, Winifred Frick ficou surpreendida quando descobriu buracos em cada asa – sugerindo que se tratava da mesma fêmea que os seus colegas tinham capturado anteriormente. (Esta perfuração é um método de investigação rápido e inofensivo para recolher amostras genéticas. A pele regenera rapidamente e não afeta as capacidades de voo dos animais.)

“Os morcegos são partes importantes da biodiversidade dos mamíferos, e o Vampyrum spectrum em particular é um ótimo exemplo de um morcego visualmente impactante”, diz Winifred Frick. “Estes morcegos são os jaguares alados das florestas tropicais da América Central e do Sul.”

‘Um morcego muito especial’

Melissa Ingala, investigadora que colabora com o Museu Americano de História Natural, na cidade de Nova Iorque, e os seus colegas colocaram um pequeno identificador sob a pele do morcego e recolheram amostras fecais para determinar o que tinha comido recentemente. Se este morcego for novamente capturado, a equipa pode comparar as amostras fecais para ver se a sua dieta mudou – informações importantes sobre o seu comportamento, diz Melissa Ingala.

“É muito raro capturarmos estes animais e é por isso que sabemos muito pouco sobre eles”, diz Nancy Simmons, curadora do Departamento de Mamalogia do Museu Americano de História Natural. Nancy Simmons e Brock Fenton, professor emérito da Universidade Western, no Canadá, são os organizadores destas investigações anuais de morcegos – um esforço que já resultou em 60 publicações científicas.

“Acredito que os Vampyrum spectrum, em particular, estão apenas à procura de pequenos vertebrados e, quando ouvem um ruído estranho, vão investigar”, diz Nancy Simmons.

Os morcegos geralmente comem insetos, frutas ou néctar, mas um estudo feito recentemente revela que o Vampyrum spectrum é uma das nove espécies de morcegos que se qualificam como carnívoras.

As investigações sugerem que estas espécies, que incluem o falso morcego-vampiro-lanoso (Chrotopterus auritus) e um morcego que come rãs (Trachops cirrhosus), desempenham um papel que é pouco valorizado enquanto predadores de topo nos seus ecossistemas, ajudando em parte a controlar as populações de presas.

Desde o sul do México até ao Brasil, o morcego-espectral voa noite dentro à procura de aves, atacando-as nos ramos das árvores ou nos ninhos. Estes mamíferos voadores também apanham roedores nas folhas junto ao solo.

“Os morcegos mergulham e envolvem as suas presas com as asas”, diz Rodrigo A. Medellín, ecologista da Universidade do México que é coautor do estudo feito recentemente sobre morcegos carnívoros, mas que não fez parte da expedição ao Belize.

“Depois, como acontece com os jaguares, desferem a sua dentada mortal, geralmente na nuca.”

Apesar de poder parecer dramático, os cientistas raramente testemunharam este evento, provavelmente porque as densidades de morcegos-espectrais são muito baixas, como acontece com outros predadores de topo. Além disso, como estes predadores precisam de espaço para caçar, a perda de habitat é um problema sério: a União Internacional para a Conservação da Natureza classifica os morcegos-espectrais como estando “quase ameaçados de extinção”.

“Esta floresta pode ter cinco morcegos destes – provavelmente é apenas esta fêmea, o seu parceiro e a sua prole”, diz Melissa Ingala. Por outro lado, podem haver centenas ou até mesmo milhares de várias outras espécies de morcegos na mesma floresta.

“Este é um morcego muito especial”, diz Melissa Ingala.

Para estes carnívoros, a família é o mais importante

Com o intuito de aprender mais sobre os morcegos-espectrais, Rodrigo A. Medellín oferece uma recompensa de 1.000 dólares a quem lhe mostrar poleiros de Vampyrum spectrum no México, o seu país natal. Até agora, esta recompensa já revelou três poleiros.

“São três poleiros a mais do que qualquer pessoa conhece no mundo”, brinca Rodrigo Medellín, que também é Explorador da National Geographic.

Apesar de serem poucos, estes poleiros já revelaram informações valiosas. Por exemplo, Rodrigo Medellín e a sua equipa descobriram que, quando os morcegos-espectrais fêmea ficam no poleiro com uma cria – que pode ter quase metade do seu tamanho – é o macho quem lhes leva roedores e outras presas.

“Este tipo de alimentação suplementar não era conhecido nestes morcegos”, diz Rodrigo Medellín.

As experiências feitas por Rodrigo com morcegos-espectrais em cativeiro mostram que estes animais deixam de usar a ecolocalização quando se aproximam das suas presas – talvez porque os ultrassons da ecolocalização podem alertar os outros morcegos e até mesmo alguns roedores. Em vez disso, os morcegos-espectrais parecem depender dos sons produzidos pelas próprias presas.

“Também há uma hipótese que eu ainda preciso de testar, que é a de que os morcegos também podem estar a usar o olfato”, diz Rodrigo. Muitas das espécies de aves que o Vampyrum spectrum costuma comer, como cucos, têm odores corporais fortes e nidificam em comunidade. “São facilmente identificáveis para um predador.”

Rodrigo Medellín diz que está intrigado com o facto de os morcegos matarem e comerem pássaros grandes, como papagaios da Amazónia, porque podem pesar mais do que um morcego-espectral. “Estas aves conseguem facilmente decapitar [um] morcego com os seus bicos. Contudo, o Vampyrum spectrum alimenta-se delas.”

Mundo dos Vampyrum

O estudo feito recentemente por Rodrigo Medellín revela que algumas espécies de morcegos carnívoros vivem em territórios sobrepostos e a sua presença ou ausência parece afetar o comportamento dos outros morcegos. (Os morcegos são os verdadeiros super-heróis do mundo animal – descubra porquê.)

Por exemplo, tanto o Vampyrum como o Chrotopterus (falsos morcegos-vampiros-lanosos) gostam de se empoleirar em árvores ocas. Ainda assim, nas áreas onde as duas espécies estão sobrepostas, o Chrotopterus tende a empoleirar-se em cavernas, sítios arqueológicos e bueiros elevados.

“Mas quando o Vampyrum sai desse sistema, quer seja porque está a subir em altitude ou latitude, o Chrotopterus regressa para as árvores ocas.”

Tudo isto sugere a Rodrigo Medellín que as outras espécies de morcegos que vivem no mundo do Vampyrum adaptam os seus comportamentos por motivos de segurança. E agora que vi um morcego-espectral em carne e osso, não os posso censurar.

A National Geographic Society, empenhada em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou o trabalho do Explorador Rodrigo A. Medellín.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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