Hipopótamos, hienas e outros animais estão a contrair COVID-19

Os investigadores descobriram mais espécies suscetíveis ao coronavírus, com a maioria dos casos detetados em zoológicos.

Por Natasha Daly
Publicado 14/12/2021, 11:10
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Em setembro, seis leões (alguns dos quais aparecem nesta fotografia tirada em maio) e três tigres testaram positivo para a COVID-19 no Zoo Nacional Smithsonian em Washington D.C. Estas espécies são apenas duas das 15 que testaram positivo nos EUA.

Fotografia por Pete Kiehart, Bloomberg via Getty Images

Em novembro, as hienas Ngozi e Kibo, de 22 e 23 anos, começaram a apresentar sintomas como tosse, letargia e obstrução nasal num zoo no Colorado. Estes sintomas eram sinais de algo inédito a nível global: os animais do Zoo de Denver tornaram-se nas primeiras hienas de que há conhecimento a ficarem infetadas com COVID-19.

Este acontecimento, quase 20 meses depois do aparecimento da pandemia, faz parte de um padrão observado nos últimos meses. No dia 6 de outubro, um urso-gato-asiático e um gato-pescador testaram positivo no Zoo de Chicago, seguidos uma semana depois por um quati. Dois hipopótamos num zoo na Bélgica também testaram positivo no dia 5 de dezembro.

Estes animais são os primeiros das suas espécies a contrair o vírus e agora fazem parte de um grupo de 315 animais de 15 espécies nos Estados Unidos que têm SARS-CoV-2, o vírus que provoca a doença COVID-19. Esta lista também inclui gatos, cães, tigres, leões, leopardos-das-neves, gorilas, lontras, um puma, um furão e veados-de-cauda-branca. (Os visons infetados, quase todos em quintas de produção de peles, não estão incluídos nestes números.)

O que sabemos sobre os animais que podem contrair o vírus? E o que significa para os animais – e para nós?

Alguns animais são mais suscetíveis?

Os casos têm afetado principalmente os animais carnívoros. (Estes animais pertencem a uma ordem de mamíferos que inclui gatos selvagens e domésticos, cães, lobos, ursos e muito mais. Carnívoro é um termo genérico para qualquer animal cuja dieta consista maioritariamente no consumo de carne. Os tubarões, por exemplo, são carnívoros, mas não são da ordem Carnivora).

As hienas, o urso-gato-asiático, o quati e o gato-pescador são carnívoros, assim como os gatos domésticos e os grandes felinos que já apresentam resultados positivos desde o início da pandemia.

Isto não significa necessariamente que os carnívoros são mais suscetíveis – ainda não existem dados suficientes para fazer essa avaliação, diz Elizabeth Lennon, veterinária da Escola de Medicina Veterinária da Universidade da Pensilvânia.

Porém, no caso dos grandes felinos, a história já é diferente – noventa testaram positivo nos EUA, de acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA. “Creio que, se observarmos o panorama geral de todos os zoológicos, podemos afirmar com algum grau de certeza que os grandes felinos são mais suscetíveis às doenças clínicas”, diz Elizabeth Lennon.

Algumas espécies são mais suscetíveis a determinadas variantes

Podemos usar como exemplo os ratos, que escaparam ilesos ao vírus SARS-CoV-2 original, mas sabe-se que podem estar infetados com a variante Beta.

À medida que surgem novas variantes nos humanos, o vírus pode estar a expandir a sua gama de hospedeiros – sofrendo mutações para infetar mais espécies e podendo até circular “silenciosamente” entre os animais, criando um novo reservatório, diz Diego Diel, professor-adjunto e diretor do laboratório de virologia da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Cornell.

Mas as novas variantes também podem ser inofensivas para algumas espécies, diz Diego Diel. “Conforme o vírus fica mais eficaz na transmissão entre humanos, pode ficar menos eficaz a movimentar-se entre os animais.”

Até agora, com exceção para os visons, não existem evidências de que qualquer espécie, incluindo os animais de estimação, possa transmitir o vírus aos humanos, ou que as variantes surgiram após sofrerem mutações noutra espécie.

A maioria dos animais não parece adoecer gravemente de COVID-19

A maioria dos animais nos EUA – incluindo as hienas Ngozi e Kibo – apresentaram apenas sintomas ligeiros e recuperaram completamente.

Os casos mais graves de doença foram registados em leopardos-das-neves e visons. Em novembro, no Zoo Infantil de Lincoln, no Nebraska, morreram três leopardos-das-neves devido a complicações provocadas pela COVID-19. Não se sabe se estes animais tinham condições subjacentes. Milhares de visons morreram em 17 quintas de produção de peles no Utah e noutros estados norte-americanos. E milhões de visons foram abatidos em quintas na Dinamarca e nos Países Baixos.

Buddy, o primeiro cão a testar positivo para a COVID-19 nos EUA, morreu em julho, mas tinha linfoma, algo que, de acordo com os especialistas, pode ter influenciado.

A importância do estudo da COVID-19 nos animais

“Assim que há mais do que uma espécie que consegue manter e transmitir um vírus, as implicações são significativas para as estratégias de controlo e prevenção”, diz Diego Diel. Portanto, é crucial descobrir se alguma destas espécies se pode tornar num reservatório para o vírus.

“Os animais apresentam riscos diferentes e desconhecidos”, diz Elizabeth Lennon. “É verdadeiramente importante que se continue a vigiar muitas espécies diferentes, porque o vírus está muito disseminado, aumentando assim as possibilidades de exposição e transmissibilidade.”

Os testes costumam privilegiar os animais que revelam sinais de doença

É provável que o número de infeções em animais nos EUA exceda os 315 casos registados, diz Diego Diel. Se os animais não apresentarem sintomas, é pouco provável que sejam testados, e isso dificulta a deteção de potenciais propagadores silenciosos – animais que podem contrair e transmitir o vírus sem nunca apresentarem sintomas.

O veado-de-cauda-branca é uma espécie que os cientistas estão a monitorizar de perto. Este ano, um estudo que analisou o sangue de mais de 600 veados em quatro estados dos EUA encontrou anticorpos para o coronavírus em quase 40% das amostras. No mês passado, foram detetados mais três casos de COVID-19 em veados no Québec, no Canadá. Nenhum dos animais apresentava sinais de doença.

Não existem evidências de que os veados podem transmitir o vírus aos humanos ou a outras espécies. Mas a ameaça de um reservatório silencioso é motivo de preocupação. “É por isso que os especialistas estão tão preocupados com as investigações feitas sobre estes veados”, diz Elizabeth Lennon. Se um vírus se propagar silenciosamente e sofrer mutações numa grande população de animais, é muito mais difícil de controlar e erradicar.

A esmagadora maioria dos casos em animais nos zoos dos EUA foram relatados por instalações credenciadas

Tanto o Zoo de Bronx, onde os primeiros tigres e leões testaram positivo em abril de 2020, como o Zoo Safari Park de San Diego, onde o primeiro gorila acusou positivo em janeiro de 2021, e o Zoo Infantil de Lincoln, lar dos três leopardos-das-neves que morreram, fazem parte da Associação de Zoológicos e Aquários (AZA) dos EUA, uma organização sem fins lucrativos que define padrões para os cuidados de saúde e segurança dos animais.

Os protocolos veterinários mais rigorosos da AZA significam que os tratadores têm mais propensão para detetar doenças nos seus animais e realizar mais testes, diz Dan Ashe, presidente da AZA. “Eles monitorizam constantemente os animais. Se houver alguma coisa estranha, eles verificam logo.”

De acordo com veterinários de vários zoológicos credenciados pela AZA, as rotinas durante a pandemia incluem a utilização de equipamento de proteção individual e a redução dos contactos de proximidade com os animais. “Os nossos membros adotaram várias medidas para proteger os animais e mesmo assim continuamos a descobrir infeções”, diz Dan Ashe. “Portanto, é difícil acreditar que seja diferente noutras instalações onde os contactos de proximidade são muito mais – digamos – liberais.”

Não se sabe o que está acontecer nos zoos ambulantes que oferecem interações com os animais

Muitos dos chamados zoos “à beira da estrada”, como os apresentados na série Tiger King da Netflix, oferecem contactos diretos com os animais, sobretudo com crias de tigres e leões – espécies conhecidas por serem suscetíveis ao vírus. Estes zoológicos precisam de uma licença do Departamento de Agricultura dos EUA para exibirem os animais, mas não são credenciados pela AZA, que não permite contacto entre os grandes felinos e o público. (Zoo de ‘Tiger King’ reabre com grandes multidões, expondo felinos a coronavírus.)

Os padrões estabelecidos pelo Departamento de Agricultura dos EUA ficam muito aquém das exigências estipuladas pela AZA, e os zoos ambulantes são conhecidos pela sua neglicência nos cuidados veterinários e protocolos de segurança. Não se sabe se os grandes felinos nos zoológicos ambulantes ou em instalações de criação foram testados para o vírus ou morreram devido ao mesmo.

“Acho que o risco é maior nestes tipos de zoos”, diz Diego Diel. “Um dos requisitos para a transmissão do vírus é o contacto de proximidade e, em todas as situações em que aumentamos o número de pessoas que interagem com animais, os riscos aumentam.”

São necessários mais dados e estudos

Apesar de a COVID-19 ser maioritariamente uma doença humana, Elizabeth Lennon diz que o número crescente de espécies animais suscetíveis ao vírus é um alerta. “Precisamos de acompanhar atentamente várias espécies diferentes e as novas variantes, como é o caso da Ómicron. Este vírus tem surpreendido os especialistas desde o início... não podemos baixar a guarda, porque estamos sempre a aprender.”

Como pode ajudar

1. Se testar positivo para a COVID-19, isole-se dos seus animais de estimação, tal como faria com outros humanos. Se o seu animal de estimação apresentar sinais de doença, contacte o veterinário.

2. Evite tocar ou aproximar-se de grandes felinos nos zoológicos para evitar a propagação do vírus. Os tigres e leões são suscetíveis à COVID-19.

3. Se ainda não está vacinado, faça-o agora. A vacinação reduz comprovadamente a disseminação de COVID-19, protegendo assim humanos e animais.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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